Crítica | Hacksaw Ridge (2016)

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Mel Gibson é um sapo duro de engolir. Se é verdade que o seu carácter tem um lado indesejável já mais que exposto e documentado, de igual forma é verdade que as suas capacidades como artista estão acima da média dos seus pares quer em frente ou por detrás da câmara. Uma abordagem à sua perda de estatuto pode por esta altura ser algo repetitivo e banal mas desde essa ocasião o seu percurso profissional – este filme incluído – apresenta uma influência sua tão forte que ignorá-la seria desprezar um ponto relevante à análise do artista e da sua obra. Nos anos após a divulgação dos seus comentários de cariz racista, sexista e tudo pelo meio Gibson foi interrompendo o seu exílio da ribalta com aparições em filmes como “Expendables 3” e o mais recente “Blood Father” onde interpretou o mesmo tipo de lobo solitário a viver à margem da lei e/ou da vida cor-de-rosa que outrora tinha sido sua, um paralelismo com a vida real que não podia ser mais óbvio. Agora na qualidade de realizador – 10 anos após o seu último esforço, “Apocalypto” – a história escolhida por Gibson para adaptar também não terá vindo ao acaso já que alguns dos temas nela incluídos vão de encontro ao seu desejo de demonstrar o seu lado mais apaziguador mantendo, ao mesmo tempo, o tipo de estrutura com que tem vindo a trabalhar com grande sucesso.

Não deve ter sido nada abaixo de surreal estar no escritório no dia em que aquele que foi em tempos uma das maiores estrelas cinematográficas do Mundo entrou pela porta pequena com a sua enorme barba grisalha pronto a apresentar a sua visão para um filme sobre um pacifista no meio do caos do maior conflito armado de sempre. Esta breve sinopse anexada a uma produção de escala pouco modesta talvez desse a supor que esta ficasse a cargo de alguém como Steven Spielberg mas à lupa percebe-se que um dos pontos vitais para conceber “Hacksaw Ridge” em 2016 de forma fiel seria um realizador com um instinto animal apurado. Esqueçamos o lado pessoal do envolvido por um momento. Na qualidade de realizador Mel Gibson construiu uma carreira a contar histórias sobre homens que se vêem numa luta desigual contra aquilo que os rodeia em nome de convicções de carácter nobre. Seja ele um independentista escocês, o profetizado rei dos judeus ou um mesoamericano tribal, o herói acaba sempre por conhecer uma quantidade desmedida de perda, dor e sacrifício que por sua vez enaltecem o seu carácter assim como o valor emocional da sua jornada. Aqui o problema poderia residir num desejo extraordinário do autor em utilizar o material em mãos para produzir uma imagem mais positiva de si próprio por associação mas nesta vertente a ética de Gibson mantém-se inabalável, focando-se no homem ao centro e no conjunto de convicções que o separa dos restantes.

Esse homem é Desmond Doss (Andrew Garfield), um americano sulista que tal como muitos homens da sua geração se vê confrontado com a entrada do seu país na Segunda Guerra Mundial no início da década de 40. Ainda que as suas crenças religiosas – estimuladas por um trauma de infância – façam com que seja moralmente inconcebível para ele exercer violência, o desejo de servir o seu país fazem com que se aliste voluntariamente sob a condição de não ser obrigado a tocar em qualquer arma. Sem surpresa essa postura acaba por se tornar num ponto de contenção com os seus companheiros e superiores hierárquicos no exército que a interpretam como uma preferência da preservação do inimigo acima à do corpo aliado. De forma semelhante a “Full Metal Jacket” a história é divida em duas grandes partes distintas em que a primeira a que acompanha Doss na América desde a infância e estabelece os perfis do protagonista e de todas as personagens de importância enquanto que a segunda é reservada para o cenário de guerra e a exploração dos mesmos.

Essa divisão, mesmo que um tanto imperfeita, arruma os elementos da narrativa de forma a que esta não tenha oportunidade de se repetir até à exaustão. A parcela dedicada à vida de Desmond na América não possui uma quota generosa de momentos fulgurantes tal como aquela que se desenrola em Okinawa não é rica em episódios de auto-descoberta. O retrato da vida civil do protagonista numa pequena cidade não difere muito da receita usual – honrado, vida humilde, membro querido da comunidade, recém-casado – com uma pitada extra de devoção religiosa que actua como pilar para a sua base moral e, embora não haja nenhuma peça específica que não encaixe neste puzzle, é o trabalho de Andrew Garfield e Hugo Weaving que eleva toda esta secção para um patamar superior. Ao contrário da presença inspiradora de Desmond, Tom Doss (Weaving) é um ser humano profundamente quebrado pela experiência de guerra que vai oscilando entre figura paternal decente e uma tempestade de raiva alimentada por frustração, algo que o actor encarna de forma tão crua que é como se nunca tivesse conhecido outra realidade. O cuidado em humanizar uma personagem que poderia noutra instância ter sido um mero distribuidor de calão e violência a fim de estabelecer um atalho emocional entre o protagonista e o público acaba por surtir o mesmo efeito sem que todo o elenco secundário pareça negligenciado ao mesmo tempo que adiciona contexto àquilo que espera Doss do outro lado do planeta mas que o seu espírito patriótico e ingénuo escolhe ignorar.

À beira do titular Hacksaw Ridge, os problemas que encontrou no seu país natal mal se qualificam como uma breve introdução ao Inferno na Terra. Até este momento a narrativa havia-se mantido razoavelmente neutra em relação às suas alas religiosa e política mas a partir do momento que o cenário passa para a ilha de Okinawa esta estabelece-se desde cedo como uma obra anti-guerra. Num ano onde o mesmo sentimento foi partilhado em títulos como “Anthropoid”, “Billy Lynn’s Long Halftime Walk”, “The Siege of Jadotville” e “Cartas da Guerra”, Mel Gibson destaca-se pela sua visão particularmente aterradora de um conflito armado sem qualquer envolvimento exterior para além dos dois corpos de combate que lutam por um trecho de terra. A tensão é remexida com uma aura de pavor que paira sobre as forças americanas, introduzida gradualmente pela visão de camiões a abarrotar de soldados em choque e dos corpos dos seus companheiros e pelo burburinho entre os sobreviventes, num crescendo que não pára até ao momento em que a companhia de Doss é recebida pelas forças japonesas. A acção é brutal no sentido mais sádico da palavra com soldados a serem despedaçados e caírem aos magotes sem grande cerimónia, sendo o som dos seus gritos de agonia a subir acima do das trocas de munições um dos pormenores que dá a estas sequências um toque igualmente fascinante e aterrador. A sua comparação mais directa seria famosa cena de abertura de “Saving Private Ryan” nas praias da Normandia mas mesmo essa icónica representação de terror fica aquém da leitura da guerra pelos olhos de um pacifista graças a um trabalho visual e sonoro de excelência.

No meio da carnificina “Hacksaw Ridge” encontra a esperança onde outros buscariam fetichismo. O seu tratamento de como um homem conseguiu salvar dezenas no meio de um campo de batalha não escapa totalmente ao sensacionalismo que costuma marcar presença neste tipo de história mas a sua importância nunca atinge um nível que consiga igualar o valor da expressão de perseverança que alimenta o seu motor. Apesar de o ter feito de forma inconvencional, Mel Gibson lembra-nos o que é ter um filme de orçamento generoso na época festiva que aborda temas tão sensíveis no seu país de origem sem os tiques de uma peça de propaganda ou entrenimento baratos. Por muito difícil que seja admiti-lo este é o tipo de talento de que Hollywood precisa para se manter relevante no panorama artístico.

 

 

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.