A Town Called Panic (2009)

Town_header

 

 

Na passada edição dos Oscars da Academia a categoria de Animação contou com um candidato improvável na corrida ao prémio contra gigantes da área: Ernest et Célestine. Sem surpresas o estrondoso êxito Frozen da Disney acabou por arrecadar a estatueta e grande parte do protagonismo dedicado a essa categoria mas, como é tão comum acontecer nestas situações, faltou premiar e demarcar outra boa película e, quiçá, a melhor dentro de um grupo relativamente pobre. Foi difícil esquecer o estilo de animação deliciosamente anti-americano, anti-computadores e anti-sacarina e o humor descomprometido de uma história que, sem perder a sua infantilidade, consegue causar um rombo emocional a um público mais crescido.

Mas antes da concepção do filho afortunado que os levaria ao reino das estatuetas douradas, o duo belga composto por Vincent Patar e Stéphane Aubier foi responsável pela criação de uma outra propriedade também com raízes no humor e na animação mas situada num jardim completamente diferente. A Town Called Panic (ou Panique au Village como é conhecido na sua terra natal) começou como uma série de vinhetas com cerca de 5 minutos de duração e animadas no estilo stop motion que mostravam episódios da vida de um grupo de personagens residentes numa pequena vila rural. A componente delirante ligada à série apresenta-se quando tomamos conhecimento que as principais personagens são representadas por três figuras de aspecto barato de um cowboy, um índio nativo-americano e um cavalo, todos eles com personalidade própria e alheios ao facto de o cenário onde se encontram talvez não ser o mais plausível para os três co-existirem, quanto mais estabelecer diálogo. A animação é gretada, a fazer lembrar South Park, e toda a narrativa carece de um fio condutor que a mantenha fixa na rota a seguir. À primeira vista, muito mais contras do que prós.

O poder de contágio entra rapidamente em acção para contra-atacar esta primeira sensação de estranheza que nos espera logo nos momentos iniciais do filme. Embora seja um derivado de uma série já bem estabelecida, as introduções necessárias não são muitas até conseguirmos encaixar todas as peças. Na verdade, não é precisa muita informação para podermos desfrutar do passeio pois noções como “trama”, “desenvolvimento de personagem” ou “pés e cabeça” foram deixadas de parte no momento de criação. É uma história simples passada num pequeno cenário com imensas personagens sobre as quais iremos conhecer muito pouco mas cujo uso inteligente de ingredientes clássicos de comédia da velha guarda proporciona uma experiência que transcende a necessidade de um guião mais rígido. Eis uma bela prova de que, por vezes, a chave não é reinventar a roda mas sim fazê-la rolar pelo caminho certo.

A melhor maneira de descrever o pouco enredo que existe seria equipará-lo a uma representação visual da mente de uma criança que brinca com o seu conjunto PlayMobil. Onde mais poderíamos encontrar cavalos que tomam duche, burros que executam solos de bateria, éguas que dão lições de música e vacas que gostam de dormir bem aconchegadas e com a cabeça na almofada? Os acontecimentos são igualmente uma deliciosa celebração do desiquilíbrio e do absurdo, cuja reminiscência das fábulas clássicas torna este Universo adequado para jovens e idosos, crianças e pais e /ou homens e mulheres desfrutarem em conjunto.

Talvez pareça insultuoso resumir a obra desta talentosa equipa de realizadores/guionistas como “uma patetice pegada” mas este será um dos poucos casos em que essa designação é usada num tom apreciativo. Não é apenas a animação, não é apenas o guião e não é apenas o roteiro; é sim a confecção de todos esses elementos soberbos que faz de A Town Called Panic a maravilhosa e libertadora espiral que é. Do primeiro minuto ao último é um sprint entre elementos em que o vigor por detrás de cada cena, cada momento, cada trama parece ser alimentado pelo desejo único de fazer melhor que o seu antecessor, o que acaba por estabelecer uma maior coesão neste veículo com uma caixa de 1000 velocidades onde um pestanejar significa a perda de uma gargalhada. Um título nada abaixo de obrigatório.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.