John Wick (2014)

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A noite é uma personagem em John Wick. Não há lugar aqui para pessoas diurnas, com trabalhos de escritório, horários para o dentista e compras de última hora para fazer. Aqui só existe o submundo das altas horas dos clube nocturnos, círculos exclusivos e dos gangues que manipulam tudo por detrás do conforto da clandestinidade e do poder armado. Mesmo quando a maior parte da cidade dorme este mundo agita-se tanto ao ritmo da música e da bebida como ao das perseguições e tiroteios. Esta era a realidade de John, um assassino a soldo de alto estatuto, até ao dia em que os encantos de uma vida normal o fizeram pendurar a espingarda e seguir outro caminho. Mas tão cliché como esta escolha é o factor Destino que sempre se encarrega de trazer ao de cima o lado negro que luta constantemente para emergir mas que outra força trata de manter enterrado. Calado e resignado foi como o encontrou. Calado e resignado ele regressou.

Ao centro temos Keanu Reeves mais uma vez a tomar conta de um papel que lhe assenta como uma luva: one-man army de poucas palavrasOlhando de relance é difícil acreditar que o actor foi o corpo e alma de alguns dos maiores filmes de Acção dos anos 90, ainda para mais de forma convincente, mas contra factos não há argumentos. Tal como Neo ou Johnny Utah, Wick é uma personagem talhada aos pontos fortes de uma estrela que no seu melhor dia se dá razoavelmente com longas linhas de diálogo ou compassos mais emocionais. Essa falha é no entanto colmatada pela dedicação às outras sequências do filme (i.e. a violência) onde o espírito trabalhador de Reeves (quase) compensa todos os seus defeitos na área da representação, o que traduzido em miúdos é uma performance onde a maior parte das proezas são claramente feitas pelo actor e não pelo duplo. Ambos os realizadores tomam partido do seu passado na área das acrobacias para demonstrar este trabalho de forma limpa com a câmara semi-fixa para proporcionar planos médios e longos onde todo o “bailado” entre intervenientes é perfeitamente visível, o que se tornou cada vez mais uma raridade nos dias que correm.

Embora não deixe a sensação de ser datado ao longo dos seus 101 minutos febris, há um cheiro a Denim Original em si que não existe nos outros filmes do género dos nossos dias. Onde Liam NeesonDenzel Washington, Pierce Brosnan e outros insistem em tornar as suas histórias uma receita onde acção e narrativa são igualmente cativantes, Keanu Reeves vê a oportunidade de voltar aos dias antigos onde a bala era sujeito, predicado e ponto final. Por outra palavras este não é um filme para fãs de narrativa, exploração de personagem ou de diálogo eloquente pois esses são termos abstractos dentro deste contexto. Se formos a analisar o factor “história” dentro de John Wick não precisamos ir muito mais longe que o trailer usado para o promover. Todas as personagens são meros recortes do mesmo livro de onde saíram tantas outras e 95% delas têm o propósito único de actuar como um mero obstáculo entre o protagonista, a sua arma e o seu objectivo final. O resultado é um banho de sangue e danos materiais recheado de bons momentos de recurso à violência mas onde a falta de ambição em certos campos o prende algures entre o esquecimento e a imortalidade que lhe parecia destinada.

Fãs hardcore do género não deverão sair desta viagem acidentada com uma sensação de perda mas para quem espera algo mais de uma película cinematográfica o resultado tenderá ao desapontamento. Por muitas e belas que sejam as trocas de galhardetes que envolvam o nosso herói e um mini-exército de mafiosos, são várias as instâncias em que as hesitações dos adversários no plano fazem com que se quebre a suspensão de descrença que nos faz acreditar, no momento, que um homem relativamente franzino consegue eliminar divisão após divisão cheia de unidades armadas até aos dentes. O guião é desleixado e preguiçoso, actuando mais como uma lista de notas para guiar o utilizador entre quem representa o lado do Mal e do Menos-Mal, quem fez o quê a quem e estabelecer a mudança entre localizações onde a próxima escaramuça irá decorrer. Apesar de incluir talento como Willem Dafoe, Michael NyqvistMikael Blomkvist na trilogia Girl with the Dragon Tatoo original – e Alfie Allen – Theon Grey joy em Game of Thrones – o esforço dedicado às performances não vai além daquele que foi dedicado à página. O aspecto “cartoonesco” do conjunto mantém-se firme por pouco tempo até que a sua fraca estrutura se desmorona e o revela como a composição enfadonha que realmente é. A única razão para separar o espectador do seu dinheiro é a possibilidade de presenciar Neo-Johnny WickUtah fazer-lhe o favor de eliminar lentamente o problema, um carregador de cada vez.

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.