Os Miseráveis

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A 28 de Fevereiro do presente ano o comediante Chris Rock tomou o palco do Dolby Theatre na qualidade de anfitrião dos Oscars para entregar um discurso esperado por muitos. Ainda na crista da indignação ligada ao painel 100% caucasiano de actores nomeados para os prémios, a noite adivinhava-se quente e a escolha de Rock – feita antes do anúncio dos nomeados e consequente controvérsia – surgiu como acaso feliz para aqueles que procuravam ver o “orgulho branco” da elite do Cinema exposto no seu evento mais mediático. De início a fim as intervenções do comediante corresponderam ao esperado, focando-se no tema da desigualdade da indústria e a necessidade de mudança rápida e drástica, e fizeram-se acompanhar por um misto de rábulas e momentos sérios protagonizados por outros convidados. Nas cadeiras a audiência maioritariamente caucasiana ia acenando de sorriso amarelo em riste para os seus compinchas “de cor” – um termo da época da segregação agora usado em prol do politicamente correcto – como quem pede perdão por uma série de chicotadas emocionais que não se recordava de dar. Findas as hostilidades, o saldo da noite compôs-se de duas grandes conclusões: 1) não ficaria mal a Hollywood colocar algum cloro na sua piscina de talento e 2) a indústria ainda está longe de perceber o que isso é.

Ao longo da cerimónia não só ficou claro que a agenda de diversificação do sistema apoiada por uma porção vocal da comunidade afro-americana tem em vista apenas uma etnia – a sua – mas também que esta não está alheia à falta de sensibilidade que se orgulha em combater. Ainda assim, o discurso de Chris Rock não foi o mais tendencioso. Aquilo que podia ter sido um banho de sangue das hostes liberais teve vários momentos onde o artista tanto realçou casos de ambos os lados do conflicto de forma jocosa como introduziu alguns pontos interessantes para eventual discussão (a possibilidade de mais categorias mistas, por exemplo), extendendo um pouco alguns dos pensamentos expostos no seu ensaio de 2014 para o Hollywood Reporter. Rock baseou uma carreira inteira na sua maneira muita própria de usar o humor para falar sobre questões sérias logo este nível abordagem não foi uma surpresa.

No entanto, ao mesmo tempo, outras intervenções que acabaram por contradizer a sua lógica em nome do sensacionalismo e da demagogia passaram em claro. A conclusão do seu discurso de abertura girou à volta de #AskHerMore, uma hashtag que visa promover a prática de formular outras questões dedicadas a mulheres nas passadeiras vermelhas para além daquelas que se foquem o seu vestuário e aspecto físico em geral. Rock exclama meio a sério que se as estrelas assim o pretendem devem apostar em vestimentas mais homogéneas como as dos homens, já que a escolha clássica de “fato preto – camisa branca” há muito se tornou tépida demais para perguntas nessa veia. Independentemente de opinião pessoal sobre o assunto, é normal que o mesmo homem que há momentos atrás havia defendido que um duelo De Niro vs. Streep na corrida à estatueta seria 100% plausível afirme momentos depois que uma actriz não devia ficar surpreendida por ser definida pela sua toilette? Mais tarde, o mesmo mestre de cerimónias que apelou ao cessar de objetificação e divisão racial introduz uma piada cuja punchline é a entrada em palco de um grupo de crianças que interpretam contabilistas asiáticos e judeus. A piada acabou por atrair a sua porção de controvérsia mas algo me diz que se Neil Patrick Harris tivesse tentado algo semelhante com crianças afro-americanas vestidas como jogadores da NBA e da NFL a cratera deixada pelo feedback seria bem maior.

Este fenómeno não é exclusivo a apenas uma minoria. No mais recente especial de stand-up de Ali Wong (“Baby Cobra”) a crítica da praxe ao privilégio branco surge logo nos minutos iniciais apenas para ser seguida pela revelação de que tanto a comediante como o seu marido (ambos de descendência asiática) cresceram num ambiente de riqueza bem acima do alcance do cidadão comum. Não obstante o facto de serem os asiáticos o grupo etário mais bem pago, em média, nos EUA hoje em dia, a negligência em reconhecer o próprio privilégio económico para efeitos de uma piada que faz mais pela instigação do que pela comédia é apenas um exemplo do mecanismo de ataque que vai mordendo os calcanhares a uma maioria que se deixa ficar. No que toca a disparidade em termos de representação já me alonguei sobre o assunto noutro texto mas o cerne da questão continua e continuará a ser o mesmo: lucros. Numa altura em que os principais sectores de consumo são maioritariamente caucasianos e possuem um dos maiores poderes de compra – agora ameaçado pelo crescimento do mercado chinês –  é perfeitamente normal que os estúdios queiram maximizar a sua hipótese de sucesso cedendo ao gostos da maior porção do seu público (enquanto ele aparece). O mesmo princípio é aplicável à disparidade da representação entre homens e mulheres já que um poder de compra médio mais baixo no feminino se traduz numa aposta menor nos interesses específicos desse público e na repetição de fórmulas já testadas e aprovadas.

Um problema que germina dessa escola de pensamento (para além da segregação parcial de grupos inteiros de mercado) é quando o contra-movimento que a renuncia procura incluir e preservar o corpo e voz de toda a minoria racial, sexual, etc. nas suas produções a todo o custo, alheando-se a tudo o resto. Não nos podemos esquecer que o objectivo primário deste material é entreter o público e não ser usado como um veículo para promover uma agenda (embora ambos não sejam nem nunca tenham sido mutualmente exclusivos). Em todos os campos artísticos, uma boa parte daquelas que são consideradas as melhores obras de sempre conciliam a arte com algum tipo de mensagem/comentário mas apenas aquelas que valorizaram a universalidade do lado artístico ultrapassaram a prova do tempo para fazer parte da História. Caso contrário seriam reconhecidas por outro nome: propaganda.

Tomemos o exemplo de uma das mais populares e influentes franchises do momento: “Game of Thrones”. À deriva no mar de lunáticos, psicopatas e oportunistas dos livros encontram-se dois tipos relativamente normais em comparação: Loras Tyrell e Renly Baratheon. Ambos partilham várias características mas a mais fulcral para o tópico em mãos é a de que são personagens homossexuais dentro de um universo fundamentalmente medieval onde nem mesmo a nobreza pode viver abertamente. Nos livros a falta de um narrador omnisciente faz com que a menção directa da orientação sexual das personagens seja evitada não só para manter a ideia de que o narrador actual (outra personagem) está alheio a essa informação mas também para nos dar a nós, como leitores, a oportunidade de conhecer os homens para além dos amantes. Na série a aposta na caracterização foi abandonada e substituída por um sistema de etiquetas que colou em Loras e Renly um grande e gordo “GAY!” que transformou duas potenciais boas alternativas aos típicos power players da história em mecos narrativos cuja maior parte do protagonismo passa pelas suas escapadelas sexuais e o drama que delas advém. Ao dar tanto relevo a essa particularidade – com a melhor das intenções, tenho a certeza – acabaram por representá-la como um instinto depravado sediado em luxúria, demonstrando que o desejo de ser inclusivo pode