Gone Girl (2014)

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A cena inicial de Gone Girl diz-nos mais do que podíamos imaginar numa primeira visualização. Um homem afaga gentilmente o cabelo de uma mulher enquanto o seu monólogo interior entoa as primeiras palavras que iremos ouvir, um desabafo de teor bastante peculiar. A figura feminina vira-se repentinamente como que a reagir às palavras que acabaram de passar pelas colunas, embora não as possa ter ouvido, e Rosamund Pike olha-nos de frente. Ou quase. O olhar que ela atira para um ponto ligeiramente acima do centro do plano (provavelmente o rosto do seu companheiro) não é ternurento nem tampouco de ira mas também não é algo que possa ser classificado como estóico. “E agora?” é a pergunta que se coloca naquele momento e a que irá pairar nas nossas cabeças muito depois dos créditos finais terem começado a rolar.

O casal em questão é composto por Nick e Amy Dunne, escritores de profissão a residir numa pacata e pequena cidade do Midwest americano. O dia-a-dia indolente de um casamento que há muito se tornou um contrato vazio aliado ao facto de estarem ambos desempregados marca o passo de uma relação que caminha lentamente para o seu fim anunciado. É na manhã do quinto aniversário do casamento de ambos que tudo muda quando Nick chega a casa para encontrar sinais de escaramuça e nenhum da presença da sua mulher. A extensão do caso é consideravelmente maior do que o normal dado que a desaparecida é a filha de uma escritora responsável por uma cadeia de livros de sucesso baseados à volta de Amazing Amy, uma espécie de Anita à americana. Este facto atrai a atenção em massa dos média e Nick vê-se repentinamente necessitado de combater não só os meios de comunicação que tentam escrutinar cada detalhe da sua vida mas também a modesta equipa de investigadores que, pressionados pelo olhar vigilante da nação, começam desde cedo a apertar o cerco.

Um dos pontos fortes da narrativa é a maneira de como consegue revelar mais e mais sobre uma dada linha do enredo sem nunca revelar a porção do puzzle que pretende antes do tempo. É provável que ao longo do filme se tenha aquela sensação de controlo onde se sabe exactamente qual vai ser o próximo passo de todos os jogadores dentro do jogo, como quem vê um carro a aproximar-se na sua direcção. Aqui tudo é ocultado por um nevoeiro cerrado que cobre as alterações em segundo plano eximiamente, deixando as luzes dianteiras do veículo serem aparentes apenas quando seja garantido que estas sejam a última coisa que iremos ver antes de sermos abalroados por outro twist inesperado. Este é um processo que se repete várias vezes e a experiência só tem a ganhar ao deixar o espectador constantemente a duvidar das personagens e acontecimentos dentro do ecrã mas também das próprias teorias e pensamentos que possam vir a desenvolver enquanto acompanham o desenrolar da acção.

Há ainda espaço para uma sátira flagrantemente óbvia ao instinto/regra de ouro que tende a levar o público a procurar o lado negativo de tudo, sendo a comunicação social o representante material desse desejo. Nick não é de todo um santo e a ligação que o une à sua esposa é uma mera sombra daquilo que foi outrora mas ainda assim a intenção de encontrar Amy é a força motriz que o move nos primeiros momentos da investigação. Isso muda após a salva constante de pressão e controlo concentrados na sua pessoa, o que alterna a atitude de marido preocupado para uma de alguém que se vê a obrigado a defender a mais pequena acção à medida que o cerco aperta e a opinião pública começa a virar-se contra ele. A escolha de Ben Affleck ajusta-se bem ao papel, ainda mais agora que a sua carreira conhece voos mais altos, pois tal como a personagem também ele sabe o que é viver debaixo de uma chuva de flashes e perguntas pensadas para alimentar um organismo que engole factos e cospe calúnias.

