Birdman (2014)

birdman copy

 

Alan Swann, a personagem de Peter O’Toole em “My Favorite Year”, não podia ter sido mais certeiro em relação ao futuro do Cinema como indústria ao auto-avaliar-se com a deixa “I’m not an actor, I’m a movie star!”. De facto a identidade de ‘actor’ foi sendo substituída cada vez mais pela de ‘estrela’ à medida que o passar dos anos fez aumentar a importância do blockbuster e diminuir a importância a habilidade do artista como artista ao invés de figura central dos media. Robert Downey Jr. é provavelmente um dos actores mais conhecidos e acarinhados à escala mundial mas é provável que muitos dos seus ‘fãs’ não conheçam um único título do actor prévio a 2008, ano em que este encarnou Iron-Man e que marca o início oficial do Universo Cinematográfico da Marvel. Daniel Brühl deu uma das melhores performances de 2013 como o Niki Lauda de “Rush” mas o seu talento não o conseguiu fazer sair da sombra da nova mega-estrela Chris Hemsworth. O mais recente filme da saga “Hunger Games” conta com uma actriz oscarizada e o seu nome não é Julianne Moore. Como resposta a esta venda de arte a retalho surge agora um ensaio intitulado “Birdman”.

Este é um estudo que se assume sem rodeios como um acenar de cabeça de reprovação ao que se pratica hoje em dia no panteão do entretenimento americano, com a sua abordagem muito meta a sentir-se desde a estrutura geral da história à escolha de cada actor para um determinado papel. Quem melhor para interpretar um popular ícone de outrora caído no esquecimento que Michael Keaton? E para um actor brilhante mas com graves problemas no que toca a trabalho em equipa fora de cena poucas escolhas seriam mais adequadas que Edward Norton, o enfant terrible de muitos realizadores. Mais importante ainda é o facto de ambos terem sido protagonistas de adaptações BD de larga escala apenas para ver a sua carreira passar por um período de letargia nos anos seguintes. Riggan Thomson (Keaton) é o principal sujeito, um actor que alcançou a fama ao interpretar o super-herói que dá o nome ao filme e que a perdeu no momento que decidiu abandonar o papel. Pelo caminho a sua negligência levou a sua filha Sam (Emma Stone) a um problema com drogas e a sua mulher (Amy Ryan) passou a ser a sua ex-mulher. A sua busca por significado não só como artista mas como pessoa leva-o a investir tudo o que tem numa peça da Broadway onde ele é encenador, guionista e actor principal, onde acaba por encontrar Mike (Norton), um actor promissor e popular com falhas emocionais – e físicas- graves. A própria peça, a história dentro da história, fala de um homem que lamenta o facto de “não existir”, exacerbando o sentimento de falta de propósito.

Depois de Cronenberg ter feito o seu retrato muito próprio de uma parada de excessos e deboche chamada Hollywood com “Maps to the Stars”, Alejandro González Iñárritu segue por uma viela mais afastada do glamour das festas apenas para chegar à mesma conclusão sobre o seu zeitgeist. Ambos encaixam-se também no tema não-oficial do transacto ano cinematográfico que ficou ligado à exploração do ego, neste caso específico a ligação Riggan-Birdman, a metodologia de Mike e a personalidade quebrada de Sam. A paródia ao apego actual aos filmes de super-heróis e ao facto de como a habilidade de actuar e ser actor abandonou o sentido de arte para se tornar uma exploração mineira de dinheiro são apenas dois dos tópicos-fetiche de um filme onde a vida artística e a pessoal passam por um nível semelhante de escrutínio. Os egos inflacionados escondem a solidão e a performance esconde a crise. No entanto há aqui uma nota de esperança sobre a perseverança da arte de actuar e entreter que faz lembrar “Holy Motors” ao fazer uma ode ao espírito puro do ofício que tenta subverter o lado mais secular da profissão. Com esse desígnio em mente é imperativo que se tenha um elenco talentoso a trabalhar a nosso favor, algo que Iñárritu se pode orgulhar de dizer. Para além dos supracitados Keaton, Norton, Stone e Ryan o grupo principal é também constituído pelas performances sólidas de Naomi Watts, Andrea Riseborough e Zach Galifianakis.

Não obstante o nível de representação supera o do guião por uma margem considerável. A mensagem de Birdman é clara e certamente admirável mas a maneira de como é espalhada ao longo de 2 horas é irregular e tende a faltar o tom áspero que traria à narrativa o nível de excelência que ela obviamente procura. Os diálogos entre personagens não são simplórios nem desprovidos de emoção mas tende a entrar num ciclo vicioso onde a mesma temática é debatida repetidamente sem que se chegue a uma nova conclusão, como uma gigante Ouroboros cinematográfica. A presença da personagem de Amy Ryan actua como uma âncora emocional para Riggan e as cenas maravilhosas que esta partilha com Keaton são igualmente um lembrete amargo da falta que a sua presença faz a uma história de onde ela está demasiado ausente. Bem mais presente está a filha do casal que, depois de passar uma temporada em reabilitação, se dedica a ajudar o pai como sua assistente pessoal. Emma Stone está longe de ser uma actriz terrível mas os segmentos ligados à sua personagem tendem a ter uma banalidade que o seu charme natural tem dificuldade em combater. Na mesma veia Zach Galifianakis tem uma presença sólida mas aquilo que lhe é dado para fazer dificilmente justifica a quantidade de minutos gastos com o seu alter-ego. Em suma, o guião está repleto de boas ideias a precisar de afinação.

Igualmente em bruto está algum do pensamento por detrás da câmara. A escolha de capturar todo o filme através de um (aparente) único take resulta se olharmos à atmosfera pesada e espectral da história, elevada ao máximo pelo trabalho magistral do cinematógrafo Emmanuel Lubezki. A insistência em manter os planos fechados aperta os limites do mundo à volta da personagem. As ruas são os corredores apertados dos bastidores, o exterior é raramente visto ao contrário do espaço limitado, escuro e sem privacidade do palco onde tudo é uma forma de mentira. O feito não só merece palmas pelo esforço mas pela forma como consegue alinhava toda a acção sem qualquer disjunção óbvia.Todavia essa promessa de façanha técnica é por vezes arruinada por  uma ou outra sequência com um propósito irritantemente óbvio ou onde o espectáculo visual é apenas uma desculpa para o facto de não haver nada para se dizer naquele espaço de tempo. À semelhança do que se passa no guião estas falhas que arruínam o ímpeto da acção levam à questão sobre a necessidade de termos em mãos uma experiência de 2 horas. A resposta simples é não.

Ainda assim esta sátira dos tempos modernos guarda bons argumentos suficientes no seu cinto de gadgets para envolver, encantar e puxar seriamente das emoções. Keaton salta da obscuridade para um papel principal num dos mais badalados filmes do ano como se nada fosse, a fotografia é soberba e, embora tenha o seu quinhão de momentos mais estáticos, está também cheio de momentos brilhantes de trabalho não adulterado entre actores. Ainda assim preferia viver no universo paralelo onde este filme fosse realizado por David Lynch.

 

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.