Kampai! : Uma iguaria chamada Anime

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Anime. A mera menção do estilo de animação oriental, popularizado por produções de origem japonesa, teve sempre um certo estigma associado a si em terras ocidentais. Embora nomes como Dragon Ball, Sailor Moon ou Samurai X tenham legitimado um pouco o género no nosso país, é ainda frequente sentir-se o ostracismo de que ele é vítima vindo de faixas etárias mais adultas que relacionam o seu desinteresse com o facto do material ser basicamente um desenho animado e,  consequentemente, para crianças.

Embora isso não pareça impedir os filmes da Pixar, Dreamworks ou Disney, também eles com tendência para o condescendente e o fácil, de arrecadar milhões todos os anos, o mesmo não se passa com os seus homólogos mais à direita no mapa. Não deixa de ser verdade que, tal como em toda a espécie e sub-espécie de géneros de media, há uma grande fatia do Anime devotado a públicos específicos como o infantil mas é igualmente errado assumir que na Ásia ou em qualquer outra parte do Mundo uma certa plataforma apela apenas a uma certa faixa etária baseando essa opinião num par de exemplos.

O intuito desta lista é desmistificar um pouco essa noção, apresentando 10 títulos dentro do género que o ajudam a definir exactamente como um formato mais que legítimo para todo o tipo de audiências. Estes não estão, propositadamente, dispostos por qualquer tipo de ordenação especial para que o leitor possa tirar as suas próprias conclusões após a leitura da breve síntese justaposta a cada nome.

Bons filmes.

 

 

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Barefoot Gen (1983)

 

Hiroshima e Nagasaki podem ser apenas os nomes de duas cidades japonesas mas desde 1945 que têm a sinistra distinção de estar também associados a um dos mais devastadores actos de guerra alguma vez perpetrados. O ataque com bombas atómicas às duas cidades japonesas acelerou o passo do Japão até à sua rendição e o eventual fim do conflicto armado conhecido como Segunda Guerra Mundial mas a severidade do custo que o país teve de pagar ainda hoje é motivo de debate relativos aos níveis éticos e morais do ataque.

Baseado numa série manga (equivalente oriental de BD) escrita por um sobrevivente do ataque, Barefoot Gen é um olhar franco e inflexível da tragédia na cidade de Hiroshima do ponto de vista de uma criança japonesa que vê toda a realidade que conhecia desaparecer num ápice num turbilhão de calor e morte. Dada a elevada presença de imagens de conteúdo extremo  este é um título que, embora essencial, provavelmente irá chocar facilmente espectadores mais sensíveis.

 

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Evangelion 1.0: You Are (Not) Alone (2007)

 

Se alguma vez ouviram o termo Anime anteriormente, é bem possível que Neon Genesis Evangelion tenha feito parte da mesma conversa. Em termos de mediatismo esta saga poderia quase ser considerada como o Star Wars nipónico, não pelo formato ou pelos temas do material em si mas sim pelo mediatismo e pelo estatuto de culto que adquiriu ao longo dos anos. Atraídos pelo espectáculo visual de lutas entre robots e monstros, os fãs ficaram depois apegados ao crescente intuito da série explorar o seu lado mais paranormal e as suas ligações aparentemente superficiais ao simbolismo religioso. Quase 20 anos depois do seu lançamento original NGE mantém algumas cabeças  em água como ninguém.

A série original de TV foi criada por Hideki Anno, acção essa que lhe valeu tudo entre aclamação como autor influente e múltiplas ameaças de morte enviadas por fãs extremamente desapontados com o final da história. Desde então vários suplementos foram lançados para tentar dar uma resposta definitiva aos eventos da série, sendo a saga Rebuild (iniciada com este filme) o mais recente exemplo. Agora com um orçamento cinematográfico e uma maior janela de oportunidade, Anno deconstruiu e voltou a erguer a sua história adicionando novos pormenores enquanto, ao mesmo tempo, tenta encaixar uma série de 25 episódios em 4 filmes com, sensivelmente, metade da duração.

Sem surpresas, um grande número de fãs já manifestou o seu desagrado para com as novas mudanças.

 

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Ghost in the Shell (1995)

 

Este é um bom exemplo de Anime que foi influenciado e por consequência acabou também por influenciar. Embora baseado numa manga dos anos 80, as semelhanças entre Ghost in the Shell e o clássico Blade Runner, de Ridley Scott, são inegáveis. Para além do estilo cyberpunk bastante estilizado, ambos propõem a mesma a grande questão relativa à condição humana a cada novo frame. Centrado num cenário futurista onde as pessoas podem optar por passar as suas mentes (ou ghosts) para corpos cibernéticos (ou shells) que estão ligados a uma gigante rede neuronal, GITS tem o condão de combinar a abordagem a noções tão contemporâneos como o nihilismo  existencial com a discussão da ética por trás do mundo tecnológico que se aproxima, sendo a cobertura uma história de perseguição policial e corrupção política.

