Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte III

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

O casting é um dos poucos departamentos onde alguma vontade de inovar é sentida já que ao optar por uma panóplia mais variada de géneros, raças e (quiçá) orientações sexuais nos papéis principais é reflectida um pouco a mudança do panorama social desde os anos 70. A Disney tem sido uma das maiores impulsionadoras do movimento para diversificar o tipo de histórias que conta tal como os elementos a enaltecer dentro das mesmas. Por outra palavras: tirar cada vez mais o poder das mãos do Príncipe ariano da praxe e distribuí-lo por toda a variedade de membros que constituem a nossa praça. Esta é uma prioridade que está agora na berra mas não é propriamente nova. Sendo que o êxtase causado por “Frozen” – o estrondo crítico e de bilheteira que mergulhou o Mundo em repetições intermináveis de “Let It Go” – se deveu em parte ao louvor dado às protagonistas Anna e Elsa pelo bom exemplo que representam para crianças de toda a parte este teve direito a louvores de vitória social.

O que parece ter passado ao esquecimento é que entre ’89 e ’99, durante seu o período da Renascença, a companhia tinha já providenciado um rol de modelos que ajudaram a quebrar o estereótipo de mulher como “princesa” – antes da avalanche de sequelas desnecessárias ter borrado a pintura –  e deram um novo sentido à palavra dentro do cânone da companhia. Conseguiram-no ao apostar em personalidades coloridas mas realistas para as suas heroínas que popularizaram o que até então não se aplicava ao género dentro do mainstream americano: uma mulher como sujeito, não como objectivo ou objecto. Essa mentalidade trouxe-nos o que são agora ícones femininos da Animação no formato de personagens bem diferentes das protagonistas unidimensionais do passado. Bela prezava o conhecimento acima de tudo e acabou por encontrar o seu par na criatura que representava a antítese ao estereótipo do “Príncipe Encantado”, Nala possui o domínio físico e mental da relação e Esmeralda e Mégara, mesmo com um protagonismo mais reduzido, manifestam-se com um carácter sarcástico e forte que, mais que a sua beleza, define a sua capacidade de sobrevivência dentro de um mundo hostil. Esta cadeia atinge o seu auge numa das sequências finais de “Mulan” – também ele um dos melhores marcos desta era – quando o sacrifício e audácia da heroína homónima são reconhecidos com uma vénia – também ela simbólica – por parte das centenas de pessoas na cena, incluindo o Imperador (uma prática reservada apenas aos melhores). Mais que uma declaração sobre o valor intrínseco das mulheres e de como este se compara ao dos homens, estes contos prevalecem pois evitam na sua caracterização dar uso ao toque de condescendência extraordinária que confunde “falta de pontos fracos” com “força”, comprometendo-se sim em dar a cada figura principal uma mistela de qualidades e defeitos (vulgarmente apelidado de “personalidade”) que mesmo quando reflectido nos cenários mais absurdos ajuda à ligação entre personagem e espectador(a).

Com a popularização do arquétipo da strong woman – ou “mulher forte” – a música mudou de tom para trazer à pista sujeitos como Rey que se destacam pelo seu papel como bocal político e não como entidade cuja história deve prender a audiência. Rey peca não só por ser uma “Mary Sue” – um termo utilizado para designar uma personagem que apresenta níveis de excepção irrealistas dentro do contexto do enredo – mas igualmente por necessitar de afirmar o seu lado feminino com constante hostilidade para com quem lhe tenta estender a mão. Sendo que esta viveu a maior parte dos seus dias como orfã num planeta deserto sem poder contar com mais ninguém a não ser ela própria (uma origem que faz Luke Skywalker parecer a criança mais mimada de sempre em comparação) um carácter cauteloso e/ou hostil seria de esperar mas um que trata a mão que auxilia como um gesto extremo-patriarcal apenas por vir de um homem demonstra um nível de ignorância semelhante àquela que pretende criticar. A perícia que a heroína veio a desenvolver após anos e anos de colheita de sucata, permutas com negociadores desonestos e a ocasional escaramuça deixaram espaço em aberto para estabelecer um carácter mais elaborado enquanto o mistério à volta do seu passado em Jakku – embora com potencial para acabar por ser muito parecido com o de Luke em Tatooine – deixava o suficiente em aberto para desenvolvimento adicional nas sequelas. Ao invés disso somos presenteados com um produto dentro de um produto, um sonho molhado do neo-feminismo destinado a preencher uma data de caixas de uma lista que serve não o filme mas a imagem das pessoas por detrás dele que gastaram milhões numa glorificada declaração ao estilo “eu não sexista/racista/etc. porque tenho personagens no meu filme que…”. J.J. Abrams admitiu explicitamente que partiu com o objectivo de tornar a nova trilogia o mais inclusiva possível, o que não seria de todo uma má posição não tivesse esta relegado tudo o resto para segundo plano.

