Boyhood (2014)

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Para um filme com relativamente pouco para analisar em termos de narrativa, fotografia, som ou efeitos especiais, Boyhood tem o potencial para fazer correr muita tinta, dividir opiniões e criar discussão. O projecto megalómano do realizador Richard Linklater não se mede em escala mas na mera ambição de um autor que quis ir além da usual emulação da história de uma vida como tantas outras e capturar o amadurecimento humano em tempo real. A ideia não é propriamente original, tendo já sido usado um método semelhante na série documental britânica Up, mas em nenhum outro exemplo a captura dos acontecimentos é tão pessoal e contígua entre episódios.

A acção arranca em 2002 com “Yellow” dos Coldplay, uma música e banda que não parecendo caminham já para os 15 anos de existência. O Tempo é uma figura proeminente em jogo e pequenas notas de rodapé como a inclusão de uma música são uma das ferramentas subliminares que ajudam a sublinhar a sua presença. Mesmo que a sua discrição as possa fazer despercebidas ao início, a aposta na reacção da plateia a certos recortes culturais e sociais de cada época pretende enaltecer a efemeridade e a rapidez com que a vida passa, criando uma espécie de dejà vu que fortalece a ligação entre a experiência pessoal de cada um com aquela que é retratada em filme. Mais que uma história convencional com princípio, meio e fim, são estes pequenos mas cruciais pormenores que fazem desta experiência algo tão evocativo e emocional.

Para capturar com sucesso  as idiossincrasias dessa cadeia de acontecimentos seria necessária a meticulosidade de um autor como Richard Linklater, que prefere perder-se no mapa individual das personagens. Depois da trilogia Before, Slacker e Dazed & Confused, Boyhood é um improvável mas risório salto evolutivo na carreira do realizador cuja ambição nos traz um tipo de épico há muito esquecido mas que também causa o grande ponto de divisão em relação à sua obra. No entanto o apego do conto às malhas da vida real obriga-o também a descer dos céus da fantasia cinematográfica mais do que o costume para efectuar um voo rasante aos campos de trabalho documental onde nunca pousará. A vida do pequeno Mason foi pensada de forma a parecer verídica, longe dos usuais clichés ligados a dramas familiares, e audiências à procura de entretenimento encontrarão aqui muito pouco para abordar de ânimo leve ou coração fechado.

Por outro lado esta caminhada de mais de uma década condensada em pouco menos de 3 horas apresenta-nos recortes de acontecimentos que se passam entre os 6 e os 18 anos de um rapaz americano de origens humildes.  São tópicos como o amadurecimento e a perca de inocência que realmente guiam o filme e não uma história onde a personagem segue um caminho com um princípio e fim bem definidos para deixar o espectador com um sentimento de conclusão absoluta. O guião tenta abstrair-se de mostrar os usuais grandes marcos de uma vida – o último dia de escola, o primeiro beijo, etc. – e foca-se em vez disso nas entrelinhas desses momentos onde que a vida apenas ocorre.

O que poderia facilmente tornar-se uma gimmick interessante para mascarar algo com um menor grau de importância é utilizado de forma inteligente e madura por um realizador que sabe exactamente onde estão as poças e como as evitar, amplificando a força da sua ideia ao máximo. O passar dos anos indica uma evolução não só dos actores mas também da pessoa atrás da câmara, um verdadeiro “5º Beatle” desta produção. Entre projectos Linklater abandonou este por um período de tempo apenas para voltar com outra experiência para aplicar aqui conseguindo manter coesão entre etapas de gravação. Dentro da moldura do plano não é só a família que evolui à nossa frente mas também as escolhas no guião que a dirige por caminhos mais contemplativos e na direcção que mantém os actores centrados nos seus alter egos durante longas e constantes pausas.

No campo do elenco existem dois nomes que sobem acima de todos os outros. O primeiro, compreensivelmente, é o de Ellar Coltrane, o rapaz que se tornou actor e homem durante o período em que interpretou Mason. A aposta numa criança de 6 anos para ser a cara de um projecto que iria tomar o dobro da sua idade a completar representava um risco enorme mas por entre as incógnitas dos anos o actor  manteve-se verdadeiro ao seu papel. Independentemente de qualidade de performance, o tamanho do fardo imposto a partir de tenra idade seria suficiente para destabilizar uma boa percentagem de artistas de tenra idade. Coltrane não é sublime nem sequer na sua melhor hora mas por outro lado o seu trabalho não é entregar uma performance cheia de rodeios e maquinações altamente maquinadas. Mason e Ellar são apenas tão enfadonhos e interessantes como a criança e adolescente que naquele momento realmente são e há algo nessa noção bem mais genuíno que qualquer outro trabalho de actores que alguma vez tenhamos visto.

Com um estilo diferente mas não menos efectivo Patricia Arquette encarna a mãe de Mason que desde nova se viu abraços com a tarefa de criar os seus dois filhos sozinha após se ter separado do pai das crianças. A constante busca por amor retribuído por parte desta mulher (apelidada apenas de Mom, um dístico deveras singelo) revela nem uma mulher guerreira nem uma vítima; com a idade a mãe de Mason aprende a aprender com os seus erros e mostra que se consegue levantar contra os desaires da vida mas sempre com a lembrança amargurada das feridas do passado perto da tona. Apesar de nunca ter conhecido o status de elite de outras estrelas da sua geração Arquette volta a provar o porquê de já ter sido escolha de autores como Martin Scorcese, David Lynch e Tim Burton ao servir uma matriarca de forma exímia. Sendo ela própria uma mãe com dois filhos será plausível assumir que essa experiência foi factorizada na hora de canalizar nuances mas, ao invés do caso com o seu protagonista masculino, a beleza da sua presença em cena vem da arte de representar e não da espontaneidade do momento, o que só vem a provar que dois métodos diferentes de abordagem dentro da mesma peça conseguem ambos produzir frutos à sua maneira.

Comparadas com elas as participações de Lorelei Linklater e Ethan Hawke não deixam muito por dizer já que os seus papéis de presença altamente esporádica tendem a resumir-se a uma função de suporte. Contudo num filme deste género não existem papéis pequenos e embora mais ausentes que o resto do elenco principal, estas duas caras têm vincos bem definidos e o seu lugar para serem mordazes. Isto é importante para o tom abrangente do filme onde próprio título joga um pequeno jogo de sombras pois ainda que pareça indicar que a ribalta será apenas ocupada por Mason quando na verdade o foco faz por se alargar a toda a sua família, os vários “figurantes” que vai conhecendo e deixando pelo caminho e mais além. Tal como em tudo existe sempre mais que um lado para cada história pelo que a deste americano caucasiano irá ressoar com pessoas de diferentes sexos, raças, credos, orientações sexuais ou estatutos sociais pois por muito diferente que o indivíduo possa ser do grupo há sempre uma ideia, um sentimento ou uma etapa que vincula toda a raça humana. Já que é impossível elaborar um manual de instruções, ficamo-nos por um making-of  (até ver).

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.