Na vez de Rick Deckard está Motoko Kusanagi, uma oficial e hacker de elite que lidera um corpo de intervenção especial que lida com casos de cibercrime, como por exemplo o acesso ilegal à mente de alguém. É num destes casos que a unidade se depara com alguém que se auto-denomina como Puppet Master, um criminoso brilhante que irá levar Motoko numa viagem mais introspectiva do que alguém dentro ou fora da história poderia prever. Não é à toa que filmes como a trilogia Matrix ou Dark City vieram beber a esta fonte.

Como se um guião tão sólido não bastasse, GITS é também uma maravilha visual do pano de fundo sujo e húmido da cidade futurista, passando pela atenção dada ao design das personagens e terminando na animação extremamente detalhada que faz qualquer cena parecer uma pintura. Um clássico não só da animação mas do Cinema asiático.

 

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Perfect Blue (1997)

 

Como última adição à parte mais instigante ao pensamento desta lista entra Perfect Blue de Satoshi Kon. Se é fã dos filmes de Darren Aronofsky é capaz de reconhecer a imagem acima, já que o realizador gostou tanto da película que adquiriu os seus direitos apenas para que pudesse copiar a cena supracitada no seu filme Requiem for a Dream. Contudo a derradeira prova de que Aronofsky é um fã desta obra é Black Swan,o aclamado filme de 2010 que segue uma trama semelhante à deste filme, trocando o mundo da música pelo da dança. O realizador americana afirma que tal não é verdade mas as semelhanças são demasiadas para serem ignoradas.

Perfect Blue foi também ele inspirado em thrillers clássicos como os do Alfred Hitchcock onde o poder de sugestão e a aura de paranóia estabeleciam grande parte da tensão numa época onde aquilo que se podia ou não mostrar na tela estava bem delineado. A história de uma estrela pop que se vê criticada e perseguida após tentar transicionar para o mundo da representação é uma de desconforto, medo, dúvida e de identidade. No curso de 80 minutos as curvas e contracurvas do guião fazem desta uma viagem que deixa pouco tempo ao espectador para se tornar confortável com o status quo até o próximo twist chegar e mudar a perspectiva da história mais uma vez.

O filme tende a mover-se com um ritmo mais lento ao início mas seria errado erróneo pensar que isso equivale a porções aborrecidas da história. Tal como qualquer bom thriller, este toma o tempo necessário para enaltecer a força da sua base de modo a poder introduzir o ritmo mais frenético que deseja num ponto mais avançado da história sem comprometer a qualidade desta. Se o que procuram é uma obra palpitante para ver na solidão do escuro, podem cessar essa busca.

 

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Princess Mononoke (1997)

 

Seria difícil fazer uma lista deste género sem mencionar o Studio Ghibli e o nome de Hayao Miyazaki, dois dos maiores e mais conhecidos nomes dentro da vertente cinematográfica do Anime. Embora a história do estúdio e do realizador esteja marcada por muitos e bons êxitos, Princess Mononoke continua a ser o maior e melhor conseguido trabalho de ambos até á data. É difícil falar desta obra sem nos alargarmos sobre a sua escala épica, mistura de tons ou animação de topo pelo que ficará aqui apenas a nossa mais alta recomendação para crianças e adultos, fãs de acção ou drama, cépticos ou idealistas . O filme não discrimina na hora de encantar.

 

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Tokyo Godfathers (2003)

 

Da loucura para o bom senso viajou Satoshi Kon entre Perfect Blue e Tokyo Godfathers, um drama que partilha pouco com o filme de estreia do autor. Tokyo Godfathers é um drama extremamente emocional que conta a história de três sem-abrigo que encontram um bébé recém-nascido enquanto vasculham uma pilha de lixo durante a Véspera de Natal. A bondade nos seus corações impele-os a tentar encontrar os pais da criança usando as pistas que foram deixadas junto à mesma, já que seria impossível para o grupo cuidar efectivamente de alguém dada a sua condição extremamente precária.

