Interstellar (2014)

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Corria o ano de 1997 quando Robert Zemeckis, um verdadeiro camaleão de géneros, nos presenteou com Contact onde o Espaço e o seu conteúdo eram abordados ao som de Alan Silvestri e com letra de Carl Sagan. Entre o tumulto dos preparativos para uma viagem através do Cosmos ao encontro ao desconhecido, a personagem principal de Jodie Foster encontra em Matthew McCoughaney, que interpreta um filósofo, não só um companheiro amoroso mas também um adversário amigável na hora de debater algumas das dúvidas que a assolam à medida que o plano evoluiu desde a teoria à prática. Não deixa de ser curioso então que 17 anos depois voltemos a encontrar o actor num papel que acaba por unir um pouco essas personagens numa só num filme que deve bastante a tantos outros. Não só de Zemeckis vive Interstellar, é certo, mas entre as tentativas de emular o espírito familiar de Steven Spielberg e o analítico de Stanley Kubrick , Christopher Nolan não atinge nem Close Encounters of the Third Kind nem E.T. nem tampouco 2001: A Space Odyssey, sendo o clássico de Zemeckis o melhor ponto de referência para um filme que tenta abranger o melhor de dois mundos. Como diria outra personagem de McCoughaney  “Time is a flat circle.” e para ele 2014 marca o ponto de encontro com o seu 1997.

Interstellar fala-nos de um futuro incerto onde a Terra se encontra assolada por uma constante praga de pó que acompanha o perecer gradual das plantações agrícolas, deixando a raça humana a braços com um problema grave de subsistência. Cooper (McCoughaney) é um engenheiro/piloto espacial tornado agricultor que segue estes acontecimentos de perto, constantemente questionando os porquês da crise e o amanhã reservado para a sua família enquanto o Mundo à sua volta se dedica em trabalhar teimosamente dia após dia com os olhos postos apenas no presente. Este é o primeiro gosto da personagem de Cooper como uma figura messiânica e, embora Religião não pareça ser um dos temas sobre os quais Nolan queira falar, o caminho por ele traçado passa por lugares recheados de puro dogmatismo. A introdução ao conto deste astronauta não transcende o género mas é algo competente ao ponto de saber levar as personagens e o enredo para o sítio desejado sem grandes solavancos. É na aproximação ao 3º acto que a pintura é borrada pela percepção de que todo o impacto académico e emocional está apoiado numa narrativa que se alimenta de suposições e teorias a que cujo confronto e esclarecimento foram maioritariamente nulos ou deficientes.

Todos os pecados encontrados no guião dos irmãos Nolan fazem parte do mesmo colossal imbróglio de pedantismo, indecisão e falta de detalhe que entalha este misto de drama familiar e pseudo-documentário sobre os cantos inexplorados do Universo. O futuro distópico onde acção decorre apresenta irregularidades básicas no campo do senso-comum: na mesma era onde foi atingido o nível tecnológico que permite a existência de robôs com inteligência artificial certamente capaz de quebrar o teste de Turing ainda se circula em veículos com uma caixa de mudanças manual. Ao mesmo tempo a Sociedade parece concentrar os estudos dos mais novos na área da Agricultura desdenhando no processo a aposta na criação de mais engenheiros e cientistas, os mesmos profissionais essenciais à corrente e futuras ondas de progresso. A iminente falta de comida altera mentalidades, provocando a desactivação de alguns dos órgãos governamentais, tanto locais como a nível nacional, mas por algum motivo não se verifica o tipo de actividade criminosa que por esta altura o instinto de sobrevivência humano já teria provocado numa parcela de indivíduos mais impacientes. Tudo isto antes de sequer descolarmos em direcção às estrelas.

A parcela espacial da história é, como seria de esperar, bem mais regrada já que foi desenvolvida sob a tutela do físico Kip Thorne cujo domínio da informação relativa aos conceitos abordados no filme é certamente maior do que a da esmagadora maioria da audiência.No entanto a tradução de toda a mecânica por trás dos corpos celestes e outros salamaleques extra-terrestres é mal adaptada ao formato cinematográfico onde a componente científica precisa de ser embutida num veículo mais dramático para ajudar à sua exposição. Explorar a fundo os mistérios de um campo tão dado a teorias e incerteza seria um desafio sério para qualquer autor mas ao mesmo tempo não se pode justificar o tamanho da ambição quando o alcance é claramente curto, especialmente se a nossa obra toma a responsabilidade de levar essa exploração a sério. Mantendo tudo o mais vago possível para evitar qualquer spoiler, o supracitado 3º acto e ao protagonismo dado a uma certa força metafísica que pouco ou nada se relaciona com o que aqui se trata são os principais transgressores, no meio de tantos outros delitos mais leves, da ineptidão dos guionistas em conduzir uma apresentação com pés e cabeça de material académico enquanto tentam contar uma história. Ironicamente, uma personagem afirma a certo ponto “Isn’t science about admitting what we don’t know ?” o que soa mal quando nos deparamos com um tratamento desleixado de conhecimento que, embora esteja lá, não sai cá para fora da melhor maneira ou simplesmente não sai, o que dá a impressão que Nolan ou não confia no seu público ou confia demasiado. De qualquer forma a abordagem feita deixa algo a desejar.

As numerosas comparações que tem vindo a ter com 2001: A Space Odyssey de Kubrick são compreensíveis da perspectiva de alguém que viu apenas um trailer mas após a experiência do filme essa comparação chega a parecer um pouco absurda. Kubrick não se preocupou com os factos científicos mas sim com aqueles que lhe permitiriam construir um poema épico dedicado à Humanidade e a sua História. A sua visão era clara e embora sua mensagem pareça confusa a princípio, ela está lá para ser desenterrada por quem tiver a determinação de a encontrar. Nolan foca-se nos porquês, foca-se no drama, foca-se nos efeitos especiais e entre tanto foco vai perdendo o fio à meada daquilo que realmente nos quer contar. Não é uma análise científica mas mais um esboço produzido em cima do joelho para a rapariga gira que gosta de Ciência, em que o lado emocional recebe um tratamento demasiado privilegiado em relação à frieza mais desconfortável dos factos.

E depois de tão portentosa sessão de enxovalho, surge a pergunta: Interstellar é então um mau filme? Surpreendentemente, a resposta é não. Tudo depende do modo de que o filme for abordado. Como experiência audiovisual é certamente um triunfo, apoiado num drama familiar que ainda que não consiga fazer puxar da lágrima (embora não por falta de tentativa) faz por ser a parte mais sólida da película. Hans Zimmer volta a justificar o reconhecimento que tem vindo a ganhar na sua carreira com mais uma banda sonora exímia na arte de manipular emoções, quer seja na hora das injecções de adrenalina ou nos momentos mais contemplativos. Os efeitos são também de topo, tal como as performances por parte de um elenco reduzido mas recheado de estrelas. Então porquê apenas um parágrafo de admiração e tantos outros de vitríolo? Meramente pelo facto de mais se esperar por parte deste autor, mesmo que The Dark Knight Rises, o seu último filme, tenha sido um desastre de proporções bem maiores. É esta uma espécie de redenção sua? Sim. Merece toda o fanatismo trazido pelos fãs do realizador? Não. Mas ao mesmo tempo não deixa de ser algo que faça por merecer a visita ao cinema.

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.