Filmes para o Verão

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Verão: a Canaã posta no calendário para toda a gente entre os 5 e os 65. Para fãs do Cinema a temporada do sol, céu limpo e descanso é também sinónimo de pessoas a atafulhar toda e qualquer sala onde o blockbuster mais recente esteja a ser exibido. Mas às vezes o mar está bravo, o sol não aquece, as praias estão cheias, os amigos trabalham ou o dinheiro aperta. Para aqueles que querem evitar inconveniências – ou simplesmente preferem o conforto do lar – deixamos um punhado de alternativas para preencher as manhãs/tardes/serões mediante diferentes estados de espírito.

Bons filmes.

 

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Para aqueles que quiserem sentir: Goodbye, Dragon Inn (Tsai Ming-Liang, 2003)

Embora a ideia de um filme meramente contemplativo esteja para o Cinema um pouco como os bróculos estão para a Culinária, por vezes é preciso aceitar que o que é bom para nós pode não ser exactamente apelativo à primeira vista. Distribuídas pelos seus 82 minutos estão apenas um punhado de falas que por sua vez se repartem por várias histórias centradas num cinema em vésperas de encerramento permanente. A câmara não gosta de se mover e os planos magistralmente capturados persistem e persistem, transformando o acto mais banal em algo saído de um sonho meloso, pelo que não será uma boa ideia escolher esta opção quando as pálpebras pesam.

 

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Para aqueles que querem recordar os anos 90: Mallrats (Kevin Smith, 1995)

Depois de ter criado um dos melhores encapsulamentos do anos 90 com “Clerks”, Kevin Smith continuou a sua colagem sobre a década com uma história um pouco mais comercial mas com um pé bem assente naquilo que tinha feito – e faz – do seu primeiro filme algo digno de culto. Algures na mesmice entre este e as centenas de outros filmes centrados em adolescentes que haviam jorrado desde os anos 70, há algo na personalidade de Smith que coloca as suas personagens e as suas conversas num patamar acima da média.

 

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Para aqueles à procura de uma experiência familiar: Still Walking (Hirokazu Koreeda, 2008)

Imaginem aquelas ocasiões em que toda a família, próxima e distante, se junta após um longo período de separação. A certo ponto das nossa vidas fomos/somos/seremos a criança, o jovem e o adulto nesse tipo de eventos e em cada ocasião a experiência promove diferente feedback interior e exterior, tornando estas reuniões uma memória que vale a pena guardar (por muito aborrecidas que possam ser no momento).

 

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Para aqueles que querem ver o melhor filme de Hitchcock que Hitchcock nunca fez: Charade (Stanley Donen, 1963)

Aqueles que já viram filmes como “North by Northwest” ou “Rear Window” irão encontrar um estilo bastante semelhante em “Charade”. Depois de se safar por um triz no filme do mestre inglês, Cary Grant aprendeu a lição e parte agora à aventura com uma ajudante, a belíssima Audrey Hepburn. Balas, cigarros e romance: são os os anos 60 no seu melhor.

 

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Para aqueles que querem conciliar o seu amor por musicais com interesse por história Hindu: Sita Sings the Blues (Nina Paley, 2008)

No que toca a filmes animados sobre religião, “Sita Sings the Blues” é a versão hindu, cómica e arthouse de “The Prince of Egypt”, outro filme que não tem toda a atenção que merece. A obra de Nina Paley apoia-se no humor para contar História e Religião de forma jovial e totalmente alheia a propagandas. Podem, entre outras coisas, visioná-lo no seu site oficial.

