Boyhood (2014)

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Para um filme com relativamente pouco para analisar em termos de narrativa, fotografia, som ou efeitos especiais, Boyhood tem o potencial para fazer correr muita tinta, dividir opiniões e criar discussão. O projecto megalómano do realizador Richard Linklater não se mede em escala mas na mera ambição de um autor que quis ir além da usual emulação da história de uma vida como tantas outras e capturar o amadurecimento humano em tempo real. A ideia não é propriamente original, tendo já sido usado um método semelhante na série documental britânica Up, mas em nenhum outro exemplo a captura dos acontecimentos é tão pessoal e contígua entre episódios.

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Nightcrawler (2014)

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Lou Bloom, o protagonista de Nightcrawler, é dono de um carácter perversamente cândido. O seu aspecto lúgubre é um cartão de visita severo que prontamente a sua eloquência, uma arma bem talhada na arte de assegurar as pessoas à sua volta, se dispõe a desvalorizar. De dia usa óculos escuros. Em casa prefere a penumbra criada por cortinas e persianas semi-fechadas. Ele é um dos filhos adoptivos da noite californiana por onde vai vagueando entre pequenos “trabalhos” que lhe asseguram apenas uma estabilidade frágil que o obriga a retornar ao regaço da sombra após um período breve. No entanto, Lou é um coiote tornado homem com os olhos no objectivo e com a destreza mental e o carisma para o atingir, sempre à espreita da oportunidade certa na qual ele possa dedicar a sua obsessão a 100%.

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John Wick (2014)

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A noite é uma personagem em John Wick. Não há lugar aqui para pessoas diurnas, com trabalhos de escritório, horários para o dentista e compras de última hora para fazer. Aqui só existe o submundo das altas horas dos clube nocturnos, círculos exclusivos e dos gangues que manipulam tudo por detrás do conforto da clandestinidade e do poder armado. Mesmo quando a maior parte da cidade dorme este mundo agita-se tanto ao ritmo da música e da bebida como ao das perseguições e tiroteios. Esta era a realidade de John, um assassino a soldo de alto estatuto, até ao dia em que os encantos de uma vida normal o fizeram pendurar a espingarda e seguir outro caminho. Mas tão cliché como esta escolha é o factor Destino que sempre se encarrega de trazer ao de cima o lado negro que luta constantemente para emergir mas que outra força trata de manter enterrado. Calado e resignado foi como o encontrou. Calado e resignado ele regressou.

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Interstellar (2014)

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Corria o ano de 1997 quando Robert Zemeckis, um verdadeiro camaleão de géneros, nos presenteou com Contact onde o Espaço e o seu conteúdo eram abordados ao som de Alan Silvestri e com letra de Carl Sagan. Entre o tumulto dos preparativos para uma viagem através do Cosmos ao encontro ao desconhecido, a personagem principal de Jodie Foster encontra em Matthew McCoughaney, que interpreta um filósofo, não só um companheiro amoroso mas também um adversário amigável na hora de debater algumas das dúvidas que a assolam à medida que o plano evoluiu desde a teoria à prática. Não deixa de ser curioso então que 17 anos depois voltemos a encontrar o actor num papel que acaba por unir um pouco essas personagens numa só num filme que deve bastante a tantos outros. Não só de Zemeckis vive Interstellar, é certo, mas entre as tentativas de emular o espírito familiar de Steven Spielberg e o analítico de Stanley Kubrick , Christopher Nolan não atinge nem Close Encounters of the Third Kind nem E.T. nem tampouco 2001: A Space Odyssey, sendo o clássico de Zemeckis o melhor ponto de referência para um filme que tenta abranger o melhor de dois mundos. Como diria outra personagem de McCoughaney  “Time is a flat circle.” e para ele 2014 marca o ponto de encontro com o seu 1997.

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Teenage Mutant Ninja Turtles (2014)

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A cada novo lançamento da mais recente adaptação de uma antiga propriedade com um colectivo de fãs bem estabelecido volta sempre à tona o velho debate sobre a legitimidade de uma nova aposta num franchise que marcou uma ou várias gerações. O desdém por parte dos grandes estúdios americanos a material original tem-se vindo a notar cada vez mais nos últimos anos com a tendência crescente de se optar por produzir remakes, adaptações de livros de sucesso (nomeadamente do sub-género juvenil e as BD) ou sequelas para facturar ainda mais no sucesso de um primeiro filme ao invés de tomar o risco de aplicar uma pequena maquia milionária em material sem provas dadas. Deveria esta prática ser considerada eticamente errada do ponto de vista do consumidor? Em teoria não pois o facto de se produzir novo não invalida nem apaga a presença do mais velho, as ferramentas tecnológicas evoluem e a escolha de histórias tende também a diversificar-se de filme para filme. Então porquê o constante enxovalhar desta prática que mantém vivos ícones da infância de tantos nós? Resumidamente, o tratamento desumano que é dado a essas personagens e histórias nos matadouros de Hollywood e que transforma o que era até então uma memória ternurenta em mais uma razão para odiar o “Cinema” praticado pelas grandes corporações.

