Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte II

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

Todos aqueles que se opõem fervorosamente à carga de críticas apontada ao filme argumentam que a presença de indicadores semelhantes não faz deste uma cópia a papel químico mas sim uma homenagem aos clássicos que os fãs adoram. O que separa então os dois lados do argumento é a falta de concordância em relação a um grau de semelhança que muitos dizem estar apenas em discussão devido à popularidade de “The Force Awakens”. Será? Tal como já vimos, vários outros títulos célebres e/ou exemplos a seguir dentro do género repetem certas batidas ao longo do franchise sem que o mesmo dedo acusador lhes seja apontado. Os “Toy Story” acabam sempre por levar a aventura para fora do quarto para que possamos ver os brinquedos lidar com o exterior desconhecido. Em cada “Indiana Jones” a personagem homónima bate-se contra uma potência maior e melhor equipada na caça a um tesouro antigo e valioso. “Back to the Future” é a história de dois amigos que viajam no tempo para resolver problemas pessoais – por 3 vezes. Mesmo até as duas anteriores trilogias “Star Wars” seguiram um molde semelhante: órfão prodígio num planeta deserto acaba debaixo da asa de um ancião que lhe ensina as propriedades da Força, o elemento natural que lhe irá permitir combater as forças do mesmo Mal que o tenta aliciar a todo o custo. Então porquê só agora os dois pesos e as duas medidas?

A resposta mora num nível mais profundo do que estas “análises” vãs de uma frase única trazidas à baila por defensores tendenciosos do indefensável se atrevem a explorar por medo de revelarem as fendas no seu discurso. Na verdade, nenhum dos exemplos supracitados sofre de um caso de “mesmo-filmite” ainda que recicle algum do seu material. Vejamos o exemplo desta saga. Os protagonistas (Luke e Anakin) começam de facto em casas semelhantes mas cedo os dois são separados por duas jornadas distintas que reflectem os destinos espelhados que os aguardam. A história do pai é uma de esperança traída pela sedução do lado Negro (não por poder mas por amor) enquanto a do filho lida com a perseverança contra o aliciamento por parte do mesmo inimigo (não por amor mas por poder). A história de Anakin é trágica (opiniões sobre as prequelas à parte) pois retrata o desfolhar gradual de um símbolo da esperança num futuro melhor desde o seu começo humilde repleto de idealismo até à derradeira decisão que vê o pouco de Skywalker que lhe resta dar lugar ao mais maléfico Darth Vader. Luke tem o percurso mais cénico do herói comum, começando (literalmente) do mesmo sítio do seu pai e indo acertando em todas as decisões em que este errou até ambos se encontrarem pela última vez na sala do trono do Imperador. O duelo final de “Return of the Jedi” reúne os ingredientes necessários no mesmo espaço para que a interacção entre as três personagens afirme definitivamente o seu verdadeiro lado, colocando o ponto final perfeito na história dos Skywalker e do Império.

O reacender dessa contenda torna-se não só irrisório como indesculpável quando se verifica o quanto a trama deste filme se aproxima à do original, ao ponto de ser possível alternar entre a sinopse de uma e outra com uma mera alteração de substantivos:

 

“O filme começa com o assalto impedioso por parte do Império da Primeira Ordem à nave vila aliada à Rebelião Resistência onde, entre outros, se encontra a figura proeminente da Princesa Leia de Poe Dameron, que consegue esconder e enviar informação vital numa unidade R2 BB-8 antes da sua captura. Um orfão chamado Luke Uma orfã chamada Rey vive em relativa isolação no planeta deserto Tatooine Jakku onde divide os seus dias  entre o trabalho manual com mecânica e a ânsia por uma vida melhor. R2D2 BB-8 despenha-se em Tatooine Jakku – assim como o apreensivo e desastrado C-3PO Finn – na tentativa de fuga às forças do Império da Primeira Ordem para salvaguardar a informação que carrega. Luke Rey encontra R2D2 BB-8 e, após um começo tremido, decide ajudá-lo a cumprir a sua missão. As forças do Império da Primeira Ordem cedo encontram o grupo, que consegue escapar à justa na Millenium Falcon. Cabe então ao velho Obi-Wan Kenobi Han Solo, figura proeminente da última Grande Guerra, revelar a verdade sobre a Força, agora caída em esquecimento. Cedo depois o grupo descobre que o Império a Primeira Ordem detém uma arma do tamando de uma lua planeta capaz de destruir planetas sistemas inteiros de uma só vez. Durante o ataque a esta construcção megalómana, o sith Darth Vader Kylo Ren mata o mentor de Luke Rey. Mais tarde será revelado que Vader Kylo é na verdade o pai primo (?) de Luke Rey que foi em tempos atraído pelo lado negro da Força. Ele actua sobre o comando da misteriosa figura holográfica do  Imperador Palpatine Supremo Líder Snoke, um mestre sith.  Ao longo da batalha as habilidade latentes de Luke Rey florescem – acabando por ser decisivas – levando mais tarde à busca de outro planeta longínquo onde um grande guerreiro Jedi vive em exílio: Yoda Luke.

