Lake of Fire (2006)

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“Lake of Fire” é um documentário que faz corar de vergonha quem hoje em dia não faz por ver mais documentários. Numa época onde a informação é consumida ao minuto e em pequenos surtos, os mecanismos onde essa informação é gerada seguem uma tendência pouco saudável de “plastificação” do seu material. Informação tornou-se “conteúdo” e não são muitos os exemplos considerados indignos na demanda pelo “Like” e pelo “Share”, os mediadores de importância do novo mundo. O bom Cinema documental troca esse apelo fácil por outros traços mais difíceis de vender a um público geral como a discussão de assuntos ou eventos que não se enquadram no perfil de uma conversa casual de café. Então se o exemplo em questão envolver o realizador Tony Kaye (American History X, Detachment) a vaguear durante 2h30 pelos dois lados do debate sobre o aborto a conversa dificilmente passará de uma troca constrangedora de olhares, pelo que mais uma vez as peças de foro informativo não conseguem escapar ao estigma de serem horríveis desbloqueadores de conversa.

Felizmente esse não é o seu principal objectivo e nisso o trabalho de Kaye não é nada abaixo de fantástico. Combinando testemunhos dos dois lados do argumento sobre a legalidade do aborto, “Lake of Fire” tenta fazer um apanhado isento das experiências e mentalidades de ambos onde nunca se acanha de mostrar o que outros prefeririam deixar sub-entendido. Ainda assim, a captura dessa evolução ao longo dos tempos não é tão subjectiva como seria desejável. Embora seja perceptível que a intenção de Kaye parte com o desejo de manter a sua obra o mais aberta e imparcial possível, de modo a fazer dela algo mais que uma arma de arremesso político, o lado anti-aborto raramente aparece representado por alguém com capacidade de construir um argumento minimamente racional. A esmagadora maioria de todos os apoiantes desta ideologia emitem a mesma aura de irracionalidade e fanatismo religioso, entoando o nome de Deus e Jesus Cristo em uníssono enquanto abanam cartazes com lemas da praxe como “Abortion is Murder”.

Um exemplo particularmente áspero é o de um prisioneiro, acusado de um crime relacionado com o tema, que alega que um bom cristão devia agir de acordo com as instruções do Papa, mesmo que tal signifique suprimir opiniões pessoais em detrimento de dogmas de fé. Mais uma vez,  é difícil acreditar que, após um trabalho tão cuidado na construção de uma narrativa sobre um tema tão sensível, o autor deitasse a credibilidade do seu projecto a perder ao escolher a dedo pessoas cuja personalidade roça o estereótipo. A alternativa, muito mais assustadora, é que Kaye apenas veio confirmar que os receios mais sinistros associados à doutrina “anti-aborto” podem não estar longe da verdade, assim como o “1984” de Orwell poderá não ser exclusivo a uma era mais primitiva mas sim uma perpétua ameaça que paira sobre nós como uma espada de Damócles.

Até lá, gerações inteiras terão aqui um soberbo dossier sobre a luta de tracção judicial e ética travada por milhares de mulheres pelo seu direito de terminar incubação de um feto indesejado. A conversa é aberta a todo o tipo de pessoas e varia entre Noam Chomsky,  professores, activistas, escritores e médicos e até um candidato presidencial republicano. Nenhuma voz é julgada a priori. O ponto de partida de tudo isto é o famoso caso “Roe v. Wade”, aquele que praticamente toda a série de TV/filme que envolva Direito adora parafrasear a certo ponto, que remonta a um caso no início dos anos 70 em que uma mulher decidiu desafiar a constitucionalidade das leis anti-aborto no estado do Texas. Um dos testemunhos mais interessantes vem exactamente da “Jane Roe” original (Norma McCorvey), onde ela revela detalhes da sua vida antes e durante o julgamento que viria a tornar-se decisivo não só para si mas para uma nação inteira de mulheres. O seu depoimento tem ainda espaço para uma revelação surpreendente e a história que a justifica, o que por si só justificam o investimento de umas horas nesta magnífica peça documental.

Embora contenha algumas imagens bem explícitas de fetos e trabalhos de cirurgia, este é exactamente o tipo de temática a que jovens nos seus anos formativos deveriam ser expostos de forma a esclarecer, desde cedo, incertezas que não devem ser carregadas para a idade adulta. Embora as imagens no ecrã sejam a preto e branco, a verdade que escolhemos aceitar não o é, sendo portanto essencial semear desde cedo as sementes de debate para que uma mente crítica possa ser colhida mais tarde. Pelo meio, basta saber tratar do jardim.

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.