Artigo | Peter Parker vs. o Mundo – Parte II

 

 

No fundo é essa a base do sucesso da trilogia original: o equilíbrio entre momentos bons e maus que humanizam o herói. Hoje em dia o protagonista-modelo de um filme do mesmo género mantém a mesma exacta postura durante todas as suas aparições já que a sua única função no final de contas é passar incólume entre as cenas de acção mais insufladas que o dinheiro pode comprar para ter a oportunidade de nos deleitar com mais uma dose de humor algures entre o inconsequente e o banal. Qualquer sugestão de negativismo é suprimida ao mínimo indispensável pois a sua existência vai directamente contra a promessa de escapismo que estas bombas calóricas de celulóide representam. Até a própria noção de morte parece estar abaixo do mais comum dos mortais. Por outro lado a trilogia “Spider-Man”, que nunca fez por abdicar da dose de humor e acção que se espera de qualquer blockbuster, sempre apetrechou Peter com uma bagagem de dilemas e perdas pessoais com que todos, de uma forma ou de outra, se podem relacionar. A própria base moral de toda essa jornada – “Com grande poder vem grande responsabilidade” – não é apenas uma frase que sobressai num momento de elevada carga emocional mas um mote filosófico que atribui alguma textura extra aos homem/adolescente que sai em collants garridos para lutar contra malfeitores. O poder dessa mensagem não recai necessariamente no seu tom (que não é propriamente negativo ou positivo) mas na sua capacidade de estabelecer num pequeno lema todo um pilar moral que será abordado e testado ao longo de toda a história.

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Artigo | Peter Parker vs. o Mundo – Parte I

 

 

Para aqueles que tiveram já oportunidade de ler alguns dos meus textos incluídos no Ócio não será novidade que a minha opinião sobre a corrente onda de filmes de super-heróis não é a mais positiva. Com isso não pretendo incluir-me numa espécie de contracultura para parecer superior em relação às pessoas que adoram estes filmes (embora assim possa parecer, concedo), apenas acho que eles são alguns dos melhores piores exemplos sobre o que está errado com o Cinema em larga escala em 2017. Desde a génese da 7ª Arte que diferentes eras foram marcadas por diferentes modas que acabaram por dominar a cultura popular da época  deixando sempre para o Futuro um leque artístico extensivo que as definiu até eventualmente serem substituídas pela próxima nova tara. O que as parece distinguir da actual é o facto de que quase 10 anos após o seu começo não-oficial com os lançamentos explosivos de “Iron Man” e “The Dark Knight” continua a faltar uma espinha dorsal robusta a esta época de Ouro das adaptações BD que equivalha ao nível de culto que esta provocou.

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Os Miseráveis

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A 28 de Fevereiro do presente ano o comediante Chris Rock tomou o palco do Dolby Theatre na qualidade de anfitrião dos Oscars para entregar um discurso esperado por muitos. Ainda na crista da indignação ligada ao painel 100% caucasiano de actores nomeados para os prémios, a noite adivinhava-se quente e a escolha de Rock – feita antes do anúncio dos nomeados e consequente controvérsia – surgiu como acaso feliz para aqueles que procuravam ver o “orgulho branco” da elite do Cinema exposto no seu evento mais mediático. De início a fim as intervenções do comediante corresponderam ao esperado, focando-se no tema da desigualdade da indústria e a necessidade de mudança rápida e drástica, e fizeram-se acompanhar por um misto de rábulas e momentos sérios protagonizados por outros convidados. Nas cadeiras a audiência maioritariamente caucasiana ia acenando de sorriso amarelo em riste para os seus compinchas “de cor” – um termo da época da segregação agora usado em prol do politicamente correcto – como quem pede perdão por uma série de chicotadas emocionais que não se recordava de dar. Findas as hostilidades, o saldo da noite compôs-se de duas grandes conclusões: 1) não ficaria mal a Hollywood colocar algum cloro na sua piscina de talento e 2) a indústria ainda está longe de perceber o que isso é.