 

Não obstante a passagem de 40 anos certas pequenas falhas parecem ter ficado ligadas ao ADN “Star Wars”, a primeira sendo o tratamento da passagem de testemunho entre o passado e o presente. É bem provável que em ’77 George Lucas não tivesse uma ideia clara do que seria a História da galáxia antes dos Skywalker se terem tornado o centro das atenções pelo que a direcção vaga com que são introduzidos certos termos  é compreensível e não deixa de funcionar no contexto do primeiro capítulo. Tivesse “Revenge of the Sith” aproveitado melhor a oportunidade para alinhavar certos factos de forma a evitar discrepâncias na trama com o Passado agora estabelecido, podia ser atribuída uma justificação mais sólida a alguns porquês. Não foi isso que aconteceu em 2005 e, 10 anos depois, a táctica não muda. Tal como a descrença na Força e o esquecimento dos Jedi parecem acontecer demasiado abruptamente no espaço de duas décadas que separa as prequelas da trilogia original também a passagem de 30 anos até “The Force Awakens” mostra sintomas associados a períodos de tempo mais longos. Mais uma vez, um conflito que afectou a galáxia inteira caiu no esquecimento em menos de uma geração, o que na nossa realidade seria como se toda a gente que viveu a maior parte dos anos 90 não reconhecesse hoje os Backstreet Boys ou o elenco de “Friends”.

Neste caso Leia, Han e Luke são a Rachel, Ross e Joey que não vingaram. A única mulher do clã Skywalker (ou será?) vive os seus dias a coordenar as investidas da resistência contra o Império que permitiu ser reerguido e parece continuar alheia ao uso da Força, o seu irmão desapareceu após ter ficado ligado a um ataque a uma colónia de jovens aprendizes (tal pai, tal filho) e Han decidiu por bem voltar à vida de contrabando agora que Greedo e Malcolm Reynolds já não o podem importunar. Tal como Yoda e Obi-Wan antes deles, a facilidade com que as maiores figuras daquilo que é basicamente a Segunda Guerra Mundial no Espaço conseguem fugir ao mediatismo de que são alvo por parte de numerosos sistemas de planetas que lhes devem a liberdade é estonteantemente fácil. Esqueçam Rachel, Ross e Joey: experimentem Patton, Churchill e Eisenhower. Se ainda hoje estes apelidos carregam uma magnitude apenas ultrapassada pela imagem daqueles que representam, porque razão é que os nomes Solo e Skywalker parecem não provocar o mesmo efeito? Apenas Leia reteve algum do seu protagonismo com a sua promoção a General da Resistência mas, já como havia acontecido na trilogia original, o seu carácter forte é desprezado em prol de todas as outras personagens dando um significado vazio ao seu papel como líder. A própria Millenium Falcon, o Enola Gay que destruiu a última Death Star pondo assim fim à tirania do Império, enferruja agora debaixo de um calor abrasador e é apelidada como “sucata” (outra vez).

No entanto nenhum caso de negligência é mais flagrante do que o de Han Solo. Não é novidade que era o desejo de Harrison Ford despedir-se da personagem em “Return of the Jedi”, ideia essa que chegou mesmo a fazer parte dos planos iniciais para o filme. De um ponto de vista de evolução de personagem faria todo o sentido vê-lo sacrificar-se altruísticamente pelos seus amigos pois esse era o Han Solo que tinha vindo a ser lentamente revelado por debaixo do exterior fanfarrão e arrogante que conhecemos em “A New Hope”. Em “The Force Awakens” a inclusão desse momento – ainda que seja uma das melhores cenas do filme – não produz o mesmo efeito pois incluí-lo logo no primeiro capítulo de uma nova aventura não permite o desenvolvimento da mesma carga emocional que havia sido reunida anteriormente. Ver o intrépido piloto morrer na sua juventude teria sido um choque mas um final digno caso tivesse atingido todas as notas poéticas. 30 anos depois, ao vê-lo correr quase a passo pela sua nova nave de contrabando enquanto monstros destroem tudo à sua volta, apercebemo-nos que após vários momentos de glória e redenção pessoal Solo voltou à casa de partida, agora ainda mais derrotado e miserável, tornando aquele que devia ser o seu acto mais nobre num golpe de misericórdia para uma velha lenda. A reacção geral corrobora este parecer já que num mundo onde a morte de uma ou outra personagem em “Game of Thrones” – um franchise bem mais jovem e pequeno em comparação – provoca imediatamente a partilha em massa de textos, vídeos, relatos, etc. seria de esperar que a despedida de alguém tão icónico como Han Solo entupiria tudo o que é rede social bem antes do primeiro fim-de-semana de sessões ter terminado. Nada. A maior das montanhas pariu o mais minúsculo dos ratos. Harrison Ford continua a não ter sorte em enviar os seus papéis mais icónicos para a reforma.

É a hora de novos xerifes na galáxia.

 

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