Todavia, esta história não é a dele mas sim uma mais focada no lado feminino. Gone Girl é um filme sobre pessoas à defesa, escondidas numa concha protectora, e nenhuma delas é tão meticulosamente esculpida como Amy. Embora Margo (a irmã de Nick) ou a detective Rhonda Boney sejam personagens interessantes com uma individualidade bem traçada, a sua existência e importância acaba sempre por estar intrinsecamente ligada à personagem masculina principal. Já Amy não padece desse mal, o que é curioso dada a tendência cinematográfica de raramente tornar a esposa mais do que uma extensão do seu marido. A sua ausência física não nos impede de ouvir a sua porção da história que chega via secções de flashback ou outras em que ela lê diversas passagens do seu diário. A voz quente e ligeiramente arroucada digna de uma Lauren Bacall ou Marlene Dietrich, que imediatamente nos atrai para ela, traz-nos os relatos que nos dão os primeiros detalhes mais sórdidos sobre Nick que, aparte do seu papel como marido descontente e introvertido, não tinha tido o seu carácter posto em causa realmente até esse ponto.

O guião de Gillian Flynn, adaptado do romance da própria com o mesmo nome, é uma das melhores respostas de Hollywood à falta de exemplares onde as mulheres desempenhem um papel mais central e desacoplado de ideias conservadoras. Para além de ser uma excelente personagem feminina num elenco dominado por senhoras, Amy é uma voz que representa o papel da mulher numa relação e as concessões que podem vir por arrasto, sem que isso entrave o curso da narrativa principal. A forma como esse debate vai sendo estabelecido leva-nos por caminhos inesperados que dão à conversa um tom bizarro que alguns poderão confundir como um isco para misoginia fácil. Muito pelo contrário. A discussão sobre a política entre sexos é imparcial e, embora os eventos do filme pareçam querer dar outra percepção, a emancipação feminina que surge daí não é forçada, sexista nem sequer propaganda camuflada dos ditos feminazis. É apenas o diálogo que, como homens, por vezes não queremos ouvir.

Com uma descrição destas seria difícil de esperar que alguém para além de David Fincher fosse encarregado de adaptar o guião. Para um contador de histórias com um fetiche por ver a felicidade à distância o casamento com um livro de sucesso onde esta é deliberadamente ignorada pelo carácter frio da realidade não deve ter sido difícil de aceitar. Sem surpresa, o calculismo do realizador  faz-se sentir por toda a película mas a cereja no topo do bolo é a atenção dada à prestação dos actores. O rendimento do elenco principal é, em média, admirável mas duas prestações em particular destacam-se do todo. Pela negativa é a de Neil Patrick Harris que não parece saber como livrar-se dos maneirismos da sua popular personagem Barney Stinson, revelando-se inapto para vender outro “eu” que não seja um galã mordaz. A sua abordagem tão simplista ao que é apenas um dos traços da sua personagem destoa do resto de um quadro de performances bem mais espontâneo. Por outro lado temos a epónima Rapariga Desaparecida (ou Gone Girl) que ficou imortalizada pela execução magistral da inglesa Rosamund Pike que ao que parece guardava um enorme talento debaixo de uma montanha de papéis insossos. Ainda que a sua personagem seja uma das mais complexas e brilhantes a agraciar os cinemas neste ano, a performance de Pike eleva o texto para algo mais do que uma actriz a ler deixas de um guião. Amy Dunne encontrou um aspecto exterior em Rosamund Pike e a actriz encontrou um papel definidor de carreira. Apenas um milagre (ou Meryl Streep) a irão impedir de obter o reconhecimento da Academia e afins na próxima temporada de prémios de Cinema.

“E agora?” Como quem acaba de desenhar um círculo perfeito, o filme decide terminar com as mesmas imagens com que começou, para nós alteradas agora pela nova informação proveniente do deslindar de todo o mistério. Depois da sátira, da manha e até de uma pitada de humor escarninho voltamos a ver Nick e Amy naquele sofá como se nada tivesse acontecido. Mas nós sabemos…

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.