Crítica: Guardians of the Galaxy (2014)

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No que toca a riscos em relação à Marvel e ao seu Universo Cinematográfico, o filme Guardians of the Galaxy foi provavelmente a sua aposta mais arriscada desde o começo da torrente de projectos conduzidos por super-heróis com Iron Man. Juntando uma das suas propriedades mais desconhecidas até à data com um protagonista razoavelmente desconhecido e um realizador/guionista ainda sem provas dadas no mundo dos blockbusters colocou muitas mais incertezas no quadro do que os fãs deste género de filmes costumam estar confortáveis. Ainda assim, os trailers chegaram e o divertido, aventuroso tom que a película parecia estar a alcançar conseguiu acalmar algumas das mentes mais duvidosas.

Após o seu rapto/captura quando era muito jovem, a educação que Peter Quill recebe a bordo de uma nave cheia de mercenários é o treino perfeito para a sua ascensão como bandido espacial. É numa das suas incursões de salteamento que dá de caras com o artefacto que mudará a sua vida para sempre e o juntará a outros quatro criminosos com muito pouco em comum numa viagem turbulenta pelo espaço. Para ajudar a digerir toda esta maluqueira, os nossos ouvidos são brindados com o poder intemporal de alguns dos maiores êxitos pop e rock dos anos 70.

Em termos de tom, toda a informação que foi divulgada antes do lançamento do filme estava 100% correcta: Guardians of the Galaxy dispara primeiro e deixa as perguntas para depois, uma maneira pensada e construída para fazer a audiência rir a cada passo da demanda. Claramente influenciado pelas ditas space operas como Star Wars ou Flash Gordon, é clara a tentativa de estabelecer o equilíbrio de espectáculo entre o campo visual e o escrito para poder apelar ao máximo aos prós do género e do autor. No papel, tinha tudo para ser uma combinação artística vencedora.

No entanto, o que nos é servido é uma versão mais descuidada e frágil daquilo que era esperado. A salada de fruta de elementos deixa um sabor agradável com a primeira dentada mas o sentimento de diversão estouvada torna-se repetitivo e rapidamente se transforma em algo insípido. Somos brindados com a inclusão de inúmeras personagens, facções e mundos através das galáxias mas, com a excepção de alguns exemplos excepcionais, nada parece ser pensado para além do ponto de inclusão apenas pelo facto de ser pitoresco e de adicionar ao número total de informação visual a reter. A caracterização tanto para heróis como vilões deixa bastante a desejar, as personagens secundárias são estéreis e mesmo a promessa de humor nem sempre é cumprida.

O principal culpado é o insosso, sem chama , genérico vilão Ronan the Accuser, outro peão de Thanos que, tal como Loki com os Avengers , encontra uma equipa de heróis no seu caminho. Ronan tem a sua própria história e motivos  mas estes são tão sensaborões como os de praticamente todos os vilões encontrados nos filmes Marvel. Se pelo menos este tivesse o charme e espevitez de Loki poderia ter sido interessante ver o contraste do mais sério lado do mal com o lado mais leve e colorido dos Guardiões mas não é o que se verifica aqui. Uma cena com vilões nela é onde a diversão do filme vai para morrer.

Os Guardiões fogem um pouco a esta tendência de construção paupérrima mas mesmo assim o grupo e a sua dinânica apresenta os seus problemas. Como seria de esperar, o Peter Quill/Star-Lord de Chris Pratt é o maior ponto de foco das luzes da ribalta e o actor mostra-se mais que capaz de abraçar o papel deste homem-rapaz carismático, convencido, mulherengo e um pouco idiota. A sua presença incadescente é inegavelmente aliciante e, para o bom e para o mau, é nesta performance que o filme encontra um dos seus maiores pontos de consistência. Gamora é a filha adoptiva predilecta do vilão Thanos mas ao longo do filme ela parece apenas flutuar de situação em situação onde precisa da ajuda de um ou mais membros do grupo para prevalecer, o que vai negando essa noção a pouco e pouco. A grande excepção ocorre quando a história dita que ela deve enfrentar a sua rival, outra personagem feminina, num embate que tem tanto fulgor posto à volta dele ao longo do filme como uma vulgar luta de rua entre dois indíviduos embriagados à porta de um bar. O filme apoia toda a tensão entre as duas num castelo de cartas de chavões construído à pressa que é suposto proporcionar um catalisador emocional suficientemente grande para incendiar corações na hora do embate mas que no final de contas é incapaz de produzir a menor das brasas. Ainda assim, a performance sólida da actriz Zoë Saldaña permite que a sua personagem escape um pouco à banalidade, algo que Dave Bautista não pode dizer que aconteça com o seu fisicamente portentoso Drax, um brutamontes com tendência para tomar más decisões que as audiências ou irão adorar pelas suas tropelias de trapalhão ou odiar pela obtusidade integral da personagem.

Finalmente, temos ainda a dupla de alívio cómico composto por Rocket, um guaxinim geneticamente modificado que adora a sua quota de armas e acessórios, e o seu oposto polar Groot, a versão pateta de um Ent. É muito díficil criticar esta parelha pois ambos os membros tendem a ser encantadores a tempo inteiro e tanto Vin Diesel como Bradley Cooper fazem um trabalho excelente em transformar duas criações computadorizadas em criaturas credivelmente vivas. No entanto, a história encarrega-se de arruinar parte dessa magia ao incluir, não só para eles mas para todo o grupo,  um elemento de tragédia que não é tão bem pensado e produzido como a sua contraparte mais leve e humorística. Sem excepção, todas as personagens têm a perda de familiares e/ou a falta do sentimento de ambientação como a peça mais melancólia da sua pessoa e, consequentemente, a trama usa  esses panos de fundo em comum para ligar os membros do grupo entre si e à audiência. Uma vertente de Drama é sempre bem-vinda em qualquer conto mas apenas se for gerida com maturidade suficiente para ser algo que enriqueça a personagem, que é o que não acontece aqui. Desta forma, todo o processo apenas denota preguiça e descuido.

No geral, John Carter fez um melhor trabalho em trazer o género de volta e tudo o que teve em troca foi desdém. Guardians of the Galaxy é um produto desleixado  em comparação e no entanto quebrou recordes de bilheteira e parece estar a ocupar um lugar no coração tanto de críticos como de espectadores. A diferença que 2 anos e uma equipa de marketing fazem.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.

  • Diogo Costa

    Vi o filme e para mim é um clássico do sci-fi moderno. Já ia com expectativas elevadas, mas mesmo assim ainda fiquei surpreendido e adorei, talvez o melhor filme da Marvel. Ah, e aquela banda sonora. Do you like pina coladas?