Crítica: An Education (2009)

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Embora pareça cada vez mais difícil associar uma conotação positiva à palavra “feminismo” nos dias que correm, existem ainda aqueles que encontrar o verdadeiro sentido da palavra e convertê-lo em algo que representa esse ideal de forma respeitosa e humanista. “An Education” é feminismo feito de maneira certa,  que é como quem diz que aborda a condição da mulher como membro da sociedade num período onde as condições das mesmas poderiam facilmente instigar um bombardear de propaganda anti-masculina e escolhe fazer o contrário. Esta história de uma adolescente londrina de 16 anos é o exemplo perfeito daquilo que um conto de resolução e amadurecimento (não só mas principalmente) femininos devem ser. Jenny (Carey Mulligan) vive enclausurada sob o olhar fixo de um pai bastante controlador que tomou como sua a tarefa de planear o futuro inteiro da filha, passando por um percurso académico de excelência e (como não podia deixar de ser) um casamento com o par ideal. No seu cárcere ela sonha com um mundo fora daquelas quatro paredes onde possa ter um encontro com alguma aventura e romance antes que o controlo da sua vida seja transferido entre capatazes. É aqui que entra David (Peter Saarsgard), um homem mais velho que graças à sua propensão para sherpa social cai na vida de Jenny como a resposta a uma prece e o par aproxima-se.

Tal descrição pode invocar desde logo a alocação directa de género como apenas um coming-of-age (o que não escaparia totalmente à verdade) mas sozinho esse rótulo apresentaria um resumo incompleto do conteúdo no interior. Para além dos habituais ritos de passagem que se esperam numa representação da chegada de um(a) jovem aos portões da vida adulta,  esta é uma história de reconhecimento, romance e o desapontamento que dança entre os dois. Ao longo do filme Jenny tem a oportunidade de ir conhecendo cada vez mais de tudo que a rodeia e é através dessas experiências (boas e más) que ela tem o seu primeiro gosto de realidade livre do filtro tradicional que lhe é imposto em casa. Os serões preenchidos pelas conversas entre cosmopolitas e o cinismo por detrás disso tudo ajudam-na a encontrar-se quer como mulher quer como membro da sociedade, uma espécie de “escola da vida” que esculpe o que era então uma rapariga reservada completamente alheia ao controlo do seu futuro numa mulher mais assertiva.

Um dos maiores pontos a favor aqui é a maneira de como a narrativa não se deixa alongar demasiado em estereótipos no que toca a definir quem são as personagens boas e más. Mesmo com a presença habitual da dinâmica “protagonista-antagonista” de forma bem clara o guião esquiva-se bastante bem de erros corriqueiros que separam um elemento memorável de um banal. Tomando o pai de Jenny como exemplo, numa outra produção a sua personalidade seria retirada dos piores capítulos no zeitgeist dos anos 60 onde este homem de meia-idade seria pintado como um retrógrado machista que esconderia a filha como primeiro e último recurso a fim de guardar a sua virtude para o primeiro homem decente (também retrógrado e machista) que procurasse ali o apêndice necessário para constituir família. Para cimentar essa pensamento regressivo haveria pelo menos uma cena onde Jenny seria agredida fisicamente por um dos homens, pontuada com um lábio aberto e o consequente rio de lágrimas e soluços. A mensagem passaria mas graças apenas a paradigmas extremos que retirariam toda a essência humana da equação. Por outro lado, o aspecto controlador da figura paterna em “An Education” é acompanhado por um sentimento genuíno de defesa dos interesses de Jenny que coloca a personagem numa zona moralmente cinzenta onde, juntamente com a notável performance de Alfred Molina, cria uma mistura polarizante que coloca a decisão sobre a sua benevolência do lado do espectador, não dos artistas.

Os dois protagonistas não gozam de uma liberdade tão grande no que toca a esse departamento – não fosse o rumo da trama estar ligado directamente a ambos – mas isso não significa que estejam alheios aos seus momentos onde nem tudo é o que parece. A evolução da vida a dois vive da necessidade de Jenny e David – e por conseguinte a audiência – começarem eventualmente a duvidar das verdadeiras intenções da pessoa que têm à sua frente e a linguagem cinematográfica tende a acompanhar essas mudanças. Um dos mais admiráveis é o próprio guarda-roupa que funciona como mais do que um simples adereço, providenciando um suplemento visual que reflete a disposição do status quo naquele dado momento. Para melhor demarcar um sentido de diferenciação , por exemplo, o vestuário de Jenny tende a constrastar com o dos homens ao longo do filme. Isto é particularmente notório nas cenas onde os laços que a ligam a David se encontram no seu estado mais delicado, relembrando-nos que esta jornada lhe pertence a ela. Por outro lado, quando a relação decorre de vento em popa as suas roupas tornam-se mais vivas em sincronização com as dele, denotando ao mesmo tempo a felicidade da protagonista e a perda da sua identidade própria.

Também ajuda que Peter Saarsgard, um veterano dos papéis secundários, e Carey Mulligan, na altura uma cara nova com bastante promessa, não acusem a diferença de idade, experiência e personalidade dos papéis. A química entre os dois está lá desde o primeiro momento e a partir daí não abandona essa dinâmica por um período de tempo significativo. Dada a sua relativa inexperência face à envergadura do papel, Carey Mulligan acaba por se destacar ainda mais no meio de um elenco com vários actores mais velhos e conceituados a quererem mostrar serviço. Aquilo que mais tarde se viria a confirmar como um talento nato começa a mostrar-se a sério aqui com uma performance que eleva um material já bastante competente, desprovido de demagogia e rico em humanismo. É essa a arma secreta de “An Education” que o faz acertar em cheio onde tantos outros falham: a sua sede de contar uma história que é primeiramente humana antes de ser feminina tornam-no não só uma história altamente relacionável (mesmo de uma perspectiva masculina) mas também de interesse altamente feminista por avançar o diálogo da condição da mulher com uma atitude branda suportada por uma argumentação lógica. Mais que um bom pedaço de Cinema revela-se também como um óptimo manual de instruções.

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.