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Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte IV

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

Os restantes novos membros do elenco são criados debaixo do mesmo manto de preguicite – agora menos interessado em doutrinação – o que torna mais transparente os problemas de “The Force Awakens” ao nível da caracterização das suas personagens e do panorama principal da trama. Poe Dameron é claramente o Han Solo para a nova geração, o que automaticamente lhe garante um dos papéis mais cativantes mas o filme toma a decisão estranha de o chutar para canto bastante cedo, deixando o lugar à direita de Rey reservado para Finn, o stormtrooper renegado que desenvolve problemas de consciência no campo de batalha e que decide abandonar a Primeira Ordem. O primeiro é seguro, carismático, elegante e possui um espírito inabalável enquanto o segundo é mais inquisitivo, introvertido e deixa a sua moral tomar conta de si. Nesse caso porquê escolher a “pior” opção para servir como acólito durante a maior parte da película ao invés da “melhor”? Existem duas respostas possíveis para essa questão e ambas apontam o dedo (mais uma vez) aos homens da caneta: a existência de um receio que a presença masculina mais espampanante pudesse passar de secundária a principal quando colocada em contraste com a natureza mais tranquila da heroína ou então os guionistas simplesmente não sabiam como conter a atitude do piloto numa mistura adequada de arrogância, humor e romance durante duas horas. De qualquer forma Poe foi riscado da lista e o caminho ficou aberto para a opção mais conservadora.
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Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte III

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

O casting é um dos poucos departamentos onde alguma vontade de inovar é sentida já que ao optar por uma panóplia mais variada de géneros, raças e (quiçá) orientações sexuais nos papéis principais é reflectida um pouco a mudança do panorama social desde os anos 70. A Disney tem sido uma das maiores impulsionadoras do movimento para diversificar o tipo de histórias que conta tal como os elementos a enaltecer dentro das mesmas. Por outra palavras: tirar cada vez mais o poder das mãos do Príncipe ariano da praxe e distribuí-lo por toda a variedade de membros que constituem a nossa praça. Esta é uma prioridade que está agora na berra mas não é propriamente nova. Sendo que o êxtase causado por “Frozen” – o estrondo crítico e de bilheteira que mergulhou o Mundo em repetições intermináveis de “Let It Go” – se deveu em parte ao louvor dado às protagonistas Anna e Elsa pelo bom exemplo que representam para crianças de toda a parte este teve direito a louvores de vitória social.

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Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte II

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

Todos aqueles que se opõem fervorosamente à carga de críticas apontada ao filme argumentam que a presença de indicadores semelhantes não faz deste uma cópia a papel químico mas sim uma homenagem aos clássicos que os fãs adoram. O que separa então os dois lados do argumento é a falta de concordância em relação a um grau de semelhança que muitos dizem estar apenas em discussão devido à popularidade de “The Force Awakens”. Será? Tal como já vimos, vários outros títulos célebres e/ou exemplos a seguir dentro do género repetem certas batidas ao longo do franchise sem que o mesmo dedo acusador lhes seja apontado. Os “Toy Story” acabam sempre por levar a aventura para fora do quarto para que possamos ver os brinquedos lidar com o exterior desconhecido. Em cada “Indiana Jones” a personagem homónima bate-se contra uma potência maior e melhor equipada na caça a um tesouro antigo e valioso. “Back to the Future” é a história de dois amigos que viajam no tempo para resolver problemas pessoais – por 3 vezes. Mesmo até as duas anteriores trilogias “Star Wars” seguiram um molde semelhante: órfão prodígio num planeta deserto acaba debaixo da asa de um ancião que lhe ensina as propriedades da Força, o elemento natural que lhe irá permitir combater as forças do mesmo Mal que o tenta aliciar a todo o custo. Então porquê só agora os dois pesos e as duas medidas?

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Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte I

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

Dez anos depois da tão malfadada trilogia de prequelas ter deixado a veia cinematográfica do franchise em modo de repouso, “Star Wars” está de volta em força no grande ecrã e nas montras de tudo o que é estabelecimento comercial. Desde a sua mudança de casa em 2012 para longe das mãos do seu criador George Lucas – na mesma altura em novos filmes foram anunciados – o burburinho dedicado ao mundo dos Jedi e dos sabres de luz foi alimentado a pipeta pelos leves mas constantes updates da maior e mais agressiva campanha de marketing desde a idade de ouro de Hollywood. Aos poucos o ambiente começou a ficar preenchido pela aura febril de todas as coisas “Star Wars” e par alguém que nunca havia sido um fã da saga esse preenchimento cedo passou a saturação. Ver Kylo Ren, Rey e companhia por toda a parte em toda a paragem de autocarro, montra, outdoor, anúncio publicitário, fundo de site e página de rede social foi semelhante à experiência de ser bombardeado pelas fotografias de uma ex-namorada com a qual nos separámos de forma desagradável. Contudo a precisão exímia da epidemia fez com que esta acabasse por transbordar de grupo para grupo até atingir aqueles que, tal como eu, nunca foram fãs da saga e encaravam o lançamento do 7º capítulo com moderada atenção. Ouvir a música de John Williams acompanhar o voo da Millenium Falcon foi o golpe de misericórdia que pôs fim a esse sentimento. Vislumbrava-se agora uma vontade que não estava lá antes e “The Force Awakens” passou de um “Linda Reis” a um “Gustavo Santos” na escala de interesse. Não muito depois, ainda a medo, o mal ficou feito: o bilhete foi reservado e começou a contagem decrescente para o dia do Despertar.

