Sobre Star Wars: The Force Awakens… – Parte I

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Este texto contém spoilers do filme Star Wars: The Force Awakens

 

Dez anos depois da tão malfadada trilogia de prequelas ter deixado a veia cinematográfica do franchise em modo de repouso, “Star Wars” está de volta em força no grande ecrã e nas montras de tudo o que é estabelecimento comercial. Desde a sua mudança de casa em 2012 para longe das mãos do seu criador George Lucas – na mesma altura em novos filmes foram anunciados – o burburinho dedicado ao mundo dos Jedi e dos sabres de luz foi alimentado a pipeta pelos leves mas constantes updates da maior e mais agressiva campanha de marketing desde a idade de ouro de Hollywood. Aos poucos o ambiente começou a ficar preenchido pela aura febril de todas as coisas “Star Wars” e par alguém que nunca havia sido um fã da saga esse preenchimento cedo passou a saturação. Ver Kylo Ren, Rey e companhia por toda a parte em toda a paragem de autocarro, montra, outdoor, anúncio publicitário, fundo de site e página de rede social foi semelhante à experiência de ser bombardeado pelas fotografias de uma ex-namorada com a qual nos separámos de forma desagradável. Contudo a precisão exímia da epidemia fez com que esta acabasse por transbordar de grupo para grupo até atingir aqueles que, tal como eu, nunca foram fãs da saga e encaravam o lançamento do 7º capítulo com moderada atenção. Ouvir a música de John Williams acompanhar o voo da Millenium Falcon foi o golpe de misericórdia que pôs fim a esse sentimento. Vislumbrava-se agora uma vontade que não estava lá antes e “The Force Awakens” passou de um “Linda Reis” a um “Gustavo Santos” na escala de interesse. Não muito depois, ainda a medo, o mal ficou feito: o bilhete foi reservado e começou a contagem decrescente para o dia do Despertar.

“The Force Awakens” não tarda em assegurar a audiência sobre que filme estão a ver, dando início às hostilidades com uma cópia a carvão da abertura do episódio IV, o primeiros de muitos “empréstimos” levados a cabo pela equipa criativa (passando a expressão) sob o pretexto de cimentar o novo ao “prestar homenagem” ao velho. Tendo em conta o estado em que Lucas deixou o franchise com os 3 últimos filmes e a escolha subsequente de J.J. Abrams para realizador/cabecilha da fase de arranque do projecto seria de esperar uma aversão significativa a riscos mas mesmo os mais cínicos teriam dificuldade em prever o grau de preguiça presente em “The Force Awakens”. Onde se deveria ter sentido o toque distinto de uma nova geração de artistas vislumbra-se apenas o içar de uma vela antiga e a esperança que o sopro do vento da nostalgia faça o resto. Num cenário onde o número de possibilidade ao dispor dos guionistas é literalmente do tamanho do Universo era mesmo necessário seguir as mesmas duas facções pela terceira vez para que conseguíssemos abraçar esta nova etapa? É óbvio que não mas isso implicaria adulterar demasiado a fórmula dourada que põe o pão na mesa. Todos sabemos o que aconteceu da última vez.

Não era suficiente que este fosse um sucesso comercial (algo que nunca esteve realmente em causa tendo em conta a força ainda soberana da marca), era uma absoluta necessidade que trouxesse também a confiança do público de volta à propriedade. Um espectador satisfeito é um espectador mais disposto a investir em algo como a nova figura de C-3PO cuja existência parece apoiar-se na mudança de cor do seu braço, alteração essa que nunca é justificada no contexto do filme mas que de certeza arrancou aplausos numa reunião de marketing. Compreende-se, é um blockbuster e o abandono da actividade cerebral à porta é esperado mas isso não desculpa a total falta de subtileza para com quem foi à sala de Cinema à procura de entretenimento e não de ideias para as compras natalícias. Para todos os outros houve Mastercard. “São 20 euros, por favor.” tcha-tching Lá em cima há um CEO que sorri.

