Crítica | Ghost in the Shell (2017)

 

 

Uma adaptação cinematográfica live-action de Anime/Manga é uma das poucas coisas que conseguiria obter à priori uma taxa de aprovação mais baixa do que a presença de Donald Trump num restaurante vegetariano em Damasco. Muito como as malogradas tentativas de adaptar videojogos ao grande ecrã, raras foram as ocasiões em que uma propriedade deste universo de animação/banda desenhada japonesa teve honras de representação digna na sua passagem para o mundo real. Tal como o que acabaria por assombrar as adaptações BD pós-“Batman Forever” por uns bons anos, vivemos num clima onde o material é julgado no seu todo pela sua veia mais cómica e infantil, o que desde logo o torna mais indesejável aos olhos do grande público e, por conseguinte, aos das grandes produtoras com acesso ao orçamento para lhes fazer justiça. Se adicionarmos a isso uma barreira linguística e o preconceito bem presente contra a aliança entre “conteúdo adulto” e “animação”, a probabilidade de uma equipa de profissionais de topo se reunir para tornar esta ficção mais real torna-se então mínima. Todavia é também verdade que os gostos mainstream mudaram imenso na última década e no mesmo ambiente onde super-heróis e cultura popular se tornaram quase sinónimos há agora espaço para outros nichos de entretenimento brilharem.

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Crítica | Logan (2017)

 

 

O que perfaz um herói? Em plena idade de ouro de adaptações BD, onde nenhum herói parece estar acima do “super”, cada vez menos produtores se recusam a mandar a sua acha para a fogueira e as opiniões são variadas. A Disney insistiria na leveza, carisma e potencial de diversão, a Warner Brothers faria o argumento contrário a favor da soturnidade e individualismo, a Fox atiraria várias ideias à parede a procura da resposta mais rentável e as restantes entidades chorariam enquanto se ocupam a salvar o Cinema de si próprio. Estes paradigmas assentam-se na própria diversidade de tom dos livros que ao longo dos anos executaram um slalom entre estilos distintos (Ex: #1, #2, #3, etc.) que iam de encontro às sensibilidades particulares da época em que estavam inseridos, resultando nas décadas de conteúdo diverso que temos ao nosso dispor. Contudo a hegemonia Marvel/Disney neste sector cedo tornou o mercado das adaptações numa fábrica onde tudo o que entra está destinado a sair prezando o humor e a acção enquanto se debate com qualquer conceito mais maduro, o que atribuiu ao género o seu sucesso comercial quase tão rápido como uma noção previsível de monotonia que praticamente condenou toda e qualquer tentativa de colorir fora destas linhas.

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Crítica | Silence (2016)

 

 

No nosso país a noção de História é servida desde cedo como sinónimo de grandes conquistas e descobertas, de pioneiros e de um país numa situação outrora bem melhor que se foi perdendo ao longo das eras. Durante essa passagem de testemunho entre gerações o carácter saudosista e patriótico da mesma sobressai quando pouco ou nenhum ênfase é dado ao impacto negativo que a presença portuguesa lá fora possa ter tido em povos e locais na corrida pela hegemonia do Globo. Seria difícil manter essa ideia de um passado glorioso geração após geração com um olhar igualmente detalhado sobre as atrocidades que o acompanham pelo que a sua relegação para segundo plano é necessária para manter a ilusão de uma hegemonia limpa. Levantar esse véu demasiadas vezes traria por conseguinte um raciocínio mais aprofundado sobre certas questões que poderiam pôr em causa o orgulho que essa época dourada nos faz sentir séculos depois. Nas palavras do Dr. James Wilson: “Um problema adiado é um problema negado.”

