Crítica: Expendables 3 (2014)

e3_header copy

 

 

Contra tudo e contra todos, Sylvester Stallone e companhia sobrevivem mais um dia ao inferno dos campos de batalha para nos trazerem a terceira aventura dos Expendables, o grupo de mercenários encabeçado por velhas guardas do Cinema de Acção. Mesmo com a moderação imposta pela classificação M/12 (os dois filmes anteriores receberam a classificação mais rigorosa de M/16), os fãs da saga não devem temer a extinção total dos elementos que os fizeram gostar das anteriores entradas. Embora os tiros pareçam não provocar feridas e os golpes surjam um pouco mais escondidos, a acção continua a estar bem presente e a ser o principal cartão de visita.

Como já é habitual com cada nova entrada no franchise, o baú de estrelas foi mais uma vez aberto e desta vez os escolhidos foram Harrison Ford, Mel Gibson, Wesley Snipes, Kelsey Grammer e Antonio Banderas, que assim se juntam ao já extenso rol de veteranos e principiantes presentes no poster. Se sempre quiserem ver personagens como Han Solo, Mad Max e Desperado numa troca de galhardetes bem acesa, esta será a representação mais precisa que irão ter desse sonho. Numa janela de 100 meticulosamente medidos minutos, a fórmula a pôr em prática é simples: entrar, destruir e sair com o maior rácio de explosões, disparos, sangue e one-liners possíveis por minuto de modo a produzir a maior demonstração de pornografia bélica possível. Um estrondoso canto do cisne para Stallone, Schwarzenegger, Lundgren e companhia que parece querer alongar-se por mais uns tempos.

Mas no final de contas, o que é que estas novas adições vêm alterar? Na verdade, muito pouco. Olhando objectivamente para cada um dos três filmes nota-se que este franchise sempre se manteve bastante uniforme desde o início, para o extâse de uns e os suspiros de indiferença de outros. Sendo ele o líder da equipa dentro do ecrã e fora dele, as culpas ou o louvor geralmente costumam encontrar o seu caminho até Sylvester Stallone. O velho Sly nunca foi um realizador digno de grande nota, mesmo nos seus tempos áureos, mas mesmo depois de este ter deixado o cargo de realizador após o primeiro filme o nome Expendables não passou a estar associado a uma melhor experiência, provando que direcção ou falta dela não é propriamente a principal suspeita. No entanto, é da mente dele que parte cada nova história e guião e aí sim se encontram montanhas de provas incriminatórias contra a falta de qualidade.

Por esta altura seria de esperar que nos preocupássemos mais em relação a Barney Ross e ao seu bando de Expendables sempre que saem numa nova missão. O texto parece acreditar no mesmo, pois este é o ponto onde a história atinge o seu ponto mais melancólico e meditativo de sempre. Com essa expressão quero dizer que os habituais interlúdios entre cenas de acção com um bando de homens em amena cavaqueira e a beber o seu jarro de cerveja como que a atestar à sua testosterona foram agora substituídas por cenas com um bando de homens a beber o seu jarro de cerveja em amena contemplação sobre o peso da idade e as consequências que o ofício de mercenário pode trazer. Ignorando o facto que estas questões surgem com umas décadas de atraso para alguns membros, esta seria uma boa forma de fechar o franchise se o nível de cuidado que a ideia parece evocar estivesse sequer no mesmo quadrante daquele que é aplicado ao guião. Entre a rivalidade do grupo com o vilão Conrad Stonebanks, a inclusão de Dr. Death e dos novos membros da unidade ou apenas a forma como a trama evolui, é gritantemente óbvia quão pequena foi a quantidade de tempo dispendida para passar estes elementos da cabeça para a página.

O problema-núcleo é o mesmo que se estende desde o primeiro filme lançado em 2010: a falta de capacidade de reconhecer a marca exacta entre a seriedade e o exagero que tornou filmes como Commando ou Rocky IV como verdadeiras odes à diversão fácil que conseguiam o feito espantoso não ser demasiado condescendente para com o espectador. Este terceiro capítulo é apenas uma terceira ofensa numa lista de obras que fazem exactamente o contrário, alimentando várias vezes a mesma piada ao público e ficando à espera de uma resposta que não seja a total incredulidade de que tal momento conseguiu chegar às salas de Cinema sem que alguém pusesse o pé no travão e exigisse o despedimento de alguém na hora. Vendo as coisas pelo lado positivo, também não existe aqui qualquer instância de Chuck Norris a surgir do meio do fumo para contar uma das clássicas piadas com o seu nome portanto não podemos apelidar este guião como uma falha total e isso ninguém lhe tira.

Consta-se agora que o próximo passo será aplicar este mesmo conceito e aplicá-lo a uma equipa totalmente feminina denominada Expendabelles. Zeitgeist, feminismo e nomes horríveis à parte, será mesmo este o tipo de franchise que mulheres irão querer ver e, mais pungente ainda, querer que as represente em formato cinematográfico? O papel de Ronda Rousey, lutadora de profissão, acaba por servir como aperitivo para essa experiência e como actriz ela acaba por cumprir, pelo menos na porção mais física do papel onde o o guião vê o seu trabalho de arruinar toda e qualquer cena mais dificultado pela geral falta de diálogo. Com outra equipa e com outro outro ponto de vista é plausível esperar que uma nova trilogia encabeçada por Linda Hamilton e/ou Sigourney Weaver como chefes de uma unidade composta por caras como a mencionada Rousey, Gina Carano, Jessica Biel ou Katee Sackhoff possa ser um projecto interessante. É usual ouvir o lado feminino responder à ineficácia masculina com a afirmação que uma mulher faria sempre melhor quando dentro de qualquer hipotética situação. Senhoras, a hora para passar das palavras à Acção não podia ser mais tempestiva.

Enquanto esperamos por essa contraparte, Hollywood serve-nos o equivalente cinematográfico de uma lata de Red Bull, onde uma tirada resulta no meio de 50 e as outras 49 nos fazem matutar em todas as outras coisas em que podíamos ter investido o dinheiro do bilhete. Mesmo assim uma porção de taurina numa lata tem a decência de ter uma duração mais curta e o gosto que deixa não é tão amargo.

 

 

 

 

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.