Avengers: Age of Ultron (2015)

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O fim da segunda fase do Universo Cinematográfico da Marvel – vulgarmente conhecido como MCU – chega finalmente ao fim com aquele que é, de longe, o filme mais esperado do franchise desde o seu começo em 2008. Embalado ainda mais pelo sucesso crítico e comercial de 2014 obtido por “Captain America: The Winter Soldier” e “Guardians of the Galaxy”, o ímpeto que “Avengers: Age of Ultron” tem vindo a reunir desde que a cara sorridente do vilão Thanos fechou o primeiro filme em 2012 tornou-o um candidato sério ao lugar de “menino querido” de um ano que ainda tem para oferecer, entre outros, um novo “Star Wars”, o mais recente filme de Quentin Tarantino e um “Mad Max” que se torna mais apetecível a cada novo trailer. Ainda assim, essa parte tem uma importância quase trivial dado o sucesso estrondoso do primeiro “Avengers”, aquele que tinha a responsabilidade de cimentar a noção de um Universo colectivo de super-heróis como algo mais sério do que os últimos 15-20 anos no Cinema tinham vindo a produzir. Com isso em mente “Age of Ultron” faz a aproximação à linha da meta de queixo bem erguido mas esse mesmo excesso de confiança provoca vários tropeções que estragam a conclusão deslumbrante que a Marvel teria em mente.

Os maiores e principais problemas que afligem o 11º filme do MCU têm origem na mesma raiz: falta de coerência, quer dentro do seu próprio Universo, como história singular ou para com o senso comum. A história arranca, como seria de esperar, depois dos eventos de todos os títulos Marvel lançados após o primeiro “Avengers” – salvo talvez “Guardians of the Galaxy”- mas pelo meio parece ter contado com um ou dois títulos que nunca chegaram às salas de cinema. A vantagem da existência de vários capítulos dedicados a cada membro da equipa é o facto de se poder deixar cada personagem respirar o suficiente de modo a justificar o investimento emocional do público assim que os lasers comecem a voar. É portanto com alguma surpresa que a sequela indirecta de todos esses filmes revela, entre outras coisas, que Black Widow e o Hulk partilham agora uma relação – R.I.P. Betty Ross (???) – com direito a rituais de contacto muito Disney encontra “Planet of the Apes” e que Thor pensa que a melhor pessoa para o ajudar com o sobrenatural é um astrofísico de renome. É assim que o filme se apresenta: um alinhavado de ideias aparentemente discutidas em amena cavaqueira e escritas num guardanapo, juntadas depois como o monstro de Frankenstein para justificar aqueles momentos em que alguém não faz piada ou mostra uma parte do corpo mais esculpida. Não é segredo que entre esses detalhes e as grandes cenas de acção se faz 90% do filme, o que não seria propriamente desfavorável se a devida atenção fosse tomada aos restantes 10% de modo a garantir uma base suficiente sólida de modo a não deixar a descoberto falhas que possam alhear olhares mais atentos.

Um bom exemplo disso reside no tratamento daquela que é uma das componentes-chave do filme – a temática das inteligências artificiais – trazida à baila pelo processo de criação do vilão epónimo. Originalmente projectado como um mecanismo de defesa e manutenção da paz em larga escala, Ultron acaba por escapar da sua “incubadora” via Internet após se tornar senciente e determinar que a raça humana é um factor desprezível na demanda para salvaguardar o planeta, criando também um motivo para a equipa de super-heróis se reunir mais uma vez. No entanto a evolução de acontecimentos levanta questões pertinentes às quais o guião não está interessado em responder, na expectativa que o fundo mágico-científico das aventuras Marvel seja justificação suficiente. Se Ultron é criado por Bruce Banner e Tony Stark, duas das mentes mais brilhantes desta versão do Planeta, não seria de esperar que durante a concepção do mesmo fossem tomadas medidas que impedissem o novo sistema de policiamento global de se tornar uma versão aos quadradinhos da Skynet? Uma implementação rigorosa das leis de Asimov, por exemplo. Mesmo considerando a origem bizarra de parte da “alma” de Ultron – e igualmente do andróide Vision – as interacções que estes têm entre eles e com outros demonstram que a sua base continua extremamente terraquio-starkiana. Em 1995 “Ghost in the Shell” conseguiu encaixar um ensaio sobre noções semelhantes em menos 90 minutos com resultados bem mais interessantes, acertando mesmo em pormenores ínfimos como o facto de um robô não necessitar de pestanejar. Obviamente, o objectivo da obra-prima de animação japonesa era bem mais ambicioso do que sacar uma gargalhada fácil.

