Die Nibelungen (1924)

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Nota: Antes do visionamento de qualquer um dos filmes é aconselhável que não procurem ler as suas sinopses em sites como o IMDb pois estas revelam pontos cruciais da história.

 

Entre os épicos que foram o primeiro capítulo da sua trilogia do Dr. Mabuse e o portentoso Metropolis, o génio de Fritz Lang voltou a sua atenção para a fantasia e os contos clássicos, mais a especificamente a Nibelungenlied (A Canção dos Nibelungos). Co-escrita com a sua esposa de então, Thea von Harbou, esta adaptação de 1924 tem o dom raro de se manter viva e fulgurante ao longo de quase 5 horas de duração passadas numa montanha-russa de tonalidade. A chave é o expressionismo do todo e o ritmo constante do guião que mantém a história em constante movimento, entregando sequência atrás de sequência que são capazes de deslumbrar em diferentes níveis escala ou teor. No ano do seu 90º aniversário, Die Nibelungen ainda se mantém como um dos títulos mais sólidos e obrigatórios para fãs do género e faz corar de vergonha muitos dos seus “descendentes”.

Tal como aconteceu como algumas das grandes epopeias que passaram do papel para o ecrã, como Lord of the Rings ou Game of Thrones, Die Nibelungen acabou por ser dividido na altura do seu lançamento. Ainda assim, a construção exímia da narrativa permite que esse factor não destrua a integridade ou fluidez da história.

 

Parte 1 – Siegfried (1924)


 

A primeira parte apresenta-nos Siegfried, o primeiro de um rol de protagonistas,  filho de um rei que passa os seus dias a domar a arte da ferraria até ouvir , por acaso, histórias do reino vizinho de Burgundy e da bela princesa Kriemhild que lá reside. Muito ao estilo da poesia épica também o filme é dividido em cantos (ou capítulos), assim como os d’Os Lusíadas, onde é dada especial atenção a um certo acontecimento específico que irá depois encaixar-se na trama principal. No entanto desenganem-se aqueles que não gostaram do clássico de Luís de Camões e que portanto associam a comparação a algo negativo – é verdade que, estruturalmente, esta é uma obra fortemente ligada às suas raízes literárias mas que também escolhe falar mais com imagens do que com palavras. Mesmo não sendo tão expansiva quanto os clássicos de Tolkien ou cerebral como a Song of Ice And Fire de George R.R. Martin, a película consegue criar um mundo de fantasia convidativo e extremamente convincente considerando as limitações da época.

Apesar do seu penteado pateta, Paul Richter traz a postura e o carácter que esperamos ver num herói. O seu espírito jovial e fanfarrão tende a conduzi-lo pelo caminho mais complicado, perigoso ou ineficiente o que apenas torna a viagem até à promessa da bela mulher que o espera mais recheada de dividendos para ele e para nós espectadores, que fomos habituados ao longos dos anos a criar uma ligação com indivíduos temerários que lutam contra o lado mais tenebroso do espectro. Contudo isso não deve distrair do protagonismo da princesa Kriemhild, cuja introdução como moeda de troca entre o seu irmão, rei de Burgundy, e Siegfried é gradualmente aprimorada até aos derradeiros cantos desta primeira parte onde se estabelece finalmente como uma personagem forte que ombreia o seu pretendido em termos de complexidade e importância no desenrolar geral dos acontecimentos. Tal como Scarlett O’Hara em Gone With the Wind o detalhe desta ser uma mulher num mundo de homens torna-se irrelevante por simples força de vontade e convicção nela própria, o que irá tornar-se crucial não só na sua evolução pessoal mas também na de todo o enredo.

No entanto, o tronco da história é carregado quase unicamente pelo herói masculino, o seu caminho até ao castelo de Burgundy e as provações que ele terá de ultrapassar para obter aquilo que deseja. Como tal há um mundo para percorrer, um mundo com diferentes reinos, cidades e culturas, com florestas densas e desertos áridos, onde criaturas fantásticas habitam. De gnomos a rainhas guerreiras, o príncipe encontra toda uma variedade de locais e entidades na sua jornada e em nenhuma cena o detalhe parece ser menor quando comparado com o último cenário onde a acção se desenrolou. Esta atenção ao detalhe artesanal, independentemente de tamanho ou foco, salta mais à vista em sequências como aquela onde o nosso príncipe encontra um dragão numa clareira de uma floresta. A criatura é claramente um boneco, uma construção com os seus 60 metros cujo menor movimento parece requerer o mais complexo dos comandos mas quando este é colocado num localização tão rica um sentido espectral de fantasia instala-se e naquele momento encontra-mo-nos a perguntar onde na Alemanha dos anos 20 foram encontrar semelhante monstruosidade.