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Crítica | Hacksaw Ridge (2016)

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Mel Gibson é um sapo duro de engolir. Se é verdade que o seu carácter tem um lado indesejável já mais que exposto e documentado, de igual forma é verdade que as suas capacidades como artista estão acima da média dos seus pares quer em frente ou por detrás da câmara. Uma abordagem à sua perda de estatuto pode por esta altura ser algo repetitivo e banal mas desde essa ocasião o seu percurso profissional – este filme incluído – apresenta uma influência sua tão forte que ignorá-la seria desprezar um ponto relevante à análise do artista e da sua obra. Nos anos após a divulgação dos seus comentários de cariz racista, sexista e tudo pelo meio Gibson foi interrompendo o seu exílio da ribalta com aparições em filmes como “Expendables 3” e o mais recente “Blood Father” onde interpretou o mesmo tipo de lobo solitário a viver à margem da lei e/ou da vida cor-de-rosa que outrora tinha sido sua, um paralelismo com a vida real que não podia ser mais óbvio. Agora na qualidade de realizador – 10 anos após o seu último esforço, “Apocalypto” – a história escolhida por Gibson para adaptar também não terá vindo ao acaso já que alguns dos temas nela incluídos vão de encontro ao seu desejo de demonstrar o seu lado mais apaziguador mantendo, ao mesmo tempo, o tipo de estrutura com que tem vindo a trabalhar com grande sucesso.

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Crítica | Ghostbusters (2016)

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É sempre difícil vender um remake. A mera perspectiva de que no futuro próximo existirá uma nova versão de uma história que já havia deixado a sua marca anos ou mesmo décadas antes é barra em despertar vários tipos diferentes de negativismo. Mesmo estando as companhias a apostar na nostalgia para poderem retirar algum lucro de uma roda que não têm de inventar é também ela que faz com que o trajecto até à data em que o público pode apreciar o novo ponto de vista seja especialmente íngreme. Pessoas não são fãs da ideia de terem de pagar pelo privilégio de verem a “mesma” coisa pela segunda vez mas odeiam ainda mais a noção de algo novo a interferir com a memória feliz à qual aquela propriedade está associada. Tendo em conta a procissão de tentativas falhadas de que há memória não é surpreendente que essa seja a primeira reacção ao anúncio de mais uma, pelo que talvez fosse inteligente da parte do estúdio responsável atiçar as chamas da discórdia o menos possível até ao momento em que o filme pudesse falar por si próprio (e as notas começassem a cair). A equipa criativa responsável pelo novo “Ghostbusters” pensou de maneira diferente, tomando a posição extremista de uma minoria como pretexto que por si não chegava para justificar o tamanho das ondas levantadas mas que torna a falta de conteúdo de relevo no resultado final extra-ultrajante.

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Crítica: The Nice Guys (2016)

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Se algum dia se realizou uma cerimónia para oficializar a expressão “Em equipa que ganha não se mexe” Shane Black provavelmente marcou presença para deixar a sua assinatura e saiu com um novo mote de vida. Exceptuando talvez a sua recente colaboração com a linha de montagem Marvel em “Iron Man 3”, Black tem-se mantido mais ou menos fiel à fórmula que fez dele um autores alternativos de alto nível – passando o paradoxo – mais apelantes a trabalhar hoje em dia.  Hit ante hit de culto o seu trabalho revelou as suas influências enraizadas no noir que se traduziram ao longo dos anos em diferentes versões da mesma história de detectives e/ou vingança, partilhada por vários conjuntos de simples misfits a lutar contra uma conspiração maior. A chave da imortalidade por detrás dessas obras reside na prática de focar a maior parte da sua atenção nesses maltrapilhos e deixar a comédia, drama e acção fluir através deles. Sem surpresas, ” The Nice Guys” é mais um título que segue estes passos à risca e, sem surpresas, é também uma entrada digna de todo o legado que a precede.

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Crítica: An Education (2009)

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Embora pareça cada vez mais difícil associar uma conotação positiva à palavra “feminismo” nos dias que correm, existem ainda aqueles que encontrar o verdadeiro sentido da palavra e convertê-lo em algo que representa esse ideal de forma respeitosa e humanista. “An Education” é feminismo feito de maneira certa,  que é como quem diz que aborda a condição da mulher como membro da sociedade num período onde as condições das mesmas poderiam facilmente instigar um bombardear de propaganda anti-masculina e escolhe fazer o contrário. Esta história de uma adolescente londrina de 16 anos é o exemplo perfeito daquilo que um conto de resolução e amadurecimento (não só mas principalmente) femininos devem ser. Jenny (Carey Mulligan) vive enclausurada sob o olhar fixo de um pai bastante controlador que tomou como sua a tarefa de planear o futuro inteiro da filha, passando por um percurso académico de excelência e (como não podia deixar de ser) um casamento com o par ideal. No seu cárcere ela sonha com um mundo fora daquelas quatro paredes onde possa ter um encontro com alguma aventura e romance antes que o controlo da sua vida seja transferido entre capatazes. É aqui que entra David (Peter Saarsgard), um homem mais velho que graças à sua propensão para sherpa social cai na vida de Jenny como a resposta a uma prece e o par aproxima-se.

