Livros Clássicos para o Verão

verão

 

Sol e descontracção garantem inebriantes leituras no tempo estivo. Esta lista contém uma selecção pessoal de clássicos da Literatura que serão bem-vindos esta estação.

 

BRADBURY

BRADBURY, Ray, Fahrenheit 451, tradução de Teresa da Costa Pinto Pereira, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2011, 196 páginas

Entrar em modo “férias” limpa a mente das preocupações diárias, sendo esta a altura ideal para investir na leitura de uma obra complexa como Fahrenheit 451. Apesar de Ray Bradbury, falecido em 2012, não ter passado ainda o teste dos 100 anos, tendo sido esta obra publicada em 1953, a universalidade da condição humana que é descrita é inegável. Escrito ao estilo da ficção científica, oscilando entre cenários monótonos e vívidos, a narrativa futurística tem lugar num futuro, quando o destino dos livros é a extinção pelo fogo, mas poderia desenrolar-se em qualquer momento da História da Humanidade. Ray Bradbury apresenta-nos uma sociedade alternativa, onde o sistema político limita a população a um vazio intelectual e emocional como forma de combater a especificidade de cada indivíduo e controlá-lo. Esta obra não só nos dá conta do lado negro do conformismo humano, como também da facilidade com que a sociedade pode mudar de paradigmas através de lavagem cerebral, providenciando o exemplo marcante da inversão do papel dos bombeiros, que se tornam em agentes de destruição em vez de salvação. Vemos como a censura é aplicada sem restrições, pondo em evidência a importância que a educação e a cultura literária têm na formação cívica e na capacidade crítica das pessoas, constituindo-se como protecções essenciais contra o totalitarismo e alavancas para a evolução humana. É uma leitura tão veloz quanto o consumo das fibras do papel pelo fogo a 451º Fahrenheit.

GRIMM

GRIMM, Irmãos, Contos Completos, tradução, introdução e notas de Teresa Aica Bairos e coordenação científica de Francisco Vaz da Silva, Lisboa, Temas e Debates, 2013, 1000 páginas

Para quem aprecia leituras rápidas, os contos de fadas são uma opção acertada. Tendo sido vastamente explorados nas últimas décadas por todas as formas de arte, essas narrativas fantásticas enraizaram-se na nossa cultura e imaginação. Nada melhor do que aproveitar o tempo livre para (re)ler muitos dos contos da infância com outros olhos, ou melhor, reaprendê-los através da obra escrita dos Irmãos Grimm. Recolhidos no início do século XIX do folclore germânico, estes contos morais mundialmente conhecidos – como os de Capuchinho Vermelho, da Branca de Neve ou de Hansel e Gretel, entre outros – proporcionam ao leitor novas interpretações e transportam mensagens subliminares, não tão facilmente apreensíveis nas adaptações infantis das histórias. Com esta obra apercebemo-nos de que nestes contos, tal como na vida real, nem tudo é maravilhoso, e a violência e perversidade tão características do ser humano estão sempre à espreita.

LEWIS

LEWIS, Matthew, The Monk, edição de Emma McEvoy, colecção Oxford World’s Classics, Oxford, Oxford University Press, 2008, 496 páginas

Um livro clássico que os noctívagos poderão aproveitar para (re)ler nas férias é O Monge, um best-seller de Matthew Lewis, publicado pela primeira vez em 1796 e escrito em cerca de 10 semanas, com apenas 19 anos de idade. Este romance gótico, com pano de fundo católico e dimensão sobrenatural, põe em evidência a vulnerabilidade do Homem ao narrar o caminho tenebroso percorrido por um monge, Ambrósio, e ao envolver-nos na encruzilhada de vidas ao seu redor. Além de se valer do género pioneiro de Ann Radcliffe, Matthew Lewis encontrou inspiração no Schauerroman (horror-romance) alemão, produzindo um efeito moralista inovador graças ao afastamento de moldes tradicionais. A atmosfera obscura e cruel cria o suspense necessário para virar as páginas umas atrás das outras e, ao contrário das obras moralistas que se conheciam na época, o castigo é arbitrário e não é apenas aplicado em resposta às más condutas. Essa noção atinge o leitor, incomodando-o e negando-lhe a satisfação de um final feliz, sentindo-se tão abandonado, desesperado e horrorizado quanto os próprios personagens perante um enredo violento de onde nem heróis nem vilões saem ilesos.

PESSOA

PESSOA, Fernando, Mensagem, edição facsimilada a partir do original da Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa, Babel / FNAC, 2009, 148 páginas

“Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, inclusive aproveitar a praia para (re)ler a Mensagem, de onde provém a citação. De nome, todos a conhecem. É um indiscutível livro clássico português e uma oportunidade para beber da imensa cultura de Fernando Pessoa, que nos presenteia com versos engenhosos e uma narrativa, em género lírico, construída a partir de fragmentos da História e Mitologia de Portugal. Foi a única obra portuguesa completa e editada em vida do autor, em 1934, e apresenta não só uma escrita autorizada mas ainda apurada, visto que a ela dedicou dois terços da vida adulta. Para mim, a Mensagem é como um manual para heróis e relê-la é redescobrir, a cada detalhe, a visão intemporal de Fernando Pessoa.

PIRANDELLO

PIRANDELLO, Luigi, Seis Personagens à Procura de Autor / Para Cada um sua Verdade / Esta Noite Improvisa-se, traduções de Mário Feliciano, Natércia Freire e Maria da Graça Freire, Osório Mateus e Luís Miguel Cintra, colecção Livrinhos de Teatro nº 36 – Os Clássicos Artistas Unidos, Lisboa, Livros Cotovia, 2009, 264 páginas

Ler numa tarde de Verão, num jardim, à sombra de uma árvore, proporciona o ambiente ideal para estimular a atenção e a imaginação. Seis Personagens à Procura de Autor é um dos clássicos contemporâneos escritos por Luigi Pirandello, notável dramaturgo italiano que foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1934. Para quem viu e para quem não viu a peça no teatro, é uma (re)leitura cativante, na qual não faltará bom humor e alguma densidade filosófica. Os diálogos entre personagens debruçam-se sobre o teatro, como seria de esperar, e evocam a tradição clássica dos diálogos de Platão. Na obra de Luigi Pirandello, as falas são actuais, a escrita inspira-se no registo oral e o enredo flui naturalmente, conduzindo-nos a uma agradável sensação de afinidade.

Sobre o Autor

Tive o bichinho pelos livros desde cedo, mas em pequena queria ser jornalista como a April das Tartarugas Ninja. Hoje, após escolher as Letras, interesso-me por edição de livros.