Crítica | Logan (2017)

 

 

O que perfaz um herói? Em plena idade de ouro de adaptações BD, onde nenhum herói parece estar acima do “super”, cada vez menos produtores se recusam a mandar a sua acha para a fogueira e as opiniões são variadas. A Disney insistiria na leveza, carisma e potencial de diversão, a Warner Brothers faria o argumento contrário a favor da soturnidade e individualismo, a Fox atiraria várias ideias à parede a procura da resposta mais rentável e as restantes entidades chorariam enquanto se ocupam a salvar o Cinema de si próprio. Estes paradigmas assentam-se na própria diversidade de tom dos livros que ao longo dos anos executaram um slalom entre estilos distintos (Ex: #1, #2, #3, etc.) que iam de encontro às sensibilidades particulares da época em que estavam inseridos, resultando nas décadas de conteúdo diverso que temos ao nosso dispor. Contudo a hegemonia Marvel/Disney neste sector cedo tornou o mercado das adaptações numa fábrica onde tudo o que entra está destinado a sair prezando o humor e a acção enquanto se debate com qualquer conceito mais maduro, o que atribuiu ao género o seu sucesso comercial quase tão rápido como uma noção previsível de monotonia que praticamente condenou toda e qualquer tentativa de colorir fora destas linhas.

É por esta razão que o ditado “Há males que vêm por bem” vê a sua razão de existir validada. Não tivessem os dois esforços anteriores em estabelecer o elemento mais carismático dos X-Men a solo falhado e não haveria qualquer razão para sequer pensar fora da caixa na altura de pensar na terceira. Na mesma linha de pensamento é preciso dar as devidas menções honrosas a “Suicide Squad” e “Deadpool” que na sua qualidade desprezível mas rentável acabaram por dar vida nova a material considerado de “risco” pelos estúdios e, por conseguinte, ajudaram a tornar a obra superior de James Mangold uma realidade.

A sua influência naquilo que é “Logan”, contudo, pára por aí. Ainda que não se acanhe de seguir algumas das convenções do género este é um projecto que faz por se afastar da cultura megalómana dos filmes que o precedem em prol de uma versão onde história e personagem ditam a lei. Olhando para a lista de possíveis influências seria estranho se tivesse evoluído de qualquer outra forma. “Children of Men”, “Old Man Logan”, “The Dark Knight Returns” e mesmo o fenómeno dos videojogos “The Last of Us” são exemplos de propriedades cujo toque se pode sentir na visão pré(?)-apocalíptica onde encontramos Logan e companhia. Há também um flirt mais que assumido com Westerns que se estende pela caracterização da personagem principal e da sua luta interior, as paisagens moribundas do novo mundo, as escolhas que figuram na paleta de cores em uso e a representação de violência. Muita violência.

A acção passa-se num futuro décadas após o último capítulo na mais-que-entrançada cronologia do X(-Men)CU onde tecnologias como a automatização da agricultura e comida geneticamente modificada foram introduzidas e contribuíram para o desaparecimento progressivo de mutantes no planeta. A era dos super-heróis é agora vista como uma relíquia do passado e o homem que outrora fora apelidado de Wolverine é um dos poucos vestígios dessa época que persiste, agora em nome próprio, mancando entre turnos de condutor de limusine e sessões de bebida no bar mais próximo para atenuar vinte tipos de dor. O peso da idade e do Passado finalmente alcançou-o.

Mais do que a retratação fiel do seu protagonista é na realização de conteúdo visceral que “Logan” realmente brilha. É preciso salientar, no entanto, que “conteúdo visceral” inclui não só todas as sequências de acção onde lâminas metálicas atravessam tudo e todos mas também aquelas onde as sequelas de toda essa acção se fazem sentir.  O que era em tempos uma acção normalíssima como o revelar das suas garras é agora um processo penoso que o faz sentir cada centímetro de metal que lhe sai do corpo, o sarar rápido de todas feridas deu lugar a um corpo cheio de cicatrizes e todos os confrontos passaram a ter um grau de risco mais acentuado. Logan é, portanto, uma sombra de si próprio inserida num contexto trágico de quem não pode libertar-se de uma existência miserável por sentido de obrigação para com quem depende ainda dele.

