Crítica | Ghostbusters (2016)

ghostbusters_header copy

 

É sempre difícil vender um remake. A mera perspectiva de que no futuro próximo existirá uma nova versão de uma história que já havia deixado a sua marca anos ou mesmo décadas antes é barra em despertar vários tipos diferentes de negativismo. Mesmo estando as companhias a apostar na nostalgia para poderem retirar algum lucro de uma roda que não têm de inventar é também ela que faz com que o trajecto até à data em que o público pode apreciar o novo ponto de vista seja especialmente íngreme. Pessoas não são fãs da ideia de terem de pagar pelo privilégio de verem a “mesma” coisa pela segunda vez mas odeiam ainda mais a noção de algo novo a interferir com a memória feliz à qual aquela propriedade está associada. Tendo em conta a procissão de tentativas falhadas de que há memória não é surpreendente que essa seja a primeira reacção ao anúncio de mais uma, pelo que talvez fosse inteligente da parte do estúdio responsável atiçar as chamas da discórdia o menos possível até ao momento em que o filme pudesse falar por si próprio (e as notas começassem a cair). A equipa criativa responsável pelo novo “Ghostbusters” pensou de maneira diferente, tomando a posição extremista de uma minoria como pretexto que por si não chegava para justificar o tamanho das ondas levantadas mas que torna a falta de conteúdo de relevo no resultado final extra-ultrajante.

Com o falecimento de Harold Ramis em 2014 a forma mais correcta de avançar com a franquia passaria pela necessidade de ter uma nova equipa a tomar o volante do Ecto-1, deixando a memória dos quatro membros originais nos anos 80 ou com uma passagem do testemunho à la “The Force Awakens” onde o elenco original suportaria a introdução do novo. O peso do nome “Ghostbusters” é o que torna essa operação especialmente delicada. Não obstante o seu estatuto lendário a sua capacidade para entreter está inerentemente ligada à satisfação obtida a partir da química entre os membros da equipa de caça-fantasmas cuja fluidez e naturalidade elevaria qualquer cenário onde fosse inserida. O que carregou “Ghostbusters” além-fronteiras e através de gerações não foram o Ecto-1 e o Slimer mas sim a dinâmica de amizade que se sente nas interações entre Bill Murray, Dan Aykroyd e Harold Ramis (e que poderia ter sido extendida a Winston caso Eddie Murphy tivesse aceite a versão mais composta do papel). Tal como o Tony Stark do MCU é apenas uma versão de Robert Downey Jr. com uma barba mais trabalhada também os nomes ‘Venkman’, ‘Stantz’ e ‘Spengler’ acabam por ser meros pseudónimos dos homens que os interpretam no ecrã já que há tão pouco de cosmético na suas performances que o próprio termo parece incorrecto neste contexto. Para assegurar o sucesso de uma nova variante a presença do mesmo tipo de faísca no seio da nova equipa seria fulcral.

Ter um elenco repleto de mulheres seria, em princípio, um ponto a favor pois permitiria conjugar a realidade do século XXI com uma perspectiva feminina que estabeleceria um paralelo com a masculina do original, ajudando a validar assim a existência do remake.  Contudo as escolhas tomadas transformam a equipa de caça-fantasmas numa paródia de si própria ao mesmo tempo que pintam um retrato condescendente do sexo feminino no seu todo, tudo graças à visão demagoga de um realizador/guionista que parece confundir admiração e respeito pelas mulheres com o ódio que nutre pelos bullies que atraiu no ensino secundário – Paul Feig. Ao contrário do original onde cada personagem principal tinha honras de desenvolvimento de uma dita personalidade própria que tornava cada um real e distinguível dos outros três, as “Ghostbusters” de Feig – chamemos-lhes “Feigbusters” para efeitos de distinção – contam apenas com os mais corriqueiros estereótipos na sua caracterização mesmo quando o desejo de evocar os quatro exterminadores originais é bastante óbvio. O caso mais flagrante é o de Jillian Holtzmann, a cientista interpretada por Kate McKinnon de forma tão exagerada e cliché que faria Emmet Brown corar de vergonha alheia e que encapsula numa só personagem todos os problemas da produção na sua abordagem ao material.