Voltando à comparação inevitável entre protagonistas, a diferença entre o manejo de um e do outro é tornada ainda mais notória pelas semelhanças que estes partilham. Quando no final de “A New Hope” vemos um dos maiores milagres de engenharia da Galáxia ser abatido por um piloto relativamente inexperiente até à data – com recurso a mais do que uns pozinhos de “magia do Cinema” – parece haver causa para debate à volta das mesmas críticas apontadas agora a Rey. No entanto há alguma legitimidade nesse momento já que ao longo do filme há uma preparação gradual que, entre referências às surtidas de Luke como piloto e atirador, a sua ligação com a Força e o eventual treino da mesma sob Obi-Wan, toca em certos pontos que tornam a cena menos irrisória de um ponto de vista cinematográfico. A própria inclusão do protagonista na esquadra que ataca a Death Star é algo que germina da necessidade extrema de pilotos por parte da Resistência pelo que mesmo aí George Lucas brinca com a ironia das circunstâncias para poder colocar a sua peça fulcral em jogo. A sequência não é mais do que a soma de vários acontecimentos felizes e o filme fica melhor na fotografia ao saber reconhecê-lo.

Rey, pelo contrário, vê tudo cair no seu colo quando a situação aperta e a sua condição de estrela principal requer que seja ela a descalçar a dita bota. A sua vida solitária como necrófaga de toda a tralha nas redondezas é usada como um placebo para a audiência aceitar a noção absurda de uma jovem com perícia especial para combate corpo-a-corpo, uso de armamento, pilotagem de vaivéns espaciais e, claro está, a Força. Mesmo um americano de meia-idade que conduziu toda a sua vida no seu país precisaria de uma boa dose de lições até dominar o pedal da embraiagem mas uns minutos é todo o tempo que Rey precisa para ultrapassar um novo obstáculo, sendo indiferente a complexidade, condições ou sentido do mesmo. Os dias em que Ellen Ripley precisou de fazer das tripas coração para sobreviver ao ataque do Alien terminaram – não é preciso evoluir se já se começa perfeita. Irónico como estes produtos de feministas de sofá se relevam tão vazias como as bonecas que estes tanto abominam. Em paralelo Luke precisou de treinar com 2 mestres Jedi para ao fim de 2 filmes poder aguentar 5 minutos em combate contra um Darth Vader mais interessado em mexer com as suas emoções do que lutar – e perder. A derrota era importante para abrir caminho à revelação devastadora que lhe sucede, o que coloca o herói no seu registo emocional e físico mais baixo que por sua vez dará à sua redenção via regresso triunfal um sabor ainda mais doce. Em “The Force Awakens” esse cartucho foi queimado ao estabelecer, para além do que foi já mencionado, que Rey e Kylo Ren se encontram já quase equiparados em termos de habilidades, o que não deverá mudar agora que ambos se preparam para treinar com os seus respectivos tutores. Contudo há um momento brilhante com a personagem que contrasta com o resto do seu desenvolvimento e exalta a máxima “less is more” – a cena do capacete. Depois de um árduo dia de trabalho que termina com mais uma usurpação por parte do seu chefe, os momentos em que Rey prepara o seu almoço e se delicia com ele com um capacete de piloto da Resistência na cabeça e um sorriso nos lábios dizem-nos muito sobre quem esta jovem é, as suas aspirações e aquilo que lhe proporciona paz interior. São estes momentos “Binary Sunset” que traz não só a subtileza em falta mas que também expõe a Humanidade da figura central que os grandes momentos falharam em enaltecer, tornando-a mais relacionável a um nível global sem recorrer a linhas de diálogo que caso contrário provavelmente viriam servir propósitos alheios à narrativa. Um filme melhor teria sabido capitalizar neles.

 

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Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.