Crítica: Halt and Catch Fire (Temporada 1 – 2014)

Halt and Catch Fire

 

Halt and Catch Fire é uma série televisiva norte-americana, produzida e emitida pela AMC, iniciada no último defeso de Verão (2014). Um olhar para o recente passado, onde um grupo de indivíduos tenta colocar ordem no caos que é a inovação para ganhar o seu pedaço de paraíso tecnológico.

Existem dois pontos importantes de abordar antes de focar na crítica em si – primeiro, esta série chega numa altura crítica para o canal de basic cable, numa altura pós-Breaking Bad e aproximando o fim de Mad Men. O cash-cow The Walking Dead continua a liderar a vanguarda, mas já segue numa quinta temporada; sendo que a grande a aposta para a próxima época de estreia passa pelo Better Call Saul, algo que a história nos avisa quanto a spin-offs raramente funcionarem.

Em segundo lugar, este é um drama de época decorrido no início dos anos 80. Os trinta e pouco anos de diferença permitem mostrar a nascença da indústria dos computadores pessoais, algo que afectou imensamente a vida das pessoas e que me permitiu escrever estas palavras e divulgá-las para todos lerem com relativa facilidade. Portanto, aviso de uma possível imparcialidade total devido a uma afinidade que tenho pelo tema e o facto me envolver profissionalmente com a indústria.

Continuando, a narrativa leva-nos para o centro da Silicon Prairie no início da revolução dos computadores pessoais. A IBM torna-se rainha e senhora da indústria dos Personal Computers, na altura que responde à Apple. Esta época marca-se por uma forte concorrência pelo “next big thing”, numa altura onde o paradigma da computação muda da empresa para o consumidor em geral – começa-se a realmente perceber que fará sentido ter um PC em todas as “salas de estar”. Empresas como a Microsoft, Dell e a Compaq nasceram e cresceram nesta época, sendo esta história alegadamente inspirada pelas acções da última.

Sendo a IBM detentora dos direitos sobre o equipamento (em particular, sobre a BIOS), algumas empresas tentaram recriar o hardware e o software numa clean room, ou seja, num espaço fechado sem contacto ao exterior onde não poderá ocorrer plágio.

A história de Halt and Catch Fire centra-se nas acções de um par de indivíduos de uma empresa de IT que decidem criar o seu próprio clone, mostrando as dificuldades de desenvolvimento existentes na altura e fazendo um public service announcement de como se não deve desenvolver relações profissionais no local de trabalho.

Para os nerds e os geeks por aí, acho que a série irá agradar desde o início. Profissionais da área igualmente, certamente que se irão identificar e aculturar com ambiente que parece relativamente plausível para a época. Para o resto da audiência, eu sinto que será um sacrifício suportar os primeiros episódios – a narrativa começa lenta, existe uma tentativa (nem sempre sucedida) de adicionar mais dimensões às personagens e acredito que isso tenha alienado muita audiência ao programa.

Acredito pessoalmente que os mais resilientes são recompensados no decorrer na própria temporada, havendo uma progressão contínua da velocidade do desenvolvimento das personagens, da profundidade das mesmas e numa narrativa com muito mais acção que será capaz de entreter até mesmo o espectador mais leigo.

Em relação ao elenco, qualidade não lhe falta – a química é que tardou a aparecer, mostrando que faltou algo no início que no fim teve mais presença. Provavelmente está relacionado com a própria dinâmica entre personagens, onde fica um pouco evidente que uma panóplia de pessoas em constante confronto não é tão interessante como quando está numa progressão dicotómica entre sintonia e divergência.

Joe MacMillan (Lee Pace) é a personagem principal, um homem deslocado do seu ambiente e com um histórico duvidoso, que se compromete a ser tão disruptivo profissionalmente como pessoalmente. Numa personagem propositadamente pouco balanceada, prejudica-se por tentar estabelecer-se como um Don Draper (Mad Men) dos anos 80. O seu antítese, Gordon Clark (Scoot McNairy) tenta criar uma dinâmica entre o calmo amendoado com o apostador arriscado. Embora seja já bastante usada, a série consegue funcionar até certo nível – pessoalmente devido ao processo complexo de inovação tecnológica que tenta retratar.

De referir ainda a injecção de anarquia e cultura punk trazidas pela personagem Cameron Howe (Mackenzie Davis), naquilo que a própria série refere como alguém tirado da famosa publicidade de 1984 da Apple. Cheia de estereótipos da indústria que retrata, esta programadora atípica que se insere como um alien no ambiente não é uma personagem que conseguiu cativar-me continuamente ao longo da temporada. Numa situação oposta, John Bosworth (Toby Huss) encaixa como uma luva devido à aproximação faseada com o grupo, oferecendo alguns momentos de destaque ao longo dos episódios.

Uma menção honrosa para a personagem Donna Clark, interpretada de forma excelente pela Kerry Bishé – que tende a roubar as cenas em que entra. Uma excelente performance de uma actriz que foi a actriz principal da última season de Scrubs, facto que me passou ao lado inicialmente muito provavelmente devido a memória selectiva.

Em suma, a primeira temporada de Halt and Catch Fire fez o suficiente para manter a audiência, os geeks e os executivos da AMC interessados em ver uma próxima temporada. É uma história interessante, recente e extremamente pertinente para muitos – os atribulados finais dos anos 80 certamente irão avivar e entroncar esta série que pode ir bem mais longe.

Sobre o Autor

Gestor de back-office que de vez em quando lá vai atender os clientes. Profissional do deambular, com particular foco em ermos.