The One I Love (2014)

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The One I Love, de Charlie McDowell, é um daqueles filmes cuja mera existência justifica o género onde se insere, ainda que temporariamente. Depois de Richard Curtis ter atirado mais um toro para a fogueira moribunda que é a Comédia Romântica com About Time, surge agora outra surpresa agradável que consegue reinventar um pouco a magia de ver um homem e um mulher lidarem com as suas falhas durante 90 minutos ou mais. O que nasce como um filme de romance aparentemente vulgar cresce  debaixo da tutela de uma narrativa pitoresca que faz com que evolua para um faux-thriller Hitchcockiano, com direito à desinformação que traz momentos mais tensos acompanhados por acordes de instrumentos de corda e à desorientação de planos de câmara sinuosos. Um caminho estranho, é certo, mas quase sempre da melhor maneira.

Ethan e Sophie eram um casal com a história de amor perfeita até Ethan corromper essa felicidade ao trair a confiança da sua companheira. Ainda assim, os laços que os unem resistem à ruptura definitiva e ambos começam um processo de cura conjunta que a cada novo passo se revela mais infrutífero. É numa sessão com um terapeuta que lhes é apresentado um retiro rural com fama de fazer maravilhas em casos do mesmo género, uma proposta que o duo aceita prontamente. O cenário é uma belíssima e luxuosa casa de campo,  um ambiente pitoresco que com o tom destabilizante do filme se revela uma fortaleza lúgubre que liberta um sentimento impalpável mas certamente agourento. É aqui que a história e a genialidade do filme realmente começam.

A trama revela-se aos poucos, como um striptease narrativo que sabe exactamente quando deixar cair a próxima peça para manter a atenção do espectador até ao desenlace. Esta é uma história de amor moderna que se apresenta como uma antítese da comédia romântica tradicional, uma exploração de vida conjugal com um toque contemporâneo magistral que torna uma fórmula com potencial numa mistura vencedora. Enquanto sozinhos na solidão do campo e debaixo de um mar de estrelas, Sophie e Ethan vêem-se confrontados com o vácuo entre a pessoa com quem estão e a pessoa com quem gostariam de estar e também com a obsessão que temos com as falhas, pequenas ou grandes, da pessoa com quem partilhamos algo.

Explicar como essa análise é feita seria estragar grande parte da experiência, já que é nela que reside a parcela de magia deste conto, portanto esta crítica irá abster-se de se aprofundar mais no assunto. Isso limita um pouco a exposição ao filme mas numa era onde são lançados inúmeros trailers, imagens e outros produtos promocionais é necessário aludir aos problemas de consumir estas entradas envenenadas antes da refeição principal.

Seria no entanto impossível ignorar o desempenho dos dois protagonistas, que durante 95% da película não têm outra alma viva com quem contracenar senão eles. Este factor vem cimentar ainda mais a centralidade do aspecto da relação entre as duas personagens e não deixa qualquer fresta para exploração de outros temas. A casa fecha-os do mundo durante aquele fim-de-semana e num estilo muito Big Brother (mais Orwell, menos Teresa Guilherme) cabe-nos a nós actuar como voyeurs para dentro da sua intimidade. Os infelizes são Mark Duplass, já um veterano neste misto de comédia/drama muito melancólico, e Elisabeth Moss, uma actriz que ultimamente tem dado cartas no domínio da TV em Mad Men e Top of the Lake. O talento trouxe a química que por sua vez foi alimentada pelo uso de diálogo totalmente improvisado, na sua maioria, o que convém um maior sentido de naturalidade nas interacções do casal. São raras as instâncias onde a dinâmica dos actores como um casal soa a falso ou como um mero trabalho de representação, algo fundamental para vender perfeitamente uma história de carácter tão íntimo.

Mas no meio de tanto louvor há que deixar a noção clara que este não é um filme isento de falhas. Estas concentram-se sobretudo nos primeiros 15 minutos com a nossa apresentação a Ethan e Sophie e aos primeiros momentos na casa, onde tudo indica que este irá ser mais um “daqueles” filmes onde membros da classe média divagam extensivamente sobre os seus problemas de primeiro mundo. Embora o resto do filme não fuja completamente a essa premissa descortês, a forma de como trata os seus elementos é feita de tal forma que se torna difícil não ficarmos mais investidos cena após cena. Indubitavelmente uma das mais agradáveis surpresas do ano.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.

  • ludom lun

    Estou animado para ver a nova série de Jay Duplass, parece muito engraçado.

  • Alejandra Álvarez

    E mais uma vez surpreende HBO realizar uma série
    diferente e ousado, por isso, eu falo de Togetherness
    que certamente tem muito a falar com dias de seu lançamento, definitivamente,
    uma lufada de ar fresco e uma história interessante

  • Rúben Ferreira

    Tem certamente um elenco que promete bastante mas não considero os Duplass tão confiáveis ao ponto de serem um chamariz. No entanto quero dar uma oportunidade a essa série.