The Interview (2014)

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Depois da barafunda e do standoff mexicano entre corporações e países – sobre o qual nos debruçámos aqui – a poeira não tardou a assentar e o lançamento do polémico The Interview avançou mesmo em quantidade limitada em alguma salas norte-americanas mas em larga escala em plataformas digitais. O prometido banho de sangue e escombros deu lugar ao ruminar de pipocas e à corrida para ver o filme cujo nível de controvérsia faria corar de vergonha Sacha Baron Cohen, Trey Parker e Matt Stone. Feitas as contas o “vai – não vai” mais popular do ano acabou por se revelar uma acidental(?) manobra de marketing que levou o filme da sombra do lápis azul aos ecrãs de todo o mundo no curto espaço de uma semana, levantando dúvidas sobre a gravidade do caso no processo. Facto é que The Interview chegou com honras de clássico e ícone de liberdade de expressão onde provavelmente, numa situação normal, lhe estaria reservada uma estreia de cariz bem mais reservado.

Após uma primeira visualização o primeiro pensamento que vem à ideia é um de embustes e a cadeia de acções que nos leva a cair neles. Neste caso em concreto o circo dos media serviu para mascarar mais uma comédia completamente insípida à moda de Franco e Rogen que apostou demasiadas fichas para as cartas que detinha na mão. Mas pior que um bluff é um bluff  que não se aproxima sequer das mais baixas expectativas que tanto alarido faria adivinhar. Aquilo que poderia ter sido uma crítica subliminar ou comédia de gargalhadas a bom som tiradas com material imaginativo é de facto mais do mesmo, um pretexto para mostrar mais a mesma orgia de drogas, humor juvenil e mulheres despidas à qual mesmo um público mais casual começa a revelar uma imunidade. Quem diria que representar Kim Jong-Un como fã de uma princesa pop não é espirituoso ou relevante? Quem diria que representar Seth Rogen e James Franco como uma mera caricatura do seu lado mais juvenil não passa de uma fórmula de humor crasso com anos a mais de rodagem? Quem diria que falta de tacto não é um substituto para a piada que se espera encontrar numa comédia?

Aparentemente o estúdio pois isso certamente explicaria o esforço hercúleo que foi feito para tentar vender o filme com base em tudo excepto o seu conteúdo. Quando todas as publicações faziam menção apenas e só ao pormenor de esta ser a história de dois jornalistas que recebem a missão de assassinar o presidente da Coreia do Norte, essa não era uma sinopse nem tampouco um resumo alargado de toda a trama mas sim o ditado completo de tudo o que se possa assemelhar  a uma intriga. Após o esticão até 2 horas de fita sobram imensos espaços vazios que são então tapados com as façanhas a que a parelha de protagonistas nos habituou ao longo dos anos. Se há algo de positivo aqui é o facto de esta ser uma obra que se vende a si própria, tendo já ela sido apresentada e recolhido a sua parcela de seguidores quando se chamava Pineapple Express ou This is the End.

É de lamentar que o Mundo pareça rodar exclusivamente à volta destes caçadores de sensacionalismo, das Kim Kardashians, reality shows e Interviews desta vida que crescem em notoriedade na crista de um ciclo vicioso de solenidade que, por alguma razão, encontram sempre uma fonte de subsistência para se alimentar e crescer. Num outro tipo de cultura certamente não se celebraria o fracasso e a carência de qualidades destas entidades que são trazidas e levadas pelo Tempo como que sopradas por uma ventania. 2015 começa então com uma boa notícia: o início do fim da relevância de The Interview.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.