Crítica: Under the Skin (2013)

Under the Skin copy

 

A melhor parte de se ter uma paixão/hobby/obsessão envolvendo Cinema é que, mais cedo ou mais tarde, vamos cruzar caminho com um filme como Under the Skin (ou “Debaixo da Pele” como foi baptizado em terras portuguesas). Mais do que uma história regular ou um estudo de personagem, o filme de Jonathan Glazer é praticamente um documentário embalado com uma camada fina de história, determinado a analisar as idiossincrassias da Humanidade através da perspectiva pura de uma entidade profana à nossa sociedade. O facto de não ser a narrativa mais convencional poderá ter um efeito nocivo em audiências à espera de algo mais simples e directo mas também não é o bicho de sete de cabeças que algumas críticas o faziam parecer. Induz certamente o pensamento e a discussão mas toda a viagem que os proporciona é tão aveludada que o processo de retirar a mensagem do filme não entrava o de o apreciar e vice-versa.

Este é um filme de contrastes interessantes: é entediante e deslumbrante, caleidoscópico e monótono , erótico e árido. Este efeito polarizante guia o filme e é o que torna tão difícil a captura dos nossos sentimentos para com ele, muita vezes na mesma cena. No entanto é nesse mesmo conflito que se encontra grande parte da beleza a admirar, o que faz deste filme uma das melhores experiências cinematográficas dos últimos tempos.

É impossível falar sobre ela sem fazer a comparação praticamente mandatória com “The Man Who Fell to Earth” de Nicolas Roeg, um filme cujo código genético foi claramente uma base aqui e cuja influência se vai tornando mais óbvio à medida que “Under the Skin” avança. Para além da óbvia abordagem semelhante de “aliens entre seres humanos”, ambos tem uma estrela principal fora do seu elemento habitual , uma atmosfera mística, um ritmo lento mas constante e aquele sentimento perpétuo de que tudo ser muito mais do que aquilo que aparenta. O filme de Glazer tem, sem dúvida, muito a agradecer a sua anatomia sólida ao ADN do seu antecessor dos anos 70 mas mais que uma técnica copia-e-cola esta é uma homenagem que toma elementos existentes e os aperfeiçoa. Neste combate de cabelos loiros, é uma Scarlett Johansson morena que leva a melhor no duelo com David Bowie mas é também algo injusto declarar um vencedor absoluto olhando à diferença de décadas entre as 2 obras. Fica a dica para potenciais fãs deste filme que queiram explorar títulos semelhantes.

Posto isto, não desejo trivializar qualquer uma das 2 actuações nomeadamente a de Johansson em que cuja falta de linhas de diálogo é apenas uma pequena barreira no desenvolvimento da sua presença no ecrã. No início, todas as peças noticiosas relativas à sua presença no filme pareciam focar-se maioritariamente nas cenas de nudez da actriz ao invés da sua perícia como artista, o que se revelou profundamente injusto. Não existem introduções, voz-offs  ou qualquer outro tipo de exposição offs que expliquem como e porquê esta raça alienígena surgiu no nosso mundo e mesmo assim a personagem principal, cujo nome ou designação se mantêm sempre uma incógnita, é cativante de seguir desde o primeiro momento como se tratasse de uma versão arthouse da Thing de John Carpenter. O olhar inexpressivo e a postura rígida vendem muito bem o lado oculto da personagem, lado esse que só desaparece quando chega a altura de atrair uma nova vítima/cobaia humana.  No entanto, não tenho a certeza se o sotaque britânico da actriz passaria no teste se o papel tivesse bastante mais deixas.

Com um batom vermelho a contrastar com a pele pálida do rosto, um look perfeito para um “cavalo de Tróia” apontado especificamente a homens heterossexuais, “ela”  navega as ruas de Glasgow à procura de alvos solitários para atrair até sua casa e levar a cabo um ritual que não tem manobras ou um fim claro, o que torna todo o processo mais inquietante. A maior parte deste alvos começaram como participantes involuntários no filme dado que até ao momento em que uma bela rapariga morena e a sua carrinha tinham surgido eram simples homens escoceses a seguir as suas vidas. Todo este processo é capturado por câmaras ocultas dentro da cabine da carrinha onde a actriz se encarrega de entrar em conversas 100% improvisadas onde o objectivo é sempre mesmo: descobrir se o marco cumpre os requisitos. Se assim for, ele entra no veículo e diz adeus ao mundo dos vivos. Como homem, é assombroso perceber como é fácil a actriz arrancar toda a informação que deseja de alguém que não a conhece e convencer uma boa parte a entrar no veículo com ela, o que abre caminho ao pensamento  de quão má a situação seria se houvesse uma intenção criminosa real por detrás de tudo isto. Somos mesmo assim tão básicos, cavalheiros?

A segundo plano, a banda sonora de Mica Levi vai entrando e saindo de mansinho para acrescentar à atmosfera pesada com pequenos mas precisos erupções da mesma batida, sempre no ponto perfeito de volume para maximizar o efeito pretendido.  Num momento, podemos ser levados do calor da discoteca para o meio do nevoeiro branco e denso enquanto o mesmo som ligeiro mas enervante toca no horizonte. A fotografia é brilhante, quer nas cenas de captura de paisagens ou nas sequências gravadas a partir de câmaras ocultas, pois é trabalhada sempre para contribuir para o tom espectral  a lembrar “Picnic at Hanging Rock”. Mais uma vez a dicotomia dos opostos entra em cena para puxar a experiência ao máximo: o cinzento da cidade e o verde da natureza, a natureza atraente do nú feminino que invoca medo e desconforto e o calor de uma pele fria entre outros.

Under the Skin não funcionaria tão bem se todos os elementos não se encontrassem desta forma. A narrativa sofre um pouco quando o filme começa a focalizar a história, sacrificando um pouco de fluidez, mas a sinfonia de elementos raramente falha em concretizar a experiência rica que demonstra bem os 9 anos que o realizador lhe dedicou. É, verdadeiramente, uma das melhores peças de Cinema como forma de arte dos últimos anos.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.