 

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Para aqueles à procura de uma comédia romântica com o valor certo de “<3 Awwwww”s: Roman Holiday (William Wyler, 1953)

Entre as comédias screwball e a praga de adaptações de Nicholas Sparks algo mudou na forma de se representar Romance em fita. Um dos primeiros e melhores exemplos dessa mudança é “Roman Holiday”, o primeiro filme de Audrey Hepburn por terras do tio Sam, onde esta interpreta uma princesa que decide escapulir do seu palácio para conhecer outro tipo de vida, o que a leva directamente até Gregory Peck (não, não é um filme Disney). Embora esteja perto de entrar para a “reforma” é uma história que faz corar de vergonha muitos filmes que se apanham nos cinemas nos dias de hoje, tanto pela química efervescente presentre entre o par de protagonistas como pelas decisões tomadas com a história em certo pontos-chave. Se possível, ver com aquela pessoa.

 

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Para aqueles que gostam de “Hannibal” pelo Hannibal: After the Wedding (Susanne Bier, 2006)

Se Mads Mikkelsen faz suspirar mulheres – e homens – com a sua interpretação de um sociopata canibal, não será difícil que Susanne Bier consiga um resultado semelhante quando fez dele o supervisor de um modesto orfanato na Índia. O conto do seu regresso à sua Dinamarca natal tem não está longe do melodrama mas o toque de Bier torna uma potencial novela mexicana num drama envolvente com performances a condizer. Número de pessoas digeridas ao longo do filme: 0.

 

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Para aqueles que gostariam de ver um Western com influências asiáticas: The Good, The Bad, The Weird (Kim Jee-woon, 2008)

Viram “Django Unchained” e “The Good, the Bad & The Ugly” ? Retirem a componente esclavagista do primeiro, incluam bastantes mais coreanos no segundo, juntem-nos e voilá.

 

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Para aqueles à procura de feminismo à séria: Persepolis (Marjane Satrapi & Vincent Paronnaud, 2007)

Enquanto o Ocidente se diverte a entreter piçarras sociais sobre o mais fútil dos assuntos, pessoas – muitas delas mulheres – do outro lado do Mundo lidam mesmo hoje com um divisionismo bem real e opressor. O Irão tem-se revelado o principal núcleo da revolta cultural contra as práticas bárbaras ao abrigo de uma idealogia medieval ao exportar – muitas vezes sobre risco de vida – relatos sobre a situação social, religiosa, política, etc. do país sob o disfarce de narrativas fictícias. Um dos melhores e mais abrangentes exemplos é a adaptação cinematográfica de “Persepolis”, a banda desenhada que detalha o crescimento da sua cartoonista Marjane Satrapi durante a revolução islâmica iraniana e posteriormente o seu contacto com a realidade europeia. 70% risos, 30% lágrimas, 100% obrigatório.

 

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Para aqueles que querem voltar a acreditar em sequelas: Die Hard: With a Vengeance (John McTiernan, 1995)

Depois da primeira sequela ter feito a série perder uns pontos na conta dos críticos e dos fãs, não poderia ter existido melhor filme para terminar a trilogia do que “Die Hard: With a Vengeance”. Com o realizador do original de volta ao leme a nova aventura de John McClane volta à dosagem correcta humor-drama-acção que tornou o original um clássico, recruta Samuel L. Jackson para o lado do heróis, traz a família Gruber de volta, extende o tabuleiro do jogo por toda a Nova Iorque, possui um ritmo invejável e conta com um dos melhores finais alternativos de sempre. Reza a lenda que mais tarde McClane regressaria para mais aventuras mas 20 anos depois a espera continua.

 

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Para aqueles que querem averiguar se o Japão é assim tão estranho: Love Exposure (Shion Sono, 2008)

Sempre quiseram ver aquela colaboração de Alejandro Jodorowsky e David Lynch centrada no Japão e que pensavam não existir? A vossa espera terminou!

