Crítica: Bridge of Spies (2015)

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De todos os conflictos armados que contaram com a presença dos Estados Unidos da América, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria são aqueles que mais atenção recebem por parte do mundo Ocidental – leia-se “O lado dos bons” – por razões que ultrapassam a sua grande escala. Ao contrário de outros casos como a Guerra do Vietname (cujo desenlace tende a permanecer omitido nas grandes produções por razões óbvias), as vitórias asseguradas pelo Oeste que são imortalizadas em fita e bits ano após ano são um lembrete constante de quem um dia tomou parte na modesta tarefa de salvar o Mundo da tirania, ignorância e total aniquilação nuclear. São exercícios de ego aos quais mesmo autores tão conceituados como Steven Spielberg não estão imunes. O realizador não é estranho à modulação do material de forma a que este provoque uma resposta emocional forte e títulos como “Empire of the Sun”, “Saving Private Ryan” e “Schindler’s List” – diferentes perspectivas sobre o mesmo evento – são exemplos disso mesmo. Quando interpelado sobre o épico de 1993 o próprio Stanley Kubrick respondeu que este não era sobre o Holocausto mas sim uma história de sucesso já que exacerbava a sobrevivência de 600 pessoas acima do extermínio de 6 milhões, uma declaração polarizadora mas certamente não infundada. Contudo, é também difícil estereotipar as escolhas do realizador como “lamechas” quando mesmo os seus trabalhos mais sensacionalistas incluem, em regra geral, momentos bem genuínos.

“Bridge of Spies” não é esse tipo de filme. É algo mesquinho e desonesto, uma competição constante entre os dois para encontrar o defeito-mor que comanda aquilo que é, no seu âmago, uma flagrante mensagem pró-América com pouco ou nenhum intuito de transmitir qualquer informação que possa indiciar o contrário. Aquilo que foi apresentado como a história de um par de homens à mercê do clima instável entre duas superpotências é na verdade uma ferramenta que espelha o auge da tensão da Guerra Fria com a noção de terrorismo dos nosso dias de forma a ajudar a sua propaganda a descer pelas nossas gargantas. Ninguém está realmente interessado em contar a história do espião soviético, do piloto americano ou do povo alemão: esta é uma ode aos trabalhos do tio Sam, aqui personificado no actor mais americano desde James Stewart a interpretar uma figura-fetiche da nossa Sociedade (e do realizador): o pai de família com um coração de ouro. Para tornar toda a experiência ainda mais bizarra o guião conta com a assinatura dos irmãos Coen, os mesmos que há pouco tempo troçaram de toda esta paranóia (e por associação do nosso próprio extremismo) no contexto do século XXI em “Burn After Reading” e que celebraram o lado bom do seu país com um olhar bem mais objectivo ao som de “Inside Llewyn Davis”. Anos depois aquela que devia ser a crónica audiovisual isenta sintetizada por três dos maiores nomes da indústria resultou afinal um pedaço de carvão extraído do mesmo veio de “Triump of the Will”, agora numa versão pró-Aliados.

Entre todas as agravantes a que mais sobressai é aquela que engloba não só a presença de um favoritismo narrativo claro mas também a total falta de subtileza com que este é introduzido, quase como que se a arrogância do sujeito retratado se manifestasse na vida real sem qualquer consideração pela capacidade de pensamento crítico da audiência. Ao longo da película membros de todas as nações representadas acabam, mais tarde ou mais cedo, por se expressar na sua língua materna mas o significado dessas deixas é deixado apenas para aqueles que falam essas línguas já que – por ordem expressa do autor – estas não são traduzidas. Outro exemplo onde a tentativa de estabelecer um contraste não poderia ser mais óbvia mostra um prisioneiro americano a ser acordado à força por agentes comunistas e submitido a tortura para obtenção de informação enquanto o seu homólogo soviético é acordado gentilmente pelos seus carcereiros e assim é guiado para a sala de interrogações onde as sessões correm cordialmente. Por outro lado, o tumulto causado por um americano para o enforcamento de um homem que acabou de receber uma pena mais leve é prontamente afogado por (mais) um discurso apaixonado por parte do James Donovan de Tom Hanks sobre a virtude da lei, da constituição e/ou sistema judicial americano. Esta inadequabilidade em ser imparcial faz lembrar “Band of Brothers” – outra produção Hanks/Spielberg – onde mesmo após várias horas de confronto contra os horrores da máquina de guerra nazi foi dada à nação alemã a cortesia de ser lembrada como algo mais que um ninho de monstros. Já esta “sequela” serve apenas como lembrete de quão fantástica esta parelha já conseguiu ser.

À frente deste navio carregado de mísseis com destino a Cuba o supracitado Tom Hanks cumpre no papel principal mas a sua performance não se estende muito mais para além daquilo que as falhas do guião permitem. A sua função como porta-voz de uma mensagem ao invés de uma como condutor de uma história – a sua história – torna-se óbvia desde cedo, o que mitiga o interesse na figura que vai aparecer na maioria das cenas e com a qual é suposto termos uma ligação. No entanto esse problema não é exclusivo a um elemento. Actores de talento considerável como Amy Ryan e Mark Rylance são sujeitos a uma atenção diminuída dentro da história pois tal como acontece com Tom Hanks não há o interesse de evoluir as personagens para além de arquétipos como “A dona de casa” ou “O espião estóico” que aparecem e desaparecem de cena a bel-prazer da trama. Há também uma tonalidade desigual que empesta o desenvolvimento natural das personagens ao fazê-las dizer e fazer coisas que, no contexto do momento, não fariam sentido no mundo real e que parecem surgir apenas para preencher uma quota de comédia ou melodrama que faz mais por quebrar a magia do momento do que suceder relativamente ao seu propósito original. Pelo menos quando um tratamento semelhante foi feito em filmes como “Rocky IV” – especialmente o epílogo do último combate – o tom do filme e a época de lançamento em que este estava enquadrado (ainda nos dias da União Soviética) não faziam adivinhar nada de muito diferente pelo que a falta de tacto e aspecto de propaganda não é comparável a casos como este, que adoptam uma postura mais séria. Depois de “War Horse” e “Lincoln”, “Bridge of Spies” fecha então uma trilogia não-oficial de registos muito abaixo da qualidade média do autor que começam a dar azo à pergunta: Quo vadis, Spielberg?

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.