Mad Max: Fury Road (2015)

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A melhor parte de “Mad Max: Fury Road” não faz parte do filme. Acontece momentos antes de entrarmos na sala, quando apertamos nas mãos o bilhete que nos dá acesso a uma experiência magistral à qual ainda não sabemos que vamos ter direito. As duas horas seguintes são um turbilhão de fogo, motores e balas que persistem até ao momento que o rolar dos créditos nos transportam de volta à sala. Até lá, as duas horas que nos são proporcionadas por George Miller e a sua talentosa equipa são exactamente aquilo para o qual o Cinema foi criado: uma evasão temporária que corta relações com qualquer realidade que não aquela que o ecrã nos mostra. Nos últimos tempos o blockbuster tem acusado um desgaste evidente na capacidade da indústria encontrar formas de manter o cinema-espectáculo fresco, desgaste esse que é encoberto pelos melhores efeitos que o dinheiro consegue comprar. O toque de génio que faz deste um oásis num deserto (passo a expressão) povoado pela mesma mesmice barroca da era do CGI é que Miller opta não por reinventar a roda mas, muito ao estilo Mad Max, para reciclar peças de um esquecido cinema de acção para criar um novo mastodonte com um rugido clássico. E que rugido.

30 anos e um peeling facial depois Max Rockatansky regressa para mais uma aventura nas areias da Wasteland, aquilo que resta da Austrália depois do colapso da civilização. Para aqueles que não assistiram à trilogia original encabeçada por Mel Gibson “Fury Road” é um começo tão bom como qualquer outro já que traz com ele toda a informação necessária para que a personagem de Max funcione no contexto desta história. Ainda antes de podermos recuperar da usual adrenalina causada pela procissão de logotipos já a primeira cena estabeleceu o protagonista, introduziu os vilões e começou a marcar o ritmo pelo qual se vai gerir daí para a frente, ritmo esse que se mantém inacreditavelmente frenético de princípio a fim. Tal como muitos outros filmes do género este rege-se pela máxima “Estilo sobre Substância” mas o que o destaca do resto do grupo é a sua habilidade de entregar uma sequência de acção mais tresloucada do que a anterior ao mesmo tempo que mantém uma sólida componente humana , um acto de malabarismo mais raro de avistar do que um dodó nas costas de um mamute. Um filme menor teria mostrado menos e dito mais, arruinando a batida com detalhes irrelevantes para aquilo que é, bem vistas as coisas, uma longa sequência de perseguição.

O exagero em termos de escala, caracterização e percentagem de tempo de exibição focado nos embates entre máquinas poderia facilmente ter saído pela culatra e arruinado toda a experiência a partir desse ponto, já que “Fury Road” aposta todas as suas fichas sempre na mesma casa. Todavia o que seria spam visual em qualquer outra produção aqui é magia, hocus pocus, um verdadeiro encanto que teima em exceder-se a si próprio quando o melhor parece já estar para trás. Os trailers e spots publicitários merecem uma palavra de apreço nesse aspecto pois as imagens utilizadas para efeitos de promoção incluem-se quase todas no primeiro acto, deixando muito ainda por descobrir no escuro da sala. Ainda assim nem só de efeitos especiais vive a Película. Embora à flor da pele se apresente como uma chuva de chapa, balas e gasolina destinada a acelerar o coração – qual concerto de Rammstein sobre rodas –  cada momento de regozijo tem por sombra uma leve sensação de reprimenda. Por toda a gratificação que a existência de um camião de guerra dedicado somente a música de campanha possa trazer, a realidade de que este é um mundo desolado onde os recursos escasseiam nunca é afastada a não ser pela nossa própria admiração pelo espectáculo megalómano.

Esse fenómeno é também representado nos pedaços descartados do que foi outrora uma sociedade, hoje divididos em vagabundos à mercê de tudo e todos, fanáticos fascinados pelo conceito de glória como portal para uma vida privilegiada no Além e os senhores da guerra que controlam os recursos e, por conseguinte, os dois primeiros grupos. Todos os outros, como Max, vivem à sombra da imprevisibilidade do estilo de vida errante na planície infinita de areia. O componente – ou melhor, A componente –  que vem quebrar a rotina de pilhagens, exploração e anarquia geral é Furiosa, uma das subordinadas mais respeitadas do principal vilão e senhora de um feroz camião que por si só parece deter uma personalidade própria. Motivações pessoais fazem com que eventualmente ponha em marcha um plano que coloca a sua cabeça a prémio e eventualmente a leva até Max. Embora não seja o seu nome que esteja estampado no poster esta é claramente a sua história, o que é refrescante não só por fazer com que o protagonista partilhe o relevo desse título com outra personagem mas principalmente por fazer com que seja uma mulher a tomar essa posição de controlo.

É portanto dolorosamente irónico que a porção de público à qual será mais difícil vender um bilhete seja a feminina. Parece primitivo dizê-lo em 2015 mas o destaque dado à componente altamente violenta combinada com a ausência de qualquer enredo romântico terá um papel fulcral no afastamento do filme daquele que é também o seu público-alvo. Contudo este não é um exemplo de feminismo, pelo menos não no sentido neo-liberal que fez do termo um sinónimo de ódio em relação a homens e emancipação radical das mulheres. Muito como as clássicas duronas do Cinema como Ellen Ripley e Sarah Connor ou mesmo caso menos ortodoxos como a maioria das protagonistas das obras de Hayao Miyazaki, a força e carácter de Furiosa não estão directamente apoiados na sua anatomia. Caso a atribuição de papéis tivesse sido trocada entre actores e Tom Hardy tivesse interpretado Furioso e Charlize Theron Max seria possível manter a personalidade, motivações e trabalho físico de cada personagem praticamente inalteráveis já que, exceptuando o carácter ligeiramente mais transtornado de Hardy, o par está igualmente equipado para responder à letra caso a ocasião o exija. Miller é altamente astuto ao manter os interesses de cada elemento puros e focados no mesmo ponto de início a fim, evitando mecânicas fáceis e gastas de criação de empatia entre personagens ou entre o interior e o exterior da tela. Quem disse que uma relação entre um homem e uma mulher deve acabar sempre na horizontal?

Ok, talvez a melhor parte de “Mad Max: Fury Road” faça parte do filme. Talvez a melhor parte seja testemunhar o retorno de uma espécie de Cinema julgada extinta desde os seus tempos áureos nas décadas de 80 e 90.  Este é o momento em que uma lei devia ser promulgada obrigando os filmes da saga “Fast & Furious” a adoptar o nome de “Hot Wheels” pois a mais pequena sugestão de semelhança entre títulos é um insulto para este casamento de habilidade, respeito, amor e competência. O futuro reserva-nos pelo mais uma sequela – já baptizada como “Mad Max: The Wasteland” – e aos 70 anos George Miller parece mais que disposto a continuar a controlar o destino do franchise que ajudou a trazer ao Mundo após uma breve carreira como médico. No entanto quão brilhante seria ver um título “Mad Max” a ser realizado/co-realizado pelo Road Warrior original? Com banda sonora de Tina Turner…e quiçá com uma pequena interacção entre Gibson, Hardy e Theron na mesma cena…ah, a imaginação é uma coisa tramada.

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.