 

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Para aqueles que gostam de “Fast & Furious” mas que não são fãs de carros: Point Break (Kathryn Bigelow, 1991)

Se Keanu Reeves, Patrick Swayze e Kathryn Bigelow pudessem adivinhar em 1991 o que seu pequeno filme iria provocar uns 20 depois, de certeza que Johnny Utah teria investido um pouco mais nas aulas de condução e menos nas de surf. Felizmente para nós assim não foi e para sempre ficará a rivalidade/amizade entre o futuro Neo e o engatatão de “Dirty Dancing” que mais tarde viria a ser a base das carreiras milionárias de Paul Walker e Vin Diesel. Outro remake – desta vez directo – está agendado para algures nos próximos meses logo nada melhor que visitar o original.

 

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Para aqueles que ainda pensam que Animação é Disney, Pixar e Dreamworks: The Tale of the Princess Kaguya (Isao Takahata, 2013)

O Studio Ghibli não é propriamente um produtor underground mas o facto de que as suas produções não atinjam 10% do burburinho que os seus rivais americanos conseguem todos os anos é uma afronta para a casa de Miyazaki, Takahata e companhia. Dos dois principais nomes da produtora, Takahata sempre foi o que mais preferiu trabalhar com histórias com uma base próxima à realidade e a história de Kaguya, embora baseada numa lenda japonesa, é basicamente uma crítica à sociedade de classes floreada com uns rasgos de fantasia. A fórmula é algo semelhante àquilo que as gigantes ocidentais procuram fazer mas aqui o grau de maturidade e respeito com que o tema faz com que a obra final possa tanto ser aclamada pelo seu subtexto ou pelo encanto da história da menina que se tornou princesa.

 

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Para aqueles à procura de algo entre o Thriller e o filme de Acção: The Warriors (Walter Hill, 1979)

Pela mesma altura da génese do blockbuster, o tipo de filme construído para levar famílias ao cinema, Walter Hill lançou um bad boy que, em vez de pais e filhos, trouxe guardas armados para as salas americanas. Supostamente inspirados pelos eventos do filme, que descreve a fuga de membros de um gangue pela noite nova-iorquina, episódios de violência irromperam e mortes foram mesmo associadas a sessões do filme. A lendária crítica de cinema Pauline Kael chamou-lhe “rock visual”. Se isto não vos faz querer ver o filme, nada fará.

 

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Para aqueles à procura de um épico que não envolva guerras, invasões e/ou destruição em larga escala: The Best of Youth (Marco Tullio Giordana, 2003)

Primeiro: “The Best of Youth” prolonga-se ao longo de qualquer coisa como 6 horas e 40 minutos. Segundo: Façam por reservar esse tempo pois esta é sem dúvida uma das melhores e mais detalhadas crónicas de vida alguma vez gravadas. Terceiro: alguém teve o bom senso de chegar à conclusão de que pouca gente teria 7 horas seguidas para investir num filme e então uma versão televisiva dividida em 4 episódios foi criada para cómodo do público. Quarto: um bom sítio para se instalarem a devorar isto.

 

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Para aqueles que desejem debater o filme após a visualização: Do the Right Thing (Spike Lee, 1989)

Por muito polémica que a figura de Spike Lee se tenha vindo a tornar, não se pode negar a qualidade de obras como “Malcolm X”, “25th Hour” ou “Do the Right Thing”. O filme que o pôs o mapa tem o sabor agridoce de algo que proporciona uma história fascinante que infelizmente não conseguimos deixar no passado. A cena final, resultado de um acumular gradual de tensão durante todo o filme, tem gerado discussão desde a sua estreia em 1989 sobre a validade das acções que levaram àquele desenlace. Até hoje, um dos mais interessantes estudos alguma vez feitos sobre um caldeirão cultural.

 

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Para aqueles que estão numa relação e descobriram que o parceiro andou a pôr o pé em ramo verde: Annie (Will Gluck, 2014)

Aqui caução é tudo: pensem bem antes de submeter qualquer ser humano – ou vivo – à experiência agonizante que é este remake do popular musical. Pode também ser usado como medida de coação contra parentes mais novos ou companheiros de habitação com falta de ética.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.