A personagem epónima do filme acaba, em realidade, por passar como figurante em algumas das situações simplesmente pela imponência do cenário à sua volta que o envolve como um gigante, sendo essa comparação nem sempre metafórica. No seu passo ligeiro esgotam-se as primeiras 2h30m e a primeira parte chega ao fim num ponto de viragem para toda a história que, embora não possa ser considerado um cliffhanger dada a sua natureza semi-resolutiva, justifica a existência de mais película. E a partir daqui, muita coisa muda…

 

Parte 2 – Kriemhild’s Revenge (1924)


 

Esta segunda parte vem confirmar o que a primeira já tinha cimentado: Die Nibelungen é um épico no seu sentido mais puro, isto antes da Internet ter pegado na palavra e tê-la associado a todo e qualquer evento. O dicionário define a palavra como algo “Alto, levantado, sublime ; que tem por assunto acções ou acontecimentos grandiosos”, todos eles adjectivos capazes de definir toda a viagem numa palavra só.

Como o título deixa prever, Kriemhild ocupa agora um lugar ainda mais generoso no primeiro plano e está pronta para causar estragos. Tocando o menos possível em detalhes da trama, a princesa das longas tranças claras faz jus ao seu título nobre e encarrega-se de ver aqueles que a lesaram pagar a todo o custo. Comandada pelas suas emoções, a evolução que a personagem teve durante os cantos derradeiros da primeira parte são quase nada quando comparados com a volta de 180 graus que presenciamos nesta. Embora este novo estado de evolução tenda a abrandar o ritmo mais um pouco, vale a pena presenciar a transformação para sermos testemunhas dos actos que esta outrora doce e inocente mulher é capaz de cometer para ver os seus objectivos tornarem-se realidade.

Mas ao mesmo tempo que esse novo lado sombrio se revela e a afasta de uma personalidade que podemos apelidar de simpática, existem também certas quebras em momentos mais íntimos onde a velha Kriemhild volta à superfície. Estes momentos de discernimento pessoal são aqueles que nos permitem continuar ligados à personagem de uma forma emocional e fazem acreditar que a espiral de ódio onde esta se encontra irá, por ventura, dissipar-se. Esta luta de tracção entre pólos emocionais opostos é feita de melhor forma do que um par de frases consegue transmitir, sendo tão sublime que ultrapassa qualquer instância narrativa que tivéssemos visto até agora nesta aventura. Infelizmente, esse tratamento fica reservado apenas para a personagem principal sendo todas as outras tratadas, em comparação, como um meio para um fim.

Acompanhando a tendência da heroína está o campo visual do filme que também regride para um lugar mais negro, simples e disforme. Fora estão os majestosos bosques e palácios, agora substituídos pela nudez fria de cavernas e  planícies estéreis e secas. Outro elemento agora em maior voga é o fogo que não só actua como efeito colateral das batalhas e dos ambientes mais enclausurados mas também como forma corpórea da carga emocional mais carregada que paira sobre todo o filme. Toda essa energia é libertada na sequência final, a mais grandiosa e exigente de todas, que toma partido de centenas de figurantes e da destruição quase completa do gigante cenário para providenciar um fechar de curtina forte e definitivo para todo o conto. Para além de outras factores, é aqui que temos a hipótese de testemunhar um dos primeiros vislumbres da obra-prima que Metropolis viria a ser.

E assim, no seu melhor momento, termina. Embora seja um filme mudo quase se pode dizer que a banda sonora faz um trabalho de dobragem para todos os actores e acções de tal forma que apenas quando surge o último frame no ecrã antes deste ficar preto é que nos apercebemos que nos momentos anteriores não se ouviu uma única palavra ou som que não tivesse origem num instrumento musical. É no recém-encontrado silêncio que finalmente percebemos que nunca ouvimos o trote dos cavalos, o contacto entre espadas ou o diálogo romântico no regaço de jardins, algo que hoje em dia a melhor tecnologia de som não consegue sempre reproduzir. Kriemhild’s Revenge é a excelente conclusão de uma história também ela de excelência cuja jovialidade e abordagem de temas como o amor, desgosto, vingança e, acima de tudo, mágoa lhe dará sempre um toque intemporal.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.