Crítica | Silence (2016)

 

 

No nosso país a noção de História é servida desde cedo como sinónimo de grandes conquistas e descobertas, de pioneiros e de um país numa situação outrora bem melhor que se foi perdendo ao longo das eras. Durante essa passagem de testemunho entre gerações o carácter saudosista e patriótico da mesma sobressai quando pouco ou nenhum ênfase é dado ao impacto negativo que a presença portuguesa lá fora possa ter tido em povos e locais na corrida pela hegemonia do Globo. Seria difícil manter essa ideia de um passado glorioso geração após geração com um olhar igualmente detalhado sobre as atrocidades que o acompanham pelo que a sua relegação para segundo plano é necessária para manter a ilusão de uma hegemonia limpa. Levantar esse véu demasiadas vezes traria por conseguinte um raciocínio mais aprofundado sobre certas questões que poderiam pôr em causa o orgulho que essa época dourada nos faz sentir séculos depois. Nas palavras do Dr. James Wilson: “Um problema adiado é um problema negado.”

Tudo isto vai ao encontro ao mesmo tipo de perguntas que “Silence” pretende colocar no seio de contextos tão abstractos como fé, espiritualismo e religião. Nos Estados Unidos vive-se uma época próspera para filmes que se proponham a dar atenção especial a este conceitos pelo que talvez se pensou que esta seria a melhor altura para lançar o projecto que Martin Scorsese tinha em mente há décadas mas a sua performance nas bilheteiras diz-nos o contrário. Onde filmes de baixo-custo como “Heaven is For Real” e “God’s Not Dead” sucederam, uma grande produção com um dos realizadores mais conceituados dos nossos dias ao leme falhou estrondosamente ao figurar dois componentes pouco apelativos à mesma audiência: uma duração longa e uma postura mais neutra sobre o tema do que seria desejável. Agora que as redes sociais e os smartphones se tornaram mais do que estabelecidos após uma longa batalha contra a capacidade de concentração de gerações inteiras qualquer coisa que se oponha ao modelo “rápido e fácil” torna-se menos atraente para o consumidor, principalmente quando no processo se propõe a colocar em causa milhares de anos de tradição .

Falar de “fé” pode ser difícil sem ir de encontro à retórica de uma ou outra religião organizada. A mera noção da palavra, mesmo antes de se debater a sua validade num meio onde achados científicos são reconhecidos como facto numa escala quase total, é de tal forma subjectiva que mesmo entre crentes o mais ínfimo debate pode gerar reacções consideráveis. O que esperar então quando regredimos no tempo até ao século XVII e juntamos à equação duas nações em conflito ideológico prolongado? Essa é a premissa do “Silence” de Martin Scorcese que vem não só apresentar uma visão pessoal do autor sobre o assunto mas também servir como “revisão” à primeira adaptação do romance de Shūsaku Endō lançada em 1971 no Japão. O trabalho do realizador Masahiro Shinoda falhou em transmitir o grau de magnanimidade daquilo que esta história se propôs a levantar – especialmente com a inclusão de um final diferente ao do livro – tornando-a por sua vez numa narrativa mais directa onde os lados do Bem e do Mal estão desde logo bem vincados. Endo acabou por renegar o filme e foram precisos mais de 40 anos para que a sua obra tivesse direito a uma segunda vinda nas telas de Cinema.

A acção começa com os padres Garupe (Adam Driver) e Rodrigues (Andrew Garfield) a serem notificados que o seu antigo mentor, o padre Ferreira (Liam Neeson), terá renunciado a sua fé e mora agora em parte incerta do Japão. Esta notícia não cai bem com os jovens padres e ambos insistem ir procurá-lo na esperança de desmentir aquilo que classificam como um rumor maldoso. Ambos destilam um brio próprio à sua juventude mas, fora do contexto etário e religioso, a primeira impressão de ambos difere: Garupe revela-se cauteloso e reservado onde Rodrigues ostenta uma disposição mais carismática e liberal (para um sacerdote). A partir do momento em que é estabelecido o contacto com as pequenas colónias de cristãos que vão sobrevivendo em locais inóspitos sob a perseguição insistente do regime Tokugawa, a sua percepção ingénua do Mundo é posta à prova e a maquinação subjacente por detrás do conto histórico é posta em curso.

A beleza do trabalho de Scorsese reside na habilidade com que consegue lidar ao mesmo tempo com vários pontos de vista divergentes sobre o tema em mãos sem cair na esparrela de, mais tarde ou mais cedo, tomar o partido de um deles para definir a sua própria moral. Sem essa conjugação de diversidade e amplitude, “Silence” provavelmente teria a capacidade de apelar a uma porção bem maior do público mas com isso abandonaria a integridade necessária para suportar o argumento neutro que procura desenvolver. Assim como o lado jesuíta, o seu homónimo japonês goza de um elenco diverso de personagens que encarnam as diferentes perspectivas sobre o tema sem que, ao final de quase 3 horas, seja possível discernir objectivamente quem tem o direito de afirmar que está do lado certo da barreira. É óbvio que Scorsese está interessado em tudo excepto deixar qualquer tipo de resposta definitiva já que, tal como ele próprio se debateu com a sua fé dentro e fora dos seus filmes durante toda a sua carreira, o seu desejo é fazer com que o seu épico contemplativo cause o impacto necessário no espectador de forma a gerar o mesmo género de auto-descoberta.

Talvez as décadas necessárias para o projecto ter passado de sonho a realidade tenham sido uma benção considerando o produto final e as tentativas anteriores do realizador em abordar uma história centrada em espritualidade. “The Last Temptation of Christ” tem uma exploração interessante sobre o lado humano de Jesus Cristo  e “Kundun” deu-nos um dos retratos mais intimistas da luta do Dalai Lama pela sua religião e pelo seu povo mas nenhum deles está acima de uma lista de falhas que os acabam por fazer sentir incompletos no seu campo. “Silence”, por outro lado, é todo o empreendimento suportado por um trabalho soberbo de artistas e técnicos a trabalhar num patamar que geralmente é reservado para produções que parecem ter todas as prioridades excepto a capacidade de raciocínio de quem está do outro lado. Deus quis, o homem sonhou e a obra nasceu – não deixemos que ela caia no esquecimento.

 

 

 

 

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.