Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte IV

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

Os restantes novos membros do elenco são criados debaixo do mesmo manto de preguicite – agora menos interessado em doutrinação – o que torna mais transparente os problemas de “The Force Awakens” ao nível da caracterização das suas personagens e do panorama principal da trama. Poe Dameron é claramente o Han Solo para a nova geração, o que automaticamente lhe garante um dos papéis mais cativantes mas o filme toma a decisão estranha de o chutar para canto bastante cedo, deixando o lugar à direita de Rey reservado para Finn, o stormtrooper renegado que desenvolve problemas de consciência no campo de batalha e que decide abandonar a Primeira Ordem. O primeiro é seguro, carismático, elegante e possui um espírito inabalável enquanto o segundo é mais inquisitivo, introvertido e deixa a sua moral tomar conta de si. Nesse caso porquê escolher a “pior” opção para servir como acólito durante a maior parte da película ao invés da “melhor”? Existem duas respostas possíveis para essa questão e ambas apontam o dedo (mais uma vez) aos homens da caneta: a existência de um receio que a presença masculina mais espampanante pudesse passar de secundária a principal quando colocada em contraste com a natureza mais tranquila da heroína ou então os guionistas simplesmente não sabiam como conter a atitude do piloto numa mistura adequada de arrogância, humor e romance durante duas horas. De qualquer forma Poe foi riscado da lista e o caminho ficou aberto para a opção mais conservadora.

Ainda assim a bagagem emocional de Finn abria a possibilidade de incluir temas como trauma, perda, dúvida e sobrevivência com implicações mais melancólicas do que é costume, estabelecendo ao mesmo tempo paralelos entre o foco da história e a pessoa com quem esta vai partilhar a maior parte da viagem pelo que ele não seria de todo, ao início, a pior escolha para a posição. É quando o filme começa a querer trocar as voltas à audiência que toda essa promessa sofre. Tal como Poe é cativante demais para andar desaparecido durante 80% do filme também o tratamento que espera Finn não coincide com as suas origens. Transformar aquele que parecia ser uma vítima de rapto forçada a treinar para fazer de uma força paramilitar com tendências extremistas num combinado de comic relief e pinga-amor trapalhão não só é uma alteração brusca como o faz recuar várias casas em termos de interesse. É possível que após esse longo período de sofrimento a partilha de experiências com gente amigável como Poe e Rey eventualmente provocasse algum tipo de mudança na sua psique mas para esta ser plausível seriam necessários um foco e uma passagem de tempo que não se verificam aqui. Ver alguém quebrar espiritualmente após testemunhar a morte de um companheiro numa cena apenas para passar a ser o bobo da corte que perde a compostura sempre que a única mulher da galáxia olha na sua direcção na seguinte trai não só o potencial da Finn como pessoa mas também aquilo que ele poderia ter vindo a significar para o filme e o franchise. Por outro lado, gargalhadas sempre foram mais eficazes a preencher cadeiras do que lágrimas.

A Primeira Ordem não é mais que a nova demão no conceito de “nazis no espaço” que era anteriormente ocupado pelo Império com uma representação da hierarquia militar bem mais plausível onde veteranos ocupam patentes mais elevadas e diferentes estratos actuam de acordo com o seu estatuto, idade, condição, etc. Neste nova versão todo o braço armado converge em duas figuras jovens, altamente temperamentais e em constante troca mútua de birras: o General Hux e Kylo Ren. Hitler Hux é a cara de todo o movimento, um motivador público cujo grande discurso a cerca de 2/3 do filme só poderia ter sido uma cópia mais literal de uma concentração nazi se tivesse sido realizado em Nurembergooine. Domhnall Gleeson teve um 2015 repleto de oportunidades para mostrar alguma versatilidade e talento mas aqui nenhuma dessas duas qualidade seria o suficiente para nos fazer esquecer que este papel deveria ter sido interpretado por uma pessoa mais velha e experiente para ser credível tal como acontece no lado da Resistência com a General Leia. O look pueril do actor revela-se mesmo debaixo da constante expressão de raiva que este carrega durante o filme, o que torna cenas como a do discurso – onde o seu tom de vez aumenta quase até ao nível de falsetto e o sobrolho fica cada vez mais franzido – cómicas ao invés de tensas pois nem ele nem as suas deixas conseguem compôr a imagem que estão a tentar vender.

