Quem tramou Josh Trank?

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O acto de bater no megalómano sistema de estúdios de Cinema americano é algo que uma generosa porção de seguidores destas andanças – eu incluído –  tem tendência a executar ad nauseam como mecanismo ventilador de frustação para com o estado actual da indústria. Por vezes é apenas um sintoma de intitulação não merecida. Em outras ocasiões é apenas uma oportunidade para nos regozijar-nos com a podridão que vaza da imagem limpa e infalível desse neo monte Olimpo. Este é um desses casos. Se estiveram minimamente ligados às notícias do mundo do Cinema durante as últimas semanas, certamente terão ficado a par do lançamento desastroso do mais recente “Fantastic Four”, uma das franquias Marvel que o estúdio Fox insiste em não deixar regressar a casa. Depois de 3 tentativas falhadas de estabelecer um Universo com o o nível de adoração (e rentabilidade) ao nível do franchise-irmão “X-Men”, o estúdio decidiu apostar num realizador jovem, cheio de ideias e vindo do mundo das produções indie, uma prática comum em blockbusters mais recentes. O seu nome era Josh Trank e assim começou o seu calvário.

Depois do sucesso de “Chronicle”, o mundo era dele. Para além de ter sido escolhido para tomar conta de um enorme franchise da Fox foi também, pouco tempo depois, anunciado como um dos realizadores responsáveis por um capítulo de uma das mais importantes grandes produções de sempre – “Star Wars”. Nada mau para um tipo com apenas 1 filme – contem-nos: 1 – no seu curriculum. A sua ascensão meteórica foi atribuída por alguns a nepotismo, já que o seu pai é um documentarista veterano e galardoado pela Academia, mas um par de oportunidades com um significado tão expressivo quanto estas, conseguidas em tão pouco tempo, seria impressionante mesmo para a carreira de um familiar directo de George Lucas ou Steven Spielberg. Há também que considerar o impacto de uma decisão deste tipo na mol de fãs – a.k.a. a fonte de rendimento – e o quanto um grupo de produtores/investidores – a.k.a. o destino do rendimento – reflecte por norma até estar convencido que o seu investimento está em boas mãos. Uma coisa é deixar o nosso rebento “brincar” com um punhado de milhões de dólares num projecto que lhes é querido e cujo sucesso comercial é irrelevante ou deixá-los participar num grande projecto numa posição de importância minúscula; outra é deixá-lo controlar o destino de uma franquia com o valor de biliões. Depois do ricochete causado pelas prequelas a Disney certamente também não estaria para brincadeiras na hora de mitigar riscos, muito menos no que toca a uma peça tão fulcral como a cadeira de realizador.

Na realidade o cenário mais provável é o do trabalho por detrás da câmara em “Chronicle” ter surpreendido as pessoas certas na altura certa e as portas foram-se abrindo. A dinâmica do grupo de jovens no filme espelha também o tom familiar e dos “Fantastic Four”, colocados num cenário mais natural, pelo que a decisão certamente passou também por aí.  É também geralmente mais fácil pagar e controlar um novato que poderá estar mais receptivo às vontades do estúdio se entreter a ideia de quão grande será o salto da sua carreira assim que o seu nome ficar associado a uma produção de larga escala. Foi esta a fonte do problema para ambos os lados: o estúdio meteu o bedelho vezes a mais e o realizador mostrou-se errático, enclausurado, desobediente, foi responsável por danos materiais e apontado por um número generoso de fontes como a principal fonte de atrito no local de filmagens, fazendo do seu caso de “newbie meets studio” a excepção que prova a regra. É por isso algo irónico que Colin Trevorrow, que agora se prepara para substituir Josh Trank como responsável por “Star Wars IX”, tenha tido um percurso profissional extremamente semelhante, salvo o pequeno pormenor do seu 1º blockbuster – “Jurassic World” – ter gerado uma receita global gigantesca no mesmo ano em que “Fantastic Four” falhou tremendamente. Ao contrário do que o foco unilateral de palavras pareça fazer crer a informação feita disponível ao público (por meios oficiais e não-oficiais) é conflituosa pelo que é necessário dissecá-la para perceber quem realmente matou o filme e, caso o realizador não seja o único constituinte nesse rol, quem quis tramar Josh Trank.

