Fantastic Four (2015)

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“Fantastic Four” não é o filme terrível que o fazem parecer. Tem, no entanto, um filme terrível dentro de si que ocupa cerca de 70% do seu todo, o que faz com parte do vitríolo que lhe é dirigido seja justificado. O que não é mencionado vezes suficientes no meio desse negativismo é aquele resto que funciona e, mais importante ainda, injecta alguma frescura num sub-género atormentado pela redundância. Intencionalmente ou não a catadupa de rumores sobre o ambiente no local de filmagens – onde o realizador Josh Trank emerge como fonte de atrito com o elenco, a sua equipa e o estúdio – condicionou este nível de resposta ao colocar um enorme círculo vermelho à volta de toda e qualquer lacuna. Depois do envolvimento directo do estúdio aquilo que chega às salas é algo medíocre, frio, desconexo mas também com alguns rasgos de génio. A sua mediocridade vem de uma junção de elementos terríveis e muitos bons que por sua vez advêm de uma predisposição para tomar riscos, o que basta para o tornar mais interessante do que qualquer outro produto da fábrica Marvel lançado em 2015.

Enquanto a maioria das franquias de BD procuram traduzir-se no ecrã sob a forma de um espectáculo visual, “Fantastic Four” assume-se desde cedo mais como uma aventura sci-fi do que o habitual frente-a-frente entre heróis e vilões. Esta é uma de várias escolhas que são canalizadas da experiência do realizador com “Chronicle”. A essência das publicações de equipas de super-heróis aliada a trabalhos mais atrevidos como “Akira” e “Elfen Lied” é agora acompanhada pelo body horror de Carpenter e Cronenberg. Esta mistura singular deixa bem clara que a intenção dos mentores do projecto era fazer dele algo único e viçoso mas ao invés de possuir a firmeza de uma casa de tijolos, esta amálgama assemelha-se mais a uma casa de palha. As componentes científica, familiar e heróica, essenciais à estrutura da história e da maneira que ela pretendia ser contada, recebem tratamentos distintos e por conseguinte traduzem-se cada um quase como o seu próprio filme. Com toda a graça do monstro de Frankenstein, as 3 componentes avançam alternando entre dois estados: o deslumbramento e o fracasso.

Tentar apelar ao interesse dos membros mais jovens do público ao descer a média de idades do elenco principal é o primeiro grande erro do filme. Adolescentes podem ser credíveis como feiticeiros, vampiros ou habitantes de um mundo desolado controlado por um governo fascista mas não como uma equipa de cientistas à beira de uma descoberta científica significativa. Pela mesma razão que não seria credível termos um Bruce Wayne, Tony Stark ou Nick Fury da mesma idade de um Peter Parker, um Reed Richards acabado de sair do liceu é um conceito difícil de engolir. O peso da experiência e da maturidade é essencial para a credibilidade de boa parte da equipa. Ainda assim toda essa vertente poderia ser parcialmente recuperada caso as personagens em si fossem interessantes por si só e/ou dentro da dinâmica do grupo, outro factor onde se verifica um investimento fraco. Por alguma razão é assumido que referências descartáveis a peças de cultura popular –  Sue Storm menciona a banda Portishead e Johnny Storm compete em corridas de rua, entre outro exemplos – são o suficiente para a audiência construir na sua cabeça o interesse pela personagem que o guião não parece interessado em criar. Quando se deixa claro que a visão para esta propriedade aponta para algo mais enraizado na realidade, é essencial estabelecer um lado humano forte para carregar a história quando os momentos mais espectaculares não surgem. Em vez disso somos servidos com três marrões/modelos que só intercalam as suas montagens de percurssão no teclado com o débito de diálogo expositivo-cíentífico, um rufião bem-intencionado que só surge quando convém à trama e um bad boy mimado demais para merecer qualquer tipo de ligação emocional. Em suma, este grupo não se sairia muito melhor do que a primeira fila média de um concerto dos One Direction numa escala de antipatia.

Com a chegada do segundo acto o mecanismo é submetido a uma pirueta de 180º e a primeira hora de chacha tecnico-emocional dá lugar a um híbrido de “Born on The Fourth of July” e “The Fly” que traz consigo um método de trabalho bastante diferente. Esta é a única secção do filme onde se consegue notar o toque do mesmo Josh Trank que um dia entregou “Chronicle” e que, se quisermos acreditar na catadupa de rumores negativos sobre o ambiente durante a produção, não teve aqui o mesmo espaço para respirar e ver as suas ideias realizadas. Ainda assim a forma com que um drama de terceira categoria se transforma num thriller psicológico somente com uma transição de cena é admirável e o choque térmico, embora agudo, é agradável de se sentir num blockbuster pelas melhores razões, para variar. O drama de uma mudança tão abrupta e radical como aquela a que a equipa é submetida foi representado inúmeras vezes nas páginas de banda desenhada ao longo dos anos, de forma mais ou menos séria, mas é algo que esta recente vaga de filmes do género tem evitado retratar nas suas histórias de origem de super-heróis. Até Bruce Banner, uma personagem normalmente representada sob o tormento de possuir uma fracção de personalidade violenta que está para além do seu controlo, surge nos ecrãs com total domínio sob o único traço emocional que lhe confere algum interesse fora a sua persona verde. Algum responsável por trás de “Fantastic Four” – talvez Trank, talvez outro – percebeu como e onde encaixar algo novo e interessante no mesmo velho conto e, por um momento, isso faz dele uma peça única e brilhante que faz com que toda a imbecilidade à sua volta quase valha a pena. Quase.

Embora curto, esse momento serve para nos relembrar que em 2015 ainda há espaço para inovar além de um homem-formiga e um robô que é apenas a versão light de um dos protagonistas. No geral este pode não ser o melhor exemplo a citar na hora de defender o género mas pelo menos revela uma nota artística ausente de 90% dos produtos da competição. Se este desastre com uma parte boa conseguir persuadir uma sala cheia de executivos a produzir algo 1% menos medíocre durante a próxima década todo este circo dos media à volta dele já valeu a pena. No entanto, não me parece que esse vá ser o caso. Porquê? Duas palavras: Edgar Wright.

 

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.