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Quem tramou Josh Trank?

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O acto de bater no megalómano sistema de estúdios de Cinema americano é algo que uma generosa porção de seguidores destas andanças – eu incluído –  tem tendência a executar ad nauseam como mecanismo ventilador de frustação para com o estado actual da indústria. Por vezes é apenas um sintoma de intitulação não merecida. Em outras ocasiões é apenas uma oportunidade para nos regozijar-nos com a podridão que vaza da imagem limpa e infalível desse neo monte Olimpo. Este é um desses casos. Se estiveram minimamente ligados às notícias do mundo do Cinema durante as últimas semanas, certamente terão ficado a par do lançamento desastroso do mais recente “Fantastic Four”, uma das franquias Marvel que o estúdio Fox insiste em não deixar regressar a casa. Depois de 3 tentativas falhadas de estabelecer um Universo com o o nível de adoração (e rentabilidade) ao nível do franchise-irmão “X-Men”, o estúdio decidiu apostar num realizador jovem, cheio de ideias e vindo do mundo das produções indie, uma prática comum em blockbusters mais recentes. O seu nome era Josh Trank e assim começou o seu calvário.

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#JeSuisCharlize – Parte II: Levítico

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Todavia, o zeitgeist é algo em constante mudança à qual o mais avarento empresário precisa de se saber adaptar para que possa desfrutar da maior fatia do bolo e, com o futuro cor-de-rosa que se adivinha, os interesses da maioria estão em vésperas de mudança. Onde outrora modestas êxitos de Acção como “Resident Evil” e “Underworld” se erguiam acima de filmes baseados em BD como “Elektra” e “Catwoman” como campeões de bilheteira em termos de filmes liderados por mulheres, hoje em dia qualquer herói ou heroína do mundo dos quadradinhos arruinaria as hipóteses destas duas franquias gozarem de fins de semanas rentáveis (excepto talvez se os filmes em questão fossem tão maus ou piores que os exemplos anteriores). Outra sub-categoria de peso são as adaptações de romances young adult, onde nem mesmo o mais adorável dos gaiatos consegue travar os “The Hunger Games” de Jennifer Lawrence, verdadeiros colossos que por si só firmaram o estatuto da sua protagonista como nova menina-bonita do Cinema e estabeleceram o novo padrão para os filmes do género desde que “Harry Potter” desocupou o trono. Como seria de esperar, este sucesso gerou o interesse da gerência que aproveitando a sombra do véu do “progresso” decidiu começar a estabelecer raízes nesta componente com a já mencionada Furiosa, a personagem principal do novo Star Wars, o regresso de Wonder Woman (finalmente) às produções de carne e osso, Sarah Connor (versão babe) e das meninas de “Pitch Perfect”, a nova produção da dupla Tina Fey/Amy Poehler e um novo “Ghostbusters” protagonizado inteiramente por mulheres, entre outros.

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#JeSuisCharlize – Parte I: Êxodo

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Fomentado pelo boom das redes sociais, o tópico da prevalência da mulher na Sociedade ganha todos os dias dezenas de novos adendos que visam assinalar o quão longe ainda estamos de alcançar um ambiente onde homens e mulheres possam viver em igualdade. Os diferentes ramos de cultura popular – principalmente a TV, o Cinema e os videojogos – são um dos domínios de caça predilectos para activistas do novo mundo focarem a sua atenção em busca do próximo alvo a abater e todos os dias a lista cresce. Hoje em dia é rara a propriedade que escape ao escrutínio incansável de quem há muito se convenceu que em tudo há uma agenda escondida baseada em discriminação e ódio, agendas essas que , ironicamente, costumam ser o ponto de partida de todas estas trapalhadas. Os tópicos de raça e sexo ocupam quase sempre um lugar de destaque nestas campanhas, algo pouco anormal se considerarmos as diferenças entre os vários elementos mas que toma um carácter mais bizarro quando se verifica que a maioria deste movimento é formada por um sector demográfico específico: caucasianos – principalmente mulheres – de cabelo colorido com tons garridos e com um índice de massa corporal superior ao seu QI.

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