Ao utilizar alguns, muitos ou mesmo quase todos os elementos que deram às entradas mais adoradas esse estatuto, a probabilidade de despoletar uma reacção positivamente saudosista no público aumentava, traduzindo-se numa maior empatia para com esta nova etapa e, por conseguinte,  numa maior vontade de demonstrar esse carinho via alívio da carteira. 2015 foi um ano que viu vários clássicos regressar com resultados no mínimo acolhedores, grupo esse onde aqueles mais badalados – “Rocky”, “Mad Max” e “Jurassic Park” – partilham todos da mesma prática de canalizar uma menor ou maior parte do seu passado para ajudar ao arranque das respectivas novas eras. De um ponto de vista estritamente comercial nunca a expressão “Em equipa que ganha não se mexe” fez tanto sentido desde o 11 inicial do Porto de André Villas-Boas. Onde “The Force Awakens” e outros falham na aplicação desse princípio é no grau de dependência a ele associado para desenvolver tudo desde pequenas referências no diálogo a sequências inteiras de carácter central para a trama.

Não é difícil encontrar semelhanças entre “Mad Max: Fury Road” e um ou mais dos seus 3 antecessores já que em todos figuram vários elementos comuns: uma Terra desolada, a queda da Sociedade, a figura solitária e errante de Max, a mensagem pró-Natureza/anti-industrial e a extravagância que advém da escassez de recursos, entre outros. No entanto nenhum deles é específico para lá do ponto onde o seu uso não sirva apenas para situar o espectador no mesmo cenário onde estão inseridas as outras aventuras do franchise o que cria um sentido de coesão de filme para filme que atribui uma identidade visual ao mundo de “Mad Max”. A partir daí cada entrada fica encarregada de contar a sua própria história com recurso a estas peças. Não é todos os dias que o mesmo actor pode interpretar dois vilões principais em filmes distintos sem que a maior parte do público dê conta.

Mesmo outros exemplos com um grau de plágio bem maior que o filme habitual tais como “Black Swan” (o delírio de Darren Aronofsky mais que inspirado em “Perfect Blue”), “Reservoir Dogs” (a.k.a. “City on Fire”), “The Lion King” (uma relíquia com mão japonesa e de Shakespeare) e “Avatar” (“Dances with Wolves” menos Kevin Costner) conseguem suceder onde o blockbuster da Disney falha. De uma forma ou outra, há uma fracção de originalidade e personalidade artística que consegue escapar pelo meio das “homenagens” ao material de origem que confere à sua “cópia” um degrau de separação suficientemente grande para deixar transparecer onde termina o trabalho de um artista e começa o de outro. O trabalho de J.J. Abrams, pelo contrário, é um mero eco da aventura concebida por George Lucas, também ela nunca acima da sua quota de inspirações, o que fazia deste um momento oportuno para adicionar algum cloro a esta piscina de água salobra por parte de um visionário ao nível de David Fincher, James Cameron ou Alfonso Cuáron. A nova série de filmes “Star Trek” carregam parte da culpa nesta escolha pois, mesmo sendo apenas um veículo medíocre para as personagens da série original num contexto mais moderno com um leque de efeitos especiais mais grandioso e a ocasional fêmea em pelota, conseguiram atrair uma porção generosa do público para aquilo que eram adaptações de um franchise de TV já longe dos seus dias de glória. Algo fácil de fazer para um público fácil de agradar. Ao vislumbrar tais resultados não é difícil de perceber a lógica por detrás do casamento entre Abrams e a Disney:  ele tem o estatuto que lhe permite ser reconhecido mas não altamente controlador e ela adora o baixo risco para surpresas negativas que isso acarreta, perfeito para a criação de uma linhagem de anúncios publicitários de 2 horas mascarados de Cinema.
 

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Sobre o Autor

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