Feig partiu com a ideia de fazer deste filme um negativo do original a fim de apelar a uma nova geração com outra mentalidade mas em vez de o fazer sem descurar certos pormenores narrativos intemporais optou por um giro quase completo de 180º. No seu âmago, “Ghostbusters” é a história básica e simples de 4 falhados que esbarram com a descoberta científica do século que os força a combater contra uma força paranormal tendo apenas os seus conhecimentos técnicos como recurso. São tipos banais, solitários, a caminhar para a meia-idade, sem nenhum grande feito ou obra ligados ao seu nome e que contam entre si com uma série de qualidades pouco atraentes. Contudo não é difícil apegar-nos a eles de qualquer forma pois nada é mais relacionável do que ver o espírito audaz do colarinho azul comum superar essas lacunas e, com essa evolução, conseguir ultrapassar os obstáculos no seu caminho. A presença de fantasmas é apenas uma desculpa para se testemunhar esse mecanismo clássico em acção e alimentar algum do humor.

Quando a nova equipa interage o sentimento que emana da tela está longe de ter o mesmo impacto dada a falta dessa autenticidade nas suas membras. Patty (Leslie Jones) e Erin (Kristen Wiig) são as que mais se destacam pela positiva mas quando parece que as suas personalidades vão finalmente estabilizar num certo nível de normalidade algo acontece que as leva de novo para o território de “caricatura”. Tanto como cientistas ou como pessoas todas as suas atitudes trabalham em prol da extracção forçada de risos, completamente alheias a contexto ou à distinção dos elementos em cena, que entopem desde cedo a acção com linhas de diálogo e atitudes que dariam a estas pessoas uma reputação esmagadoramente desfavorável no mundo real. Todavia neste são representadas como heroínas pois são colocadas num meio onde todas as outras pessoas existem meramente para fazer com que a sua ineptidão pareça o menor de todos os males. Esta é a maneira de Feig prestar tributo ao sexo feminino: colmatar um rol de papéis principais preguiçoso e desinteressante com um de papéis secundários ainda pior. Em 2016 o “feminismo” de vanguarda faz-se ao som de piadas sobre flatulências vaginais.

Na mesma veia condescendente há uma clara aversão (repúdio, até) dos autores em mostrar a sua equipa numa posição em que esta possa exibir medo, dúvida, fraqueza ou qualquer outra demonstração de humanidade que possa sequer implicar que estas senhoras não sejam uma força a temer.O que outrora seriam momentos mais sérios usados para intervalar a comédia com algum tipo de desenvolvimento ou mudança de tom são agora oportunidades extra para massacrar a audiência com o mesmo humor insípido agora misturado com uma variante light da emoção que o momento pede. Chama-se a isto a “Marvelificação” do Cinema, cortesia do sucesso dos filmes de super-heróis e do seu nihilismo do Secundário. Sendo esta uma história com uma espinha dorsal tão feminina é irónico que seja Chris Hemsworth a conseguir os mais nítidos e credíveis (mas breves) rasgos de humor efectivo com o seu papel de secretário pateta que atrai com o seu bom aspecto físico mas que repele com a sua ginástica mental digna de um invertebrado. A razão pela qual esta personagem funciona quando funciona é porque é um daqueles casos onde a imagem pretendida é tão simples e directa que a sua honestidade não se perde na viagem entre o papel e a performance, ao contrário dos papéis principais que são escritos como novela mas dirigidos e interpretados com a convicção de quem trabalha com Shakespeare.

O filme também não perde a oportunidade em abordar a polémica à volta do seu lançamento ao fazer da luta das “Feigbusters” uma que se divide entre as manifestações do paranormal e as do patriarcalismo, unindo-as de forma densa em algo que não funciona quer como comentário social ou narrativa envolvente. A cereja no topo do bolo desse raciocínio é a decisão de tornar o icónico logotipo da franquia no grande inimigo das “Feigbusters” – marcando mais uma batida “emprestada” do original – e de o fazer tombar com um portentoso tiro nas virilhas, ideia essa que tanta confiança deu ao estúdio que acabou por ser revelada num dos trailersNoutro filme algo tão crasso poderia ser utilizado – se é que de todo – para demonstrar que o lado executivo/artístico do debate poderia ser mais adulto que uma fracção reduzida de cibernautas com tempo a mais e fazer todo o fiasco produzir algo positivo para variar. Mas este não é esse filme. Este é uma birra cinematográfica que começou como um pretexto reles para fazer dinheiro e evoluiu lentamente para o pretexto reles de comentário social que chegou às salas. Ainda assim esta parada de defeitos não deve ser usada para dar força ao argumento de que mulheres e Cinema não combinam já que a culpa de uma boa parte deles recai em vários homens e seria preciso bem mais do que uma equipa composta pelos Kevin Harts, Seth Rogens, Jonah Hills e Channing Tatums desta vida (ou da outra) para os ultrapassar. O detalhe mais preocupante é que, 32 anos após o seu lançamento, a versão original não é aquela que parece estar mais desligada daquilo a que chamamos zeitgeist.

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.