O trio principal é composto por um alcoólico, um travesti e uma fugitiva ; três personagens bastante decalcadas umas das outras mas cuja química em grupo é inegável. Embora a história dos 4 protagonistas pareça estar envolta em tragédia, rejeição e tristeza,  é introduzido um forte sentido cómico na história para nos lembrar da luz no meio da escuridão, personificada pelo pequeno grupo inserido no meio de uma sociedade que os ignorou. É de notar que isso não significa que o tom dramático da trama é deixado para trás (muito pelo contrário), apenas é criada uma mistura dos dois elementos de maneira a abordar temas mais pesados com um tom mais leve.

 

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Ninja Scroll (1993)

 

Quem não gosta de um bom blockbuster de vez em quando? De pegar no balde das pipocas, encostar a cabeça e gastar a maior parte de 2 horas a ver duas entidades a desfazerem-se mutuamente? Ninja Scroll cai exactamente nessa categoria, um filme de acção que não parece estar satisfeito consigo próprio enquanto outro membro não saltar do corpo de alguém com a ajuda de uma espada ou qualquer outro objecto cortante. Entre os níveis obscenos de violência e o acentuado conteúdo sexual, este é um daqueles filmes que não querem que passe na TV da sala quando a vossa avó estiver presente. Guardem-no para uma matiné com amigos.

 

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Redline (2009)

 

Um pouco na veia do filme anterior surge Redline,  outro filme cuja existência se justifica unicamente pela necessidade humana de ver algo enorme explodir de vez em quando. Uma verdadeira ode ao exagero e à destruição, a definição bastante simplista da sua trama pode induzir que este é um produto que pode ser equiparado aos blockbusters americanos  como Transformers que tanta crítica reúnem por serem tão apegados ao estilo e não à substância. Embora esse seja também aqui o caso, há um factor-chave que redime todo o filme: ao contrário de Transformers, Redline assume-se desde o início como algo com espírito livre onde a seriedade simplesmente não tem lugar. Tem o aspecto curioso de ter passado 7 anos em produção onde os animadores passaram o tempo a desenhar cada frame do filme à mão.

Construída à volta de uma corrida automóvel intergaláctica, esta aventura louca tem como protagonista um corredor de seu nome JP cujo cabelo é adornado numa crista com o dobro do tamanho da sua cabeça e que tem como grande rival um enorme robot que se funde com o seu veículo. No calor da corrida, as velocidades que eles e os restante participantes atingem são tais que por momentos eles parecem fundir-se a nível sub-atómico com as partículas que os rodeiam como se nada fosse. Depois de uma descrição destas, como é possível não querer ver este filme?

 

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Wolf Children (2012)

 

Estas duas últimas propostas  irão apelar a um público mais jovem mas tal não invalida que possam ser apreciados por toda a família, muito ao estilo Disney. O primeiro título é Wolf Children, uma história que tem tanto de fantasia como de verdadeiro e se notabiliza nos dois campos de forma brilhante. A premissa tende a levantar o sobrolho em dúvida nos minutos iniciais mas quando esta se revela em pleno o resultado não podia ser mais satisfatório.

Uma estudante universitária que se envolve com um homem que tem o poder de se transformar em lobo não é propriamente a linha mais cativante para começar uma descrição mas é assim mesmo que se inicia esta história emocional. Depois de ficar grávida e de ser ver sozinha com 2 gémeos que herdaram os poderes do pai, o conto desta jovem transcende o lado da fantasia para se tornar uma vénia ao trabalho de uma mãe solteira que lida com a situação de equilibrar os estudos, o trabalho e a condição única dos filhos praticamente sozinha. O passar dos anos traz o crescimentos das crianças, uma rapariga e um rapaz, e a forma de como a sua condição tão especial se relaciona com o crescimento interior e exterior trazido pela idade.

Sublimemente animado e repleto de sequências que puxam dos galões emocionais, Wolf Children é um bom exemplo de uma excelente história com várias camadas.

 

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My Neighbors the Yamadas (1999)

 

De novo com o Studio Ghibli mas desta vez com o realizador Isao Takahata, o último nome a ser sugerido é talvez o mais abrangente, no sentido de poder ressoar com idades dos 8 aos 80. Esta é a história de uma família a viver dentro do quotidiano do Japão de 1999, contada não no estilo narrativo tradicional linear mas numa série de vinhetas de duração variável que relatam episódios díspares vividos em família ou por alguns dos seus membros. Quente e afável, está é uma obra sobre episódios tão banais como aqueles que já conteceram a todos nós e é essa sensação tão familiar que faz a venda perfeita do filme como uma experiência a partilhar com aqueles de quem mais gostamos.

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.