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Crítica: Batman v Superman – Dawn of Justice (2016)

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Mesmo depois de uma largada desapontante com “Man of Steel”, 2013 marcou oficialmente o momento em que a DC se juntou à corrida pelo tesouro que é o mundo geek ao marcar a sua presença na Meca do suor – a Comic-Con de San Diego – com a revelação de que o seu próximo filme iria finalmente juntar os “World’s Finest” em carne e osso . A julgar pela electricidade presente no ar desde então, a leitura de um breve excerto do famoso “The Dark Knight Returns” de Frank Miller e o vislumbre de um logotipo foi o suficiente para colocar desde logo a gigante das BD a um passo de ombrear o MCU da rival Marvel em termos de importância. E porque não? Para além de serem duas das mais reconhecidas e acarinhadas personagens em todo o Mundo puderiam também gozar do sucesso bombástico da recente trilogia de Christopher Nolan que ajudou a colocar o nome do Cavaleiro das Trevas no pedestal de onde este tinha caído nos anos 90. Restava agora fazer algo semelhante com o novo Super-Homem – a personagem de cariz ligeiro cuja nova origem soturna não lhe fez grandes favores – e garantir que a caracterização dos restantes membros da Justice League não se conformaria totalmente ao mesmo filtro emocional cinzento do filme anterior.

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Crítica: Bridge of Spies (2015)

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De todos os conflictos armados que contaram com a presença dos Estados Unidos da América, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria são aqueles que mais atenção recebem por parte do mundo Ocidental – leia-se “O lado dos bons” – por razões que ultrapassam a sua grande escala. Ao contrário de outros casos como a Guerra do Vietname (cujo desenlace tende a permanecer omitido nas grandes produções por razões óbvias), as vitórias asseguradas pelo Oeste que são imortalizadas em fita e bits ano após ano são um lembrete constante de quem um dia tomou parte na modesta tarefa de salvar o Mundo da tirania, ignorância e total aniquilação nuclear. São exercícios de ego aos quais mesmo autores tão conceituados como Steven Spielberg não estão imunes. O realizador não é estranho à modulação do material de forma a que este provoque uma resposta emocional forte e títulos como “Empire of the Sun”, “Saving Private Ryan” e “Schindler’s List” – diferentes perspectivas sobre o mesmo evento – são exemplos disso mesmo. Quando interpelado sobre o épico de 1993 o próprio Stanley Kubrick respondeu que este não era sobre o Holocausto mas sim uma história de sucesso já que exacerbava a sobrevivência de 600 pessoas acima do extermínio de 6 milhões, uma declaração polarizadora mas certamente não infundada. Contudo, é também difícil estereotipar as escolhas do realizador como “lamechas” quando mesmo os seus trabalhos mais sensacionalistas incluem, em regra geral, momentos bem genuínos.

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Sicario (2015)

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Entre as areias do Médio Oriente e as do Sul dos Estados Unidos, a quantidade de filme dedicada à eterna luta entre a América e os seus inimigos podia contar a sua própria história. Ainda assim, o sub-género vai conseguindo encontrar ocasiões para recuperar o fôlego entre enxurradas de conteúdo menos bom e “Sicario” é certamente uma dessas golfadas. Verdadeiro ao estudo da melancolia que tem sido a sua carreira, o canadiano Denis Villeneuve aplica o seu toque mais contemplativo com o intuito de substituir a inquietude dos tiroteios e das sequências apoteóticas pela do jogo de sombras e meias-verdades que preenche o dia-a-dia da luta entre os dois tipos de organizações. Ainda que haja tempo e lugar para alguma acção mais intensa, o tom geral tende a manter-se brando mas tenso, com bastante trocas de diálogo e momentos de digestão de novas peça do puzzle onde o trabalho dos actores carrega muito subtexto que, por sua vez, responde a uma questão quando deixa duas outras no ar.

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