É fulcral no entanto perceber que embora esse fogo de artilharia que se abateu sobre o realizador quase do dia para a noite pareça ser exageradamente severo, classificá-lo como injustificado seria igualmente erróneo. A catadupa de feedback negativo que o aponta como a figura central de discórdia no local de filmagem pode ter sido – e provavelmente foi – exagerada mas o número de relatos que corroboram esta noção é demasiado grande para a classificar como um mero rumor. Outros podem ter cavado e preparado a cova mas a primeira pá de terra da campa de Josh Trank foi retirada pelo próprio. Talvez pela pressão, talvez pelo ego, talvez porque é apenas o seu feitio. Encontrar uma resposta directa e conclusiva com a informação disponível até agora será difícil por uma variedade de motivos: a (falta de) fidedignidade de algumas fontes, o comportamento aparentemente errático de Trank por volta da data de lançamento, o carácter evasivo do elenco e o esforço do estúdio por “calar” toda a gente envolvida na produção, entre outros. No entanto tudo aquilo que foi dito, mostrado e discutido em público é o suficiente para encontrar buracos na história oficial – que pinta o pior dos retratos do realizador – e deixar uma versão mais próxima da realidade à distância de o resolver de um puzzle. Na tampa da caixa a figura faz adivinhar um culpado ainda maior: um estúdio chamado 20th Century Fox. O seu histórico no que toca a filmes de super-heróis não é o melhor: de 12 filmes produzidos entre 2000 e 2015, todos excepto 4 vieram, viram e desapontaram a nível comercial, crítico ou ambos. Desses 4 títulos (todos eles pertecentes à saga X-Men) 3 foram dirigidos e 1 produzido pelo mesmo homem – Bryan Singer – o que trocando por miúdos significa que mesmo para acertar no alvo apenas 33% das vezes a Fox precisa de telefonar sempre ao mesmo home mesmo para garantir essa média negativa é preciso que a mesma pessoa esteja sempre disponível para dar uma mãozinha.

Quando isso não acontece surgem decisões como coser a boca do Deadpool, obrigar Jessica Alba a esbranquiçar-se via um duvidoso trabalho de caracterização, atribuir ao Wolverine a omnipresença de um Minion ou deixar o guião de “Elektra” chegar a filme. Talvez essa seja uma nova política do estúdio desde o seu envolvimento com “Alien 3”, outra produção famosa pela forte interferência por parte do lado corporativo nomeadamente a nível do guião. Diz quem leu o primeiro esboço guião de “Fantastic Four”, na altura desenvolvido por Jeremy Slater, que este era algo muito diferente daquilo que chegou aos cinemas no Verão passado (alguém não tardou em corroborar), semelhante ao modelo Marvel de tom ligeiro e cenas em grande escala. A direcção do projecto muda com a chegada de Simon Kinberg e Matthew Vaughn, dois nomes que haviam já feito parte de projectos do género dentro do estúdio, e que foram certamente convocados em resposta aos primeiros relatos negativos vindos das filmagens. O que alguém deveria ter feito era certificar-se era que os novos capatazes tinham o mesmo filme em mente – o que não foi o caso. Muita gente não demonstraria tão pouco cuidado num emprego que as recompensasse apenas com um ordenado mínimo português mas uma divisão inteira de uma companhia multimilionária estava a fazê-lo com uma brincadeira que à data tinha um alegado custo de 120 milhões de dólares. Isto antes de adicionarmos o valor de novas filmagens (que sabemos ser verdadeiras ao olhar para o cabelo de Susan Storm na versão lançada, por exemplo) e da publicidade, que por si só costuma ter um peso de dezenas – por vezes centenas – de milhões de dólares. Esta mostra de incompetência catalisou então a conversa, mais do que a destruição de uma casa ou uma relação amarga com actores, de que a Fox produziu um “Fantastic Four” pela quarta vez (se contarmos com a versão abortada de 1994 produzida por Roger Corman) apenas para manter os direitos cinematográficos longe da Marvel.

No entanto essa prática parece ser apenas uma (outra) manifestação de estupidez colectiva por parte de alguém que valoriza teimosia acima de oportunidade de negócio. Dos 3 filmes lançados nenhum alcançou grande sucesso comercial e o último perdeu mesmo uma grande parcela do seu investimento. É curioso portanto que, mesmo com a Marvel a parar com a produção de novas BDs e brinquedos baseadas no Quarteto Fantástico, parece ser a Fox a companhia que mais ódio reserva para com a propriedade. No caso da Sony, por exemplo, faz todo o sentido que exista uma resistência à venda dos direitos de uma personagem como “Spider-Man” enquanto o rendimento de cada filme seja mais aliciante do que o valor dessa potencial venda. No seguimento dessa lógica a mesma companhia decidiu partilhar os direitos da personagem com a companhia-mãe após as últimas entradas protagonizadas por Andrew Garfield e Emma Stone não terem gerado a quantidade de receita esperada. Agora existe o potencial da Marvel de finalmente trabalhar com uma versão live-action de uma das suas personagens mais populares e da Sony ver a “sua” personagem reinventada e com potencial para gerar negócio no futuro. Um caso básico de quid pro quo. No outro lado do espectro a Fox vai demonstrando o tipo de irracionalidade que levanta perguntas sobre quais são as suas verdadeiras intenções para um franchise que não conseguiu gerar nada para além de chacota desde há mais de 20 anos. Entretanto, a máquina de Hollywood cria mais um bode expiatório, há uma passagem de bestial a besta, os cães ladram, a caravana passa e a competição ri-se. O que irá acontecer quando o trio maravilha “Jackman-Stewart-McKellen” deixar de aparecer e de ser a melhor parte dos novos filmes da saga “X-Men”? Aí será preciso uma espécie de Christopher Nolan para retirar o nome da marca do buraco e um estúdio que não tente fazer o filme por ele. Até esse dia espera-nos apenas o excremento.

Digo eu.

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.