Laura, uma versão mais jovem e feminina do geriátrico Weapon X, entra em cena algures neste ponto da sua vida trazendo uma bagagem que virá a ser gradualmente revelada durante o decorrer da história. Aqui James Mangold começa a introduzir algum ADN de Westerns como “True Grit” ou “Shane” (este referenciado directamente várias vezes durante o filme) para ajudar a construir a ponte entre as duas gerações e garantir que o carácter de cada um seja enaltecido ao ponto de poder favorecer o próprio e a sinergia do duo. O facto de estarem ambos sozinhos no mundo serve então como o primeiro passo para atribuir à dinâmica entre um homem bicentenário e uma pré-adolescente uma fundação emocional sólida e cuidada a um nível que muito raramente se encontra neste tipo de filmes.  Lentamente o que era indiferença passa a interesse médio e daí para amizade genuína através de uma série de momentos onde testemunhamos a mecânica natural onde personagens escrita como pessoas por pessoas ganham interesse genuíno umas nas outras através da partilha experiências e conversas e não porque remataram cada frase com uma punchline. Há espaço para algum humor, sim, mas em doses curtas e espaçadas que surgem como uma forma espontânea de aligeirar a tensão acumulada pela carga dramática do filme.

Fãs da fórmula mais tradicional do género encontrarão a sua fonte de sacarina nas múltiplas cenas em Wolverine e/ou Laura deitam mãos à obra e retalham todos os que se atrevem a atravessarem-se no seu caminho. Mesmo após uns bons anos de reforma e a perda de uma boa parte da sua capacidade física o espírito animal do Wolverine ruge como nos velhos tempos e Hugh Jackman demonstra essa disputa entre o físico e o espiritual de forma exímia ao mostrar o peso por detrás de cada golpe com a sua linguagem corporal. Com os seus sprints cada vez mais curtos,  estocadas mais lentas e movimentação mais errante ele traz um sentido de urgência redobrado a cada nova sequência de combate com a sua dança exímia entre a vontade interior de descarregar toda a raiva nos adversários e a constante falha do seu corpo em corresponder ao que lhe é pedido. Por outro lado a pequena Dafne Keen no papel de Laura é uma revelação de uma magnitude que não se via desde aquilo que Chloë Grace Moretz nos trouxe em “Kickass”. A sua complexão franzina actua como uma vantagem na hora de despachar gorilas com o triplo do seu tamanho já que abre a porta a alternativas interessantes para transformar todo o colectivo numa espécie de diagrama macabro onde cada membro é um meco a abater da forma mais espectacular possível. Pensem Arya Stark com o dobro do mau feitio e pequenas Needles que brotam de todos os membros. O seu estilo energético e ágil proporciona assim um contraste agradável com as investidas mais brutas de Logan e vê-los despedaçar membros atrás de membros lado a lado é facilmente uma das experiências mais agradáveis de 2017 no Cinema até à data.

Gera-se já um burburinho sobre as possibilidades de Hugh Jackman ser um dos candidatos fortes aos prémios de melhor actor pela sua performance. As suas chances são ainda incertas (especialmente com a procissão ainda no adro) mas se há uma performance que possa seguir as pisadas do Joker de Heath Ledger no caminho para a imortalidade será esta. O seu nome ficou já sinónimo da personagem mas foram precisos 17 anos a vestir a sua pele para produzir a sua interpretação mais humana e apelativa de sempre. Oscar ou não, o actor merece o reconhecimento devido pelo grau de compromisso que demonstrou para com um papel cuja grande parte do chamariz passou ao longo dos anos a prover da sua dedicação ao mesmo.

 

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.