Crítica | Ghost in the Shell (2017)

 

 

Uma adaptação cinematográfica live-action de Anime/Manga é uma das poucas coisas que conseguiria obter à priori uma taxa de aprovação mais baixa do que a presença de Donald Trump num restaurante vegetariano em Damasco. Muito como as malogradas tentativas de adaptar videojogos ao grande ecrã, raras foram as ocasiões em que uma propriedade deste universo de animação/banda desenhada japonesa teve honras de representação digna na sua passagem para o mundo real. Tal como o que acabaria por assombrar as adaptações BD pós-“Batman Forever” por uns bons anos, vivemos num clima onde o material é julgado no seu todo pela sua veia mais cómica e infantil, o que desde logo o torna mais indesejável aos olhos do grande público e, por conseguinte, aos das grandes produtoras com acesso ao orçamento para lhes fazer justiça. Se adicionarmos a isso uma barreira linguística e o preconceito bem presente contra a aliança entre “conteúdo adulto” e “animação”, a probabilidade de uma equipa de profissionais de topo se reunir para tornar esta ficção mais real torna-se então mínima. Todavia é também verdade que os gostos mainstream mudaram imenso na última década e no mesmo ambiente onde super-heróis e cultura popular se tornaram quase sinónimos há agora espaço para outros nichos de entretenimento brilharem.

“Ghost in the Shell” é uma escolha interessante para liderar essa investida pois traz tantos prós como contras para a mesa. O original carrega consigo um estatuto elevado de culto desde o seu lançamento em 1995 quando se assumiu como um pequeno mas marcante distintivo no peito da ficção científica de onde se inspirou (“Blade Runner”) e acabou por inspirar (“The Matrix”).  Se considerarmos que apenas um desses foi um sucesso com a crítica e a bilheteira aquando do seu lançamento e que a estrutura, atmosfera e tom de “Ghost in the Shell” tendem nessa exacta mesma direcção deparamo-nos com aquele que é o problema principal do ponto de vista de um investidor: esta não é uma propriedade comercial. Ainda que o sucesso de “The Matrix” tenha disparado de forma admirável fê-lo enquanto filme de acção com algum subtexto filosófico enquanto o seu “antecessor” primava por ser um filme mais meditativo com poucas (mas boas) cenas de acção. Assim sendo seria altamente improvável que uma produção com um orçamento estimado de 110 milhões de dólares optasse pela via mais arriscada onde 80% do filme seria composto por cenas onde pessoas se debatem com uma questão superior. Não com tanto em jogo.

Outra barreira a transpor seria a de tornar a propriedade especialmente aliciante a um público mais global (e decididamente menos japonês). No passado o Ocidente tentou a sua sorte com “Godzilla” mas no processo uma história com ligações profundas ao Japão e à sua experiência com os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki resultou em vários bons exemplos sobre como desenvolver um blockbuster demasiado vazio para funcionar. Ainda que “Ghost in the Shell” não possua esse tipo de enraizamento num país ou povo específicos é inegável que a sua influência maior em termos de cultura, tecnologia gastronomia, arquitectura entre outros são países da Ásia Oriental como a China e o Japão. O espaço de manobra era, portanto, curto mas viável. Nesta instância ficou decidido que o cenário icónico do original serviria como base para o novo mas numa decisão arrojada (ainda que plausível) de marketing o papel principal da major Motoko Kusanagi foi atribuído a Scarlett Johansson, a estrela cujo nome actua como um lembrete horripilante à sua ancestralidade não-asiática.

A atenção negativa de que a produção foi alvo a partir daí (sem surpresa, não a partir da Ásia pela maior parte) acabou por dar origem a uma luta de tracção fascinante entre um público que não entendia a mensagem por trás do filme de 95 e um bando de executivos que não sabia como vender o próprio produto. Por muito que possa ser apontado a Hollywood em termos de insensibilidade racial este é um daqueles exemplos onde a raça (ou mesmo o sexo) do protagonista é um ponto que pode ser tornado irrelevante com o tratamento certo propriedade já que toda a razão da sua existência é mesmo essa: desafiar as noções de corpo (ou shell), alma (ou ghost) e até que ponto ambas são mutualmente exclusivas. O primeiro sinal de que esta adaptação talvez não fosse a mais fiel foi quando se tornou aparente que a escolha de Scarlett Johansson tinha sido puramente comercial, alheia a qualquer tentativa de adicionar algo novo ao que tinha sido estabelecido há 20 anos atrás. Mais um caso no meio de muitos.

De sua parte Johansson também pouco traz para o papel da militar tornada cyborg que lidera uma equipa de contraterrorismo cibernético. Motoko é um enigma, uma alma perdida cuja abilidade para despachar criminosos via um arsenal variado de combate é secundária para a viagem emocional que a sua condição a faz tomar. Johansson interpreta o papel como se todo esse peso fosse uma mera inconveniência temporária como quem acabou de ter uma má semana de trabalho. Entre meios sorrisos e uma constante expressão confusa a protagonista divaga cena entre cena onde o enredo original dá lugar a um outro completamente banal sobre uma corporação corrupta que, ao mesmo tempo, salvaguarda pequenas referências aos filmes e séries animadas da franquia para lembrar aos seus fãs do material bem melhor que podiam estar a ver naquele momento. Todavia a culpa não pode ser colocada totalmente nos ombros da protagonista já que num elenco onde figuram nomes como Juliette Binoche, Takeshi Kitano e Michael Pitt não há nenhuma performance que se distinga do resto de uma matilha onde todos parecem preferir estar em qualquer lado que não seja aquele cenário a dizer qualquer coisa que não seja aquela deixa.

A partir daí poderia-se apontar o dedo a Rupert Sanders, que regressa à cadeira de realizador pela seguda vez após ter usado “Snow White and The Huntsman” como uma desculpa para namorar com Kristen Stewart, ou Avi Arad, o produtor que parece adorar tudo sobre as propriedades que produz excepto tudo o que as torna boas, mas a realidade é que “Ghost in the Shell” nunca teve uma oportunidade. Tal como aconteceu com “Dragon Ball: Evolution” muitos viram o potencial do material fazer dinheiro mas nenhum entendeu o porquê desse potencial existir. O projecto atravessou um ciclo de desenvolvimento penoso enquanto alguém ou um grupo de alguéns desenvolveu várias versões de um guião até atingir aquela que deixou a brigada do capital mais descansada. Pessoas foram contractadas e o resultado é um filme que será esquecido antes do final do ano quando tinha o potencial para ser lembrado durante décadas. As consequências? “Anime não vende, é um nicho, é para nerds sebosos e crianças…”. Até ao dia em que não for.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.