Edge of Tomorrow (2014)

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Como pode ser apelidado um filme que revela uma boa parte da sua essência com os trailers, tem o seu quinhão de buracos na trama e que mesmo assim consegue encantar a sua audiência? O insipidamente intitulado Edge of Tomorrow não será certamente o primeiro exemplo passível de se encaixar nessa categoria mas é, de longe, um dos mais consistentes e negligenciados dos últimos anos. Num passado não muito distante o nome de Tom Cruise no poster de um filme garantiria o seu sucesso no plano comercial mas algumas decepções mais recentes reverteram um pouco essa tendência, levando o filme a passar despercebido em salas por todo o Mundo. Mas mais que uma perda monetária para o estúdio esta é uma perda para o consumidor, que deixou assim passar a oportunidade de sentir e apoiar a passagem de um dos mais interessantes blockbusters dos últimos 10 anos pelas salas de cinema.

Baseado no romance tornado Manga com o título bem mais expressivo All You Need is Kill, Edge of Tomorrow é o título perfeito para alguém à procura de uma alternativa mais substancial ao habitual filme de Verão. Para além da sua astúcia completamente acima da média, consegue também fazer o malabarismo de géneros como Acção, Sci-fi  e até Comédia sem abusar ou desprezar da sua dose. O mesmo princípio é aplicado ao tom de todo o filme que embora lide com a potencial extinção definitiva da raça humana nunca se esquece de incluir material mais cómico ou fraternal de maneira a manter as coisas bem niveladas sem que toda a experiência se torne tanto demasiado condescendente ou complicada.

A história inicia-se depois de um enorme assalto extraterrestre deixar o planeta e os seus habitantes à beira da destruição, sendo a coligação denominada UDF (United Defense Force) a última barreira entre os últimos bastiões da Humanidade e a sua extinção. O Major William Cage (Tom Cruise) é um oficial meramente focado na propaganda do exército em meios de comunicação social até ao dia que é forçosamente colocado no mesmo contingente armado que tanto tentou evitar. A acompanhá-lo no ecrã (ou melhor dizendo, sendo acompanhada por ele) está a feroz Rita Vrataski da encantadora Emily Blunt, uma guerreira cuja destreza e significância em batalhas passadas a tornaram a cara de todo o movimento armado, sendo usado por profissionais como Cage para manter o alento e aumentar o número de recrutas.

Embora Cruise seja sem dúvida o maior nome adjunto ao filme, a sua personagem passa uma boa parte do filme na sombra de Rita, o que dá um toque extra de imprevisibilidade ao filme quando vemos uma icónica estrela de acção falhar o seu objectivo dezenas de vezes. A trama vai beber à fonte de filmes como Groundhog Day ou Source Code de ter o seu protagonista retornar a um ponto específico no passado, polvilhada com pedacinhos de Starship Troopers para as sequências mais agitadas. O que separa Cage dos outros protagonistas é o facto deste não ter uma dada quantia de tempo estipulada para agir até a sua viagem recomeçar, sendo o efeito desencadeado apenas quando ele morre. Esta abordagem à lá videojogos não é propriamente a mais fresca mas no que toca a derivações esta é um daqueles exemplos que mexe os seus elementos demasiado bem para poder ser chamada uma cópia íntegra de qualquer outra propriedade.

O casamento entre Acção e Sci-Fi eventualmente atinge a sua realização em pleno, seguindo o caminho de clássicos como Aliens ou Terminator, mas a relação é um pouco tumultuosa no começo. O guião não se alonga sobre o passado portanto a informação que nos é dada sobre os aliens, os seus motivos ou detalhes sobre o curso do conflicto até aos eventos do filme é escassa. Há também um bom número de personagens secundárias introduzidas que temos a oportunidade de ver várias vezes mas, com a excepção de Cage e Rita, ninguém evolui para além do seu conjunto de deixas e acções atribuídas desde a sua primeira aparição. Há também algumas inconsistências relativas à história de Rita que não ligam muito bem com os “factos” científicos que nos são ensinados durante o decorrer da trama o que, para o bem ou para o mal, acaba por não interferir muito com os objectivos finais em mente. Ainda assim, elas estão lá e são evidentes.

Após um primeiro acto mais lento e repetitivo, a informação que audiência possui permite que o ritmo comece a aumentar gradualmente até terminar num final que parece saltar de um filme de James Cameron. A accção tende a ser rápida embora os exosqueletos mecânicos que as tropas usam em combate sejam extremamente pesados e desajeitados, indo de incursões furtivas com poucos membros a embates entre milhares e milhares de unidades num vasto campo de batalha. O realizador Doug Liman não se acanha na hora de mostrar tanto as mais belas como as mais grotescas imagens resultantes de todo este rebuliço, embora ele seja geralmente considerado como o impulsionador da moda de shaky cam que terá começado com o seu Bourne Identity em 2002. Aqui grande parte do que há para oferecer está em exibição, sendo em certos momentos mesmo surpreendente que o filme tenha conseguido uma classificação tão branda dada a carnificina que surge no ecrã.

No meio de tudo isso estão aquelas duas vidas nas quais o filme se centra, embora não da forma que se possa dar a entender. Embora surjam algumas faíscas aqui e ali, a relação entre os dois protagonistas nunca faz o salto definitivo para o campo do Romance, algo que para além de quebrar certos estereótipos sobre mulheres, homens e a forma como eles se relacionam no Cinema, também permite que os motivos principais das personagens nunca fujam muito à expectativa que cairia sobre qualquer um de nós teria sobre si exactamente na mesma situação. Como sempre Tom Cruise é um corredor/atirador nato e Emily Blunt é uma absoluta revelação no seu papel de neo-valquíria. É estranho como depois de tantos papéis em filmes de teor mais leve venha a ser neste filme que ela atinja o seu pico em carisma, performance e até como sex symbol. Ainda não é tarde demais para escolherem outra Wonder Woman, Warner Brothers

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.