Teenage Mutant Ninja Turtles (2014)

tmnt_header copy

 

A cada novo lançamento da mais recente adaptação de uma antiga propriedade com um colectivo de fãs bem estabelecido volta sempre à tona o velho debate sobre a legitimidade de uma nova aposta num franchise que marcou uma ou várias gerações. O desdém por parte dos grandes estúdios americanos a material original tem-se vindo a notar cada vez mais nos últimos anos com a tendência crescente de se optar por produzir remakes, adaptações de livros de sucesso (nomeadamente do sub-género juvenil e as BD) ou sequelas para facturar ainda mais no sucesso de um primeiro filme ao invés de tomar o risco de aplicar uma pequena maquia milionária em material sem provas dadas. Deveria esta prática ser considerada eticamente errada do ponto de vista do consumidor? Em teoria não pois o facto de se produzir novo não invalida nem apaga a presença do mais velho, as ferramentas tecnológicas evoluem e a escolha de histórias tende também a diversificar-se de filme para filme. Então porquê o constante enxovalhar desta prática que mantém vivos ícones da infância de tantos nós? Resumidamente, o tratamento desumano que é dado a essas personagens e histórias nos matadouros de Hollywood e que transforma o que era até então uma memória ternurenta em mais uma razão para odiar o “Cinema” praticado pelas grandes corporações.

Verdadeira a essa tradição, a nova aventura das Tartarugas Ninja pode ser etiquetada como qualquer um dos três tipos de fast-food cinematográfico mencionados acima e assume-se como um novo começo apontado maioritariamente a um novo público-alvo. A habitual lenga-lenga que é impingida citando um enorme interesse aos fãs é mais uma vez utilizada como cortina de fumo para esconder mais um bidão de sacarina filmográfica onde toda a substância tende a ser perseguida à bengalada. Se esta é uma obra que procura apelar a fãs de longa data é caricato que o seu modus operandi consista em cuspir-lhes na cara ao virar de cada esquina. Ainda assim existem alguns aspectos que consigam sobressair pela positiva num, de outro modo, mar de exemplos de tudo o que está mal com a maioria dos blockbusters.

Para o bem e para o mal, todos eles estão directamente ligados às 4 personagens principais. Muito na onda moderna de “na dúvida cobrir tudo com efeitos computadorizados”, os fatos que cobriam os actores nas películas do início nos 90 foram substítuidos por armações de captura de movimentos onde viria depois a ser o aspecto reptiliano de cada personagem. Em termos de aspecto as tartarugas estão bem conseguidas, do pescoço para baixo, no que toca a qualidade de efeitos que presenciamos até hoje, se bem que não chega à dedicação demonstrada em Dawn of the Planet of the Apes. Cada tartaruga parece única, preenchida com vários detalhes que nos permitiria destacá-la no meio do campo de batalha mesmo que a sua icónica bandana colorida não estivesse colocada. O problema reside por detrás da máscara onde umas caras assustadoramente entre o humano e o réptil dão um look demasiado antropomórfico ao que eram outrora guerreiros cujo aspecto reflectia o tom despreocupado e divertido das suas aventuras. A primeira de muitas bordas ásperas que nos esperam.

Os jogadores são os do costume: Leonardo – o líder apreensivo, Michelangelo – o folião de serviço, Donatello – o técnico acanhado e Raphael – o cabeça-quente .A grande falha é o facto de esses papéis não serem pensados e evoluírem como tal mas sim atirados à parede à espera que a noção cole, geralmente via introdução repentina de um factor o qual não foi dado uma base para o seu estabelecimento. É uma prática extremamente dogmática de criar personalidades: assim é e acabou, não temos que falar mais sobre isso. Durante o filme um dos confrontos à espera de explodir é o de Raphael com Leonardo, pois o primeiro tem dificuldade em aceitar o segundo como seu líder. Por um lado a sua causa parece ter uma pretensão forte pois nunca é dada uma explicação que justifique o facto de Leonardo ser o mais capaz para liderar a equipa mas por outro Raphael tem uma abordagem repentina e brusca que o introduz como bronco anabólico que cobiça um lugar que claramente não merece, o que torna difícil gostar de uma personagem que está do lado dos bons. Facilmente se poderia evitar tal melodrama com um tratamento cuidado do ponto de vista de uma ou ambas as personagens em que fosse melhor contexto sobre o porquê desta picardia ou, melhor ainda, esta fosse removida pois o seu propósito não é mais do que a criação de um momento totalmente insípido de vínculo emocional. Assim ficam estragadas não só as caracterizações das personagens mas também o tom geral de uma película que deveria ser branda em escuridão e farta em risos mas que acaba por ser o inverso.

No que toca ao enredo a expressão “desligar o cérebro” não é suficientemente ofensiva para demonstrar o quão insosso este é, estando o nível real de desconexão mais ao nível de um leve coma. Quem teve a oportunidade de ter visto um filme de Acção nas últimas décadas terá bagagem suficiente para prever e entender todas as idiossincrasias da trama bem antes desta as revelar. Embora apenas no papel de produtor, Michael Bay faz sentir a sua presença emocionalmente gélida de forma tão vívida que a dúvida sobre a identidade do verdadeiro realizador chega a surgir. Num dos vários momentos apontados a Comédia, a actriz Megan Fox – que interpreta April O’Neil a única personagem feminina minimamente respeitável presente na película – encontra-se debruçada sobre a porta de um veículo que desce uma colina completamente descontrolado, rodeado por um caos total. Igual a qualquer produção de Bay a câmara aproveita para focar-se no rabo empinado da actriz, que não tarda em receber um piropo que tem uma dose semelhante de infantilidade, falta de tacto e estupidez. A intenção aqui não é lançar uma cortina de fumo sobre o trabalho que esta faz no filme – que é sinceramente pobre – nem alertar para mais uma situação onde Bay exibe uma compulsão preocupante de apelar a instintos imaturos mas sim evidenciar o seu alcance enorme dentro uma produção que, ao invés de Transformers, não está oficialmente no seu controlo e as consequências que isso implica. Nada é pensado para além duma rápid passagem pela loja de todos os clichés e mais alguns que são posteriormente alinhavados à espera de uma audiência suficientemente crédula para acreditar que aquilo que está a ver não é mais que uma reciclagem de 93ª geração.

Se cresceram a odiar os episódios, as BDs e/ou o merchandising relativos a um dos mais famosos grupos de origem animal da nossa geração, esta é a comédia para vocês. Os restantes podem (e devem) poupar o seu dinheiro.

 

 

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.