O mesmo se passa com Kylo embora por motivos diferentes. Desde o início é suposto que este seja uma figura em conflicto consigo própria, reclusa, altamente instável e com tendência para uso de violência, o que não depende tão directamente de factores como idade ou experiência para ser representado de forma legítima. Todavia é também muito fácil pegar nesses elementos, tomar todas as decisões erradas e acabar com o cruzamento entre um fã radical de “Star Wars” e um fã radical de Evanescence em mãos que é o que acaba por acontecer. A vontade de espelhar a figura de Darth Vader em Kylo Ren é notória, desde a perspectiva de tragédia pessoal até ao combinado de vestes negras esvoaçantes + capacete, mas o processo é tão superficial que tal como acontece com Hitler Hux os momentos que haviam sido preparados com a intenção de serem fulcrais para a trama, personagem ou ambos acabam por dar um tiro no pé da credibilidade das mesmas. Incluir um capacete na indumentária diária de Kylo Ren não seria um pecado capital por si mas tornou-se isso mesmo quando a melhor justificação encontrada para essa escolha foi equiparar o vilão principal do filme – um demónio sanguinário em potência – a qualquer outro fanboy que viu a saga demasiada vezes em VHS e que desejou secretamente vir a desenvolver problemas respiratórios para ficar mais próximo da sua personagem preferida.

Finda esta primeira etapa a pasta da franquia passa para as mãos de Rian Johnson ou, mais importante ainda, para longe das mãos de J.J. Abrams. A escolha de Johnson parece lógica tendo em conta seu trabalho sólido dentro e fora do género em títulos como “Brick”, “Looper” e alguns dos melhores episódios da série “Breaking Bad”. A não ser que o 8º episódio consista integralmente em Rey, Luke, Kylo e companhia à caça de uma mosca as hipóteses da coisa correr pelo melhor são boas mas há ainda uma ameaça colossal a considerar: o estúdio. “The Force Awakens” facturou até à data qualquer coisa como 2 biliões de dólares à escala global o que em língua empresarial se traduz numa necessidade de fazer mais do mesmo para ontem, o que não deixa muitas oportunidades para explorar opções que se afastem muito deste tipo de mixórdia. Há também que perceber que por muito estatuto de culto que Johnson possa ter adquirido até hoje, o seu nome é ainda desconhecido para a maior parte do público. O filme mais mediático do realizador até à data – “Looper” – não quebrou sequer a barreira dos 200 milhões de dólares globalmente mesmo com o auxílio de um orçamento moderado, o favor da crítica, uma cara conhecida (Bruce Willis) e duas promessas à beira de vingar (Joseph Gordon-Levitt e Emily Blunt). Tudo isto pode não querer dizer nada para o comum dos mortais mas para um estúdio significa muito, neste caso que qualquer ideia que o autor possa vir a ter será vista e revista por dezenas de olhos até poder ser aceite, o que provavelmente acabará por não acontecer porque o seu poder de tracção é demasiado baixo, muito mais baixo do que o de Abrams. A seguir vem Colin Trevorrow, outro realizador na mesma situação. O que a Disney pretende com estas escolhas é pescar novo talento na berra (pouca sorte, Josh Trank) que possa contribuir com energia e ideias frescas sem pedir ou retaliar muito em troca. Mesmo sob essas condições, quantos realizadores não gostariam de gozar da oportunidade? Desse modo é possível assegurar a entrega de resultados coesos com a política interior que serão depois comercializados anualmente até ao dia em que as massas parem de procurar material que pense por elas. Que será nunca.

Digo eu.

 

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Sobre o Autor

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