Obvious Child (2014)

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O Cinema indie tem-se afirmado cada vez mais nos últimos anos como uma alternativa mais íntima e humana aos projectos gigantes dos grandes estúdios cinematográficos que parecem cada vez mais focados somente em entretenimento. Aliado a isso está também a crescente perspectiva feminina atrás e à frente das câmaras, consequência do papel mais significativo que as mulheres têm vindo a reunir nas últimas décadas em áreas anteriormente quase exclusivamente populadas por homens. Obvious Child é um dos descendentes óbvios (passando a expressão) dessa subida sendo ele uma história não necessariamente actual mas que muito dificilmente seria gravada, comprada e distribuída pelos canais mainstream num momento da História anterior ao que vivemos actualmente.

Depois da sua estreia no festival de Sundance, o burburinho que gerou aplicou-lhe a etiqueta de “Aquela comédia do aborto” o que é sinceramente redutor. Ao contrário de títulos populares recentes como Frances Ha ou Girls onde a vida quotidiana é a única linha condutora entre eventos desenxabidos, este tenta quebrar a barreira imposta entre o papel de mulheres em comédia e drama com o estudo de vida de uma comediante residente em Brooklyn, sendo a palavra-chave “tenta”. Obvious Child pode não oferecer o melhor ensaio sobre a temática que quer debater mas será difícil discordar que, no meio dos clichés do género que não resiste a usar, é um passinho de pardal na direcção certa.

O principal desígnio do filme é o de participar no resgate e libertação do papel da Mulher como objecto sexual, fada-do-lar ou qualquer outro exemplo de contraparte submissa ao seu(s) homólogo(s) masculino(s). Sendo escrito, dirigido e protagonizado inteiramente por senhoras seria de esperar que esse toque feminino trouxesse uma franqueza que simplesmente não surge em qualquer momento. Donna, a personagem principal, tem tiques de espontaneidade, rebeldia e imaturidade bastante decalcados mas a maneira de como eles são evoluídos fazem com que a sua persona seja melhor equiparada a um “homem com vagina” do que a uma mulher de carne e osso com um sentido de responsabilidade muito próprio. Parte da razão por trás deste defeito deverá ser atribuída à falta de experiência de grande parte da equipa, que se estreia com este título no mundo das longas metragens.

Muito como a própria Donna, o guião parece não saber muito para onde seguir a cada nova cena. Por entre sequências em que a personagem principal passeia pela cidade ao som de acordes de guitarra, é introduzida mais uma cena onde a família e amigos da personagem surgem para dar avanço à sua história, o que é feita de uma forma demasiado simplista. Embora a sua presença do ecrã seja significativa em termos de minutos, esta não é aproveitada da melhor forma e o desenvolvimento das personagens ressente-se por isso. O recurso excessivo a tropos continua também neste ponto sendo um dos amigos de Donna, um homossexual, o melhor exemplo de um caso onde pouco pensamento entrou para além da inclusão dos habituais trejeitos, estilo de vestuário e jargão que já vimos associados a este tipo de minoria em filme. Mais uma vez, a compaixão feminina, outro sector da Sociedade que reclama mais representação no Cinema, falha em fazer-se sentir na hora de se realçar em relação ao seu homólogo masculino, quer dentro ou fora da tela.

A contrabalançar esta tendência para o fracasso está Jenny Slate, a actriz principal, que consegue transformar material medíocre numa performance acima da média. Com um charme natural assentado em relativamente poucos anos de experiência, a Donna que nos é apresentada tem os seus pontos dissonantes mas o que é representado no ecrã atenua um pouco essa emanação negativa. São os pequenos momentos entre a deflecção infantil da personagem, em que ela se apercebe das implicações sérias da idade adulta e da situação em que encontra, que continuam a puxar-nos em direcção a ela mesmo que tenham sido antecedidos por uns breves minutos de conteúdo mais imaturo. São essas pequenas quebras a preto-e-branco na bolha cor-de-rosa onde ela vive que lhe dão algum magnetismo e a fazem destoar da moderada desgraça que é encarregue de conduzir.

A autora decide por um ponto final na sua história com uma cena bastante peculiar que age como uma assinatura por baixo de tudo o que foi dito até aquele momento. Não é cómica, embora a audiência presente no filme nos queira convencer do contrário, e também não possui o tom dramático para ser tão pungente como uma exploração deste temas deveria ser para ser digna de tal designação. No fundo o filme escolhe encerrar com uma metáfora sobre si próprio, embora com um efeito contrário aquele que seria pretendido. Obvious Child veio e partirá exactamente da mesma forma: baixinho e sem levantar muitas ondas, o que é pena tendo em conta a importância daquilo que pretendia pôr na mesa. Assim é apenas um bom exemplo onde (algumas d’)as partes se sobressaem do todo.

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.