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Gone Girl (2014)

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A cena inicial de Gone Girl diz-nos mais do que podíamos imaginar numa primeira visualização. Um homem afaga gentilmente o cabelo de uma mulher enquanto o seu monólogo interior entoa as primeiras palavras que iremos ouvir, um desabafo de teor bastante peculiar. A figura feminina vira-se repentinamente como que a reagir às palavras que acabaram de passar pelas colunas, embora não as possa ter ouvido, e Rosamund Pike olha-nos de frente. Ou quase. O olhar que ela atira para um ponto ligeiramente acima do centro do plano (provavelmente o rosto do seu companheiro) não é ternurento nem tampouco de ira mas também não é algo que possa ser classificado como estóico. “E agora?” é a pergunta que se coloca naquele momento e a que irá pairar nas nossas cabeças muito depois dos créditos finais terem começado a rolar.

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A Town Called Panic (2009)

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Na passada edição dos Oscars da Academia a categoria de Animação contou com um candidato improvável na corrida ao prémio contra gigantes da área: Ernest et Célestine. Sem surpresas o estrondoso êxito Frozen da Disney acabou por arrecadar a estatueta e grande parte do protagonismo dedicado a essa categoria mas, como é tão comum acontecer nestas situações, faltou premiar e demarcar outra boa película e, quiçá, a melhor dentro de um grupo relativamente pobre. Foi difícil esquecer o estilo de animação deliciosamente anti-americano, anti-computadores e anti-sacarina e o humor descomprometido de uma história que, sem perder a sua infantilidade, consegue causar um rombo emocional a um público mais crescido.

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Obvious Child (2014)

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O Cinema indie tem-se afirmado cada vez mais nos últimos anos como uma alternativa mais íntima e humana aos projectos gigantes dos grandes estúdios cinematográficos que parecem cada vez mais focados somente em entretenimento. Aliado a isso está também a crescente perspectiva feminina atrás e à frente das câmaras, consequência do papel mais significativo que as mulheres têm vindo a reunir nas últimas décadas em áreas anteriormente quase exclusivamente populadas por homens. Obvious Child é um dos descendentes óbvios (passando a expressão) dessa subida sendo ele uma história não necessariamente actual mas que muito dificilmente seria gravada, comprada e distribuída pelos canais mainstream num momento da História anterior ao que vivemos actualmente.

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Calvary (2014)

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Depois de uma promissora mas ultimamente desbotada estreia com The Guard em 2011, John Michael McDonagh regressa agora com o mais profundo e não menos tenebroso Calvary, o conto de um padre irlandês que preside sobre uma diminuta paróquia localizada nas remotas colinas da Ilha Esmeralda. Verdadeira à tendência do clã McDonagh (que conta também com Martin McDonagh de In Bruges), há um véu de melancolia que envolve toda a acção de princípio a fim. Isso não impede a presença da também usual vertente cómica bastante sarcástica e acutilante dos dois irmãos sempre longe de algo que costume dar azo a gargalhadas mas esta marca a primeira vez em que são incluídos os elementos necessários para contrabalançar a frieza da película de modo eficiente e eficaz.

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Edge of Tomorrow (2014)

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Como pode ser apelidado um filme que revela uma boa parte da sua essência com os trailers, tem o seu quinhão de buracos na trama e que mesmo assim consegue encantar a sua audiência? O insipidamente intitulado Edge of Tomorrow não será certamente o primeiro exemplo passível de se encaixar nessa categoria mas é, de longe, um dos mais consistentes e negligenciados dos últimos anos. Num passado não muito distante o nome de Tom Cruise no poster de um filme garantiria o seu sucesso no plano comercial mas algumas decepções mais recentes reverteram um pouco essa tendência, levando o filme a passar despercebido em salas por todo o Mundo. Mas mais que uma perda monetária para o estúdio esta é uma perda para o consumidor, que deixou assim passar a oportunidade de sentir e apoiar a passagem de um dos mais interessantes blockbusters dos últimos 10 anos pelas salas de cinema.

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