The Room (2003)

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O famoso crítico de Cinema Roger Ebert escreveu um dia sobre o filme “Freddie Got Fingered” de Tom Green: This movie doesn’t scrape the bottom of the barrel. This movie isn’t the bottom of the barrel. This movie isn’t below the bottom of the barrel. This movie doesn’t deserve to be mentioned in the same sentence with barrels. Sucinto no seu desdém, Ebert não só havia conjurado mais uma citação genial para o seu portfólio de muitas como também uma espécie de frase-mestra que encapsula perfeitamente o sentimento reservado àqueles filmes que fazem a mais recente saga “Transformers” parecer Shakespeare. “Annie” e “Movie 43” são exemplos recentes disso mesmo mas até quando se trata do entulho de toda uma indústria existem motivos suficientes para um processo cuidado de atribuição que atribuirá justamente o pecador ao seu círculo do Inferno. Todos eles serão sempre horríveis desculpas de Cinema mas a falta de qualidade de exemplos como os supracitados não os tornará no futuro mais memoráveis do que já são hoje (esperemos) enquanto outros falham de forma tão espectacular que o estudo da sua génese não é só aliciante mas quase obrigatório.

Corria o ano de 2003 quando um total desconhecido estreava “The Room” num cinema californiano juntamente com o elenco e a equipa que haviam trabalhado no filme, na altura completamente alheios ao efeito “Big Bang” que aquele evento acabaria por desencadear. Desde então a obra tornou-se um fenómeno de culto à escala mundial e com isso aquele que naquela noite era um estranho para muitos viu desde então o seu nome atingir uma pseudo-imortalidade, muito como o seu ídolo James Dean. Tommy Wiseau chegava para ficar. O enigmático vulto musculado de cabelo preto esvoaçante teve a seu cargo as tarefas de escrever, produzir, realizar e protagonizar uma história que definiu como algo muito pessoal, o só torna este acidente cinematográfico ainda mais pitoresco. O guião é um festival de tramas e deixas que parecem ter sido transcritas directamente do pensamento para o papel sem qualquer atenção à necessidade de algo como uma ordem cronológica de eventos ou domínio básico da Gramática inglesa. Wiseau escreve, declama e dirige como alguém com a extensão emocional de uma criança de 9 anos e a visão artística de uma de 8o que faz com que a sua obra roce cotovelos nos rankings com peças de teatro de alunos da 4ª classe, uma verdadeira afronta caso o resultado final não fosse tão hilariante.

Muito ao estilo “arte imitando a vida” o protagonista do filme parece tão desconfortável na nossa realidade como o homem que o escreveu e o interpreta, o que faz com o que olhar teime em segui-lo a cada segundo que ele se encontra em cena. Johnny, assim chamado, é um banqueiro bem-sucedido de San Francisco, com uma jovem companheira (Lisa) e com uma panóplia de amigos que vão desde o jovem adolescente com falhas graves de noção no que toca a espaços pessoais (Denny), o garanhão que acha que a sala de um apartamento alheio é um bom sítio para concluir uma escapadela (Mike) ou o vizinho bem-parecido que não consegue decidir se quer ou não explorar um relacionamento com a noiva do seu melhor amigo (Mark). Johnny no filme acaba por ser aquilo que Tommy vê todos os dias ao espelho no mundo real: um homem dedicado e amigável que se vê a braços com (aquilo que ele considera serem) constantes traições por parte das pessoas mais chegadas, o que limita todo e qualquer papel secundário a vários níveis de patifaria que orbitam a aura pura do protagonista . Masturbação cinematográfica ao mais alto nível.

Ainda assim, devemos cair no engodo? A resposta curta é “sim”. Lançado na altura certa para apanhar a onda dos novos métodos de comunicação e humor online, o que levou a uma campanha publicitária não-oficial numa escala que só a Internet pode proporcionar, este é um daqueles exemplos que oferece uma experiência que dificilmente encontrarão noutro lado. Mesmo que tenham conseguido evitar ao longos dos anos os clips/memes alusivos a cenas do filme ou as entrevistas bizarras com o autor alguns minutos são tudo o que deve bastar para perceber que há algo de muito errado com “The Room”. As falhas no guião, edição e dobragem aliadas às actuações extremamente mecânicas quebram a própria noção do que é negativo ao transcender a noção de “tão mau que é bom” e descobrem novas terras para além do Cabo das Tormentas dos adjectivos, trazendo de volta a doce agonia da inaptidão alheia. Por outro lado há que reter a noção de que por muito tentadora que pareça a ideia de assistir a seres humanos dizerem – e fazerem – o impensável, é fulcral apontar que aqui não há lugar para mais de uma mudança. O filme começa, decorre e acaba no único tom que Wiseau domina – o ridículo – e para espectadores com menos paciência ou um sentido humor mais rígido o humor que é aqui encontrado por muitos pode-se perder na tradução.

A única constante que este e qualquer outro filme terrível com estatuto de culto partilham é a questão que o seu sucesso improvável levanta: se uma obra falha em virtualmente todos os sentidos e mesmo assim consegue entreter uma boa porção da sua audiência o que é que isso nos diz sobre não só o seu valor intrínseco mas o de todas as outras? Estará o verdadeiro sentido de apreciação por detrás de uma barreira de negação ou uma necessidade de cinismo criada pela presença de vários factores que influenciam a nossa opinião? A explicação parece bem mais simples. O comediante Lenny Bruce declarou certa vez que a audiência é um génio, referindo-se ao facto de serem as pessoas a terem o verdadeiro poder de regular as propriedades do conteúdo direccionado a elas e, por agregação, o conteúdo em si. Seria plausível deduzir então que numa imaginária escala de Bruce para medições de efusão no público obras tão díspares como “The Room” podem coexistir no mesmo planalto com clássicos como “Lawrence of Arabia”, por muito egrégia que essa mera sugestão possa ser. Felizmente a afirmação de Bruce não ilude a virtude subjectiva das artes pelo que “The Room” se manterá no seu nicho, Pitbull não irá subverter Leonardo Da Vinci e Cristiano Ronaldo nunca pontapeará versos tão bonitos como os de Pessoa.

Para aqueles que quiserem seguir o “Coelho Branco” um pouco mais longe depois de visionar o filme existe ainda o livro “The Disaster Artist” de Greg Sestero, actor e assistente de produção no filme, que não só detalha o processo de tornar “The Room” uma realidade mas também fornece um retrato bastante íntimo da vida do autor com Tommy Wiseau que, tal como filme, ultrapassa qualquer prognóstico. Infelizmente não nos coloca muito mais perto de perceber qualquer um dos 99 minutos que compõem o intitulado “Citizen Kane dos maus filmes”.

HA! HA! HA! Mas que história, Tommy!

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.