Muito à moda do blockbuster, há que explorar ao máximo o lado emocional na audiência e nada é mais básico do que atribuir uma pré-selecção de traços vis ao antagonista para fazer com que a audiência torça ainda mais por aquele(s) que o enfrentam. O que se perdeu foi uma excelente oportunidade de representar uma entidade racionalmente capaz de deter uma personalidade completamente apática, usando nada mais que a frieza dos factos para tomar uma decisão igualmente impopular e justa. O risco seria maior mas assim igualmente seriam os dividendos caso a equipa por trás desta produção fosse realmente merecedora da ovação colectiva de que irá desfrutar. Assim, Ultron – e por conseguinte grande parte do filme – resume-se a um par de boas decisões e uma dúzia de más.

Outra grande falha é a falta de compreensão de que, por muito que se queira, já não estamos em 2012 e a fórmula que foi usada então não pode ser repetida aqui onde a história ganha um contorno mais negro e existem mais incógnitas no tabuleiro. Para além de Vision entram em jogo mais duas novas personagens, os gémeos Pietro/Quicksilver e Wanda/Scarlet Witch Maximoff, que nesta versão não são filhos do mutante Magneto mas sim os dois únicos sobreviventes de uma série de experiências que lhes atribuiu super-poderes. Nenhum dos três tem direito a espaço suficiente para provocar um impacto sonante dentro da franquia mas enquanto o tempo de Vision é usado sensatamente atendendo ao seu protagonismo o mesmo não pode ser dito dos irmãos. Embora sejam mobilizados logo a partir do primeiro acto a sua fraca caracterização e presença de carácter esporádico faz com que a sua relevância para a trama seja bem maior na página do que a empatia do público é para com eles quando a hora da verdade chega, sequência após sequência.  Uma pena já que o talento escolhido – Elizabeth Olsen e Aaron Taylor-Johnson – é jovem mas já deu cartas no mundo da 7ª Arte, especialmente a mais nova das irmãs Olsen. Para fazer jus às origens das suas personagens – uma nação fictícia algures na Europa de Leste – os actores apresentam duas performances patrocinadas por todos os estereótipos alguma vez associados aos povos daquela região, do sotaque carregado ao hábito de usar vestuário Adidas. Não tivesse o filme uma classificação M/12 e com certeza teria sido incluída uma cena onde Wanda beberia directamente de uma garrafa de vodka enquanto Pietro contemplava o horizonte completamente agachado. Enfim, devaneios de uma mente capitalista do Oeste profano.

Tudo isto não significa que fãs do primeiro capítulo e/ou das restantes longas-metragens MCU não terão ainda uma boa dose de positivismo para roer, cortesia de Joss Whedon. É verdade que como realizador e argumentista a sua transição para uma peça mais sombria está longe de ser perfeita mas se há algo que Whedon sabe entregar são aqueles momentos de comédia que tendem a quebrar uma situação tensa da melhor maneira. Mesmo que um espectador não seja adepto da noção de humanos e monstros a lutarem entre si, só muito dificilmente não irá esboçar um sorriso com pelo menos um dos muitos momentos onde, no plano principal ou secundário, é deixado um pequeno brinde. A película também se pode gabar de algumas sequências de acção bastante divertidas, especialmente aquela que todos os trailers fizeram questão de promover arduamente: a luta de Hulk contra a Hulkbuster, uma armadura criada especialmente para o travar. Na mesma sequência encontramos a melhor troca de “galhardetes” e o melhor momento de comédia de todo o filme, provando que pelo menos algum charme resiste contra a insipidez. Pela inteira duração das 2h20 de intriga internacional encontram-se polvilhados vários momentos do género que, por si só, continuam a funcionar maravilhosamente mas que se encontram mal distribuídos e encalhados em componentes bem piores que insistem em monopolizar o holofote.

1 filme e 1 cena pós-créditos mais tarde, a sensação que fica é a de que o final da 2ª fase foi relegado para peça de transição entre tons de cinza no MCU , que se prepara para escurecer ainda mais em 2016 com “Captain America: Civil War”. A escala épica que a ameaça de controlo global que o Ultron parecia prometer nunca é concretizada na tela e por consequência a sua “Era” traduz-se mais como uma má semana para Tony Stark e companhia. Até o malogrado “Transcendence”, com Johnny Depp, conseguiu fazer um melhor trabalho de retratar o aspecto hegemónico de uma I.A. com acesso a tudo e todos, mostrando as mudanças drásticas que esse factor introduzira no planeta. Aqui as pessoas continuam a sua vida relativamente despreocupadas até ao momento que um ou mais membros da equipa se envolvem em qualquer tipo de acção ofensiva perto de um ambiente urbano onde aí sim se podem verificar as regulares reacções de civis quando as bombas começam cair: correr, cair e correr mais rápido. Em retrospectiva, seria bastante fácil detectar os maus presságios presentes logo na primeira peça promocional com um pouco mais de atenção, mais precisamente no momento em que um recém-formado Ultron intimida os Avengers com recurso a uma analogia relativa ao filme “Pinóquio”. Um ser fundamentalmente masculino com acesso à Internet e a primeira coisa que pesquisa são dados sobre filmes infantis? Balelas.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.