Nightcrawler (2014)

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Lou Bloom, o protagonista de Nightcrawler, é dono de um carácter perversamente cândido. O seu aspecto lúgubre é um cartão de visita severo que prontamente a sua eloquência, uma arma bem talhada na arte de assegurar as pessoas à sua volta, se dispõe a desvalorizar. De dia usa óculos escuros. Em casa prefere a penumbra criada por cortinas e persianas semi-fechadas. Ele é um dos filhos adoptivos da noite californiana por onde vai vagueando entre pequenos “trabalhos” que lhe asseguram apenas uma estabilidade frágil que o obriga a retornar ao regaço da sombra após um período breve. No entanto, Lou é um coiote tornado homem com os olhos no objectivo e com a destreza mental e o carisma para o atingir, sempre à espreita da oportunidade certa na qual ele possa dedicar a sua obsessão a 100%.

Existem duas comparações óbvias a este thriller – Taxi Driver, de Martin Scorcese, e Drive, de Nicholas Winding-Refn. Afiliação veicular à parte, os cenários nocturnos e a disposição solitária do protagonista lembram imediatamente as histórias de Travis Bickle e The Driver. Mas onde as personagens de Robert De Niro e Ryan Gosling se ficaram por uma zona de conforto no campo emocional, Jake Gyllenhaal trabalha ao longo de todo o espectro. Lou é dominado pelo seu lado menos bom, um ponto assente desde a sua introdução, mas a sua necessidade inata de querer subir na vida traz à tona um homem mais calmo e com um sorriso constante no rosto, sempre à procura de um ponto fraco na personalidade alheia. Ultrapassado esse obstáculo, a relação toma o contorno parasítico a que estava destinada desde o início.

Ainda assim, há algo no protagonista que sugere dignidade. O seu background enraizado na classe média baixa oferece uma frágil justificação para as acções de um sujeito  que, tirando a falta total de escrúpulos, dispõe de todas as qualidades que o ser humano aspira ou é desde cedo condicionado a ambicionar. Por esse prisma não é exagero considerar Lou uma espécie de herói da classe trabalhadora, um colarinho azul redentor cujo constante cruzamento com a miséria de classes mais privilegiadas não é apenas um risco ocupacional mas igualmente uma vingança vicária. Outro ponto que reinforça esta noção é o facto de que todos os seus sucessos e desaires profissionais são resultado do investimento total que é feito em dita actividade. Nada cai no colo de Lou Bloom e, por muito ilegais que sejam os seus métodos, não se pode deixar de admirar o poder de devoção que faz este homem subir a pulso nas traseiras do mundo do jornalismo.

Dito isso, é bom lembrar que este factores não deixam de ser um grão de pó na personalidade de alguém que é tudo menos bom, altruísta ou paciente. Na cabeça de Lou há apenas espaço para um jogador e todas as outras variáveis são quantificadas sob a designação comum de “meio para um fim”. Quem eventualmente conhecer o caso do ex-deputado e personalidade de TV brasileira Wallace Souza e as alegações levantadas contra ele não estará longe de localizar com precisão o alcance da depravidade aqui em causa. Não é sem um pingo de ironia que o mesmo curso de acção que poderia traçar o caminho heróico descrito no parágrafo anterior acaba por ter como destino o mesmo destino de comodidade e privilégio que nada parece ter a ver com o protagonista. Essa evolução é a forma do filme expor a fraqueza da condição humana à sombra do capitalismo ao mesmo tempo que demonstra a força do instinto bruto contra noções mais civilizadas como “ética” ou “lei”. No fundo Bloom é  apenas tão são, tão louco, tão vilão, tão herói, tão humano como todos nós, apenas com um punhado de rodas dentadas fora de sítio.

O reservado círculo de conhecidos/colegas que o rodeia é ocupado pelas personagens de Riz Ahmed e Rene Russo, o seu parceiro na caça aos furos jornalísticos e a directora de informação que lhe abre a porta do sucesso. Embora escritas e interpretadas de forma bem competente, nenhuma das duas consegue atingir o nível de brilhantismo da performance eléctrica de um Jake Gyllenhaal no pico da sua forma. Ainda assim os seus papéis são mais do que meros assistentes à estrela principal. Ahmed e Russo circulam em linhas paralelas mas em sentido contrário a partir de pontos de vista distintos, resultantes do poder da influência que Bloom exerce sobre eles, e ao longo da película cada acontecimento irá provocar mudanças em pelo menos um deles. Por muito simples e repetitivo que este processo possa parecer a sua execução é bastante bem conseguida, carregada por sequências cativantes de diálogo e pelo tratamento sublime do material por parte dos actores.

Ao leme encontramos Dan Gilroy, o último elemento-chave do conjunto. No seu primeiro projecto como realizador/argumentista faz um excelente trabalho em manufacturar a ilusão de que o filme é dirigido de dentro para fora pelo seu protagonista. Quando ele fala, todos os outros sons se tornam secundários e resignam-se ao baixo volume. Nas cenas dentro do veículo, onde insiste em ocupar sempre o lugar do condutor, a câmara tende a manter-se fixamente junto aos dois interlocutores até ao momento em que um de vários catalisadores o atinge como uma injecção de adrenalina e o plano salta para fora do carro, alternando freneticamente entre o seu sprint através o trânsito e a troca acesa de palavras no seu interior. Lou nunca está ausente e em nenhum momento ele perde o estatuto de figura central pois a sua influência sob o filme é demasiado grande para que isso não se verifique. E ainda bem que assim é.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.