Love & Mercy (2014)

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Para aqueles que lembram os Beach Boys somente como aquele grupo de rapazes amorosos com penteados à la esfregona a carregar uma prancha de surf pela praia, “Love & Mercy” virá como um choque. Tal como os Beatles, o enorme sucesso da banda, devido ao seu som leve e contagiante, foi apenas uma prequela para o desejo subsequente de produzir material diferente e mais maduro que, por sua vez, serviu como o primeiro presságio para a eventual ruptura e dissolução do grupo. No caso dos Beach Boys o homem no centro de todo esse processo foi Brian Wilson, o material em questão foi o álbum “Pet Sounds” e a sua Yoko Ono foi a esquizofrenia. A cena inicial actua como uma síntese dos tempos áureos da banda ao abrigo do sol da Califórnia, dos gritos das multidões em êxtase e – mais crucial ainda para o foco central da história – da sua realização artística, qual silêncio antes da tempestade. Assim, como a maior parte de boas biografias dedicadas ao mundo da música, “Love & Mercy” não é sobre o making-of de um álbum ou a crónica de uma tour mas sim uma história extremamente íntima que, embora irregular, se mostra assente num leque de ideias sólidas.

O filme deleita-se em jogar com o conceito de dualidade: sucesso e fracasso, miséria e felicidade, criatividade e monotonia, juventude e velhice, saúde e doença, chuva e sol, família e solidão e por aí adiante. Dada a progressão lenta mas constante da doença, o guião transporta-nos constantemente entre duas épocas distintas na vida do músico a fim de poder cobrir uma maior área da parte mais negra da sua vida de forma eficaz e esclarecedora. Nos anos 60, Paul Dano decide não acompanhar os seus parceiros numa viagem pelo Japão a fim de se poder concentrar no próximo trabalho da banda, um álbum com um novo som que representará um novo rumo para os Beach Boys. Pouco a pouco, as dúvidas de Wilson sobre o desafio de expressar outros sentimentos através da sua música e a pressão de propôr essa mudança radical ao resto da banda juntam-se aos primeiros sintomas da sua doença para formar a amálgama de miséria que acompanhará o músico durante décadas, incluindo os anos 80 onde uma versão sua que caminha bem perto do abismo é representada agora por John Cusack. A estrutura da narrativa passa então por alternar entre o passado e o presente da personagem, muitas vezes insinuando uma espécie de relato “causa-efeito” onde os eventos de um episódio parecem ser intencionalmente organizados de forma a criar uma ligação mais forte entre os 20-25 anos que separam o dia-a-dia das duas metades do mesmo homem.

Ainda que haja uma leve tendência para mostrar mais do génio de Dano do que a loucura de Cusack – numa razão de 55-45, aproximadamente – ambas as performances gozam de uma importância semelhante. É interessante notar que, embora o Brian Wilson dos anos 80 que esteja a passar por uma fase onde se encontra mais emocionalmente exausto e o seu círculo social é mais restrito, é o seu “eu” mais jovem que revela um estilo de vida mais solitário. É exactamente durante as sessões de gravação em estúdio ou em conversa com as pessoas mais próximas na sua vida que é possível perceber o quão sozinho e incompreendido Wilson se sente, algo que não parte de uma necessidade do artista de exercitar o seu ego mas sim de uma falha de tradução entre aquilo que são as suas intenções e aquilo que ele transmite através das suas palavras e acções. Paul Dano dá-se muito bem com esse tipo de caos. John Cusack é obrigado, por exigência das circunstâncias, a entregar uma performance mais subjugada e portanto cabe ao resto do elenco a tarefa de injectar alguma energia no filme durante estes segmentos, algo que ninguém consegue melhor do que Elizabeth Banks. Enquanto Paul Giamatti rói o cenário à sua volta com a sua interpretação de um terapeuta-galinha e uma mão-cheia de actores preenche o resto da vida reclusa do músico com prestáveis mas igualmente pequenos papéis, a personagem de Banks assume-se como uma espécie de bastião de normalidade no meio do turbilhão que é a vida de Wilson. A esperança que vemos desaparecer lentamente do mundo de Paul Dano vai surgindo ao mesmo ritmo ao lado de John Cusack, catalisada por esta nova presença tão radiante que facilmente se poderia ter tornado cartoonesca em mãos menos capazes mas que aqui se mantém contida em realidade e ternura. Se esta película possuir o vigor para chegar até à próxima edição dos Oscars será no conjunto de nomeadas para Melhor Actriz Secundária que o irão encontrar.

De certa forma esta é uma história tragicómica. Ainda que a noção de testemunhar a caminhada de uma pessoa até ao esquecimento seja terrível – quanto mais um génio da música contemporâneo – o conjunto de circunstâncias que guiaram a parte menos boa da vida de Brian Wilson podiam quase transcender o lamentável, passar o absurdo e cair no morbidamente humorístico. Entre o flop comercial e crítico de um projecto tão pessoal como “Pet Sounds”, o germinar de uma doença que o afastou do seu habitat natural, o corte de relações quase definitivo com as pessoas que rodeavam e o encontro com um médico que acabaria por se revelar uma sanguessuga, a vida de Brian Wilson parece ter sido estabelecida por alguém à procura de tirar o melhor partido de uma tirada cruel. Para ter noção da tragédia que seria manter este génio na prateleira – ainda mais tempo – ouçam alguns dos seus momentos considerados “menos bons” como “Wouldn’t It Be Nice”, “God Only Knows” e “Here Today”. O que é que as pessoas andavam a fumar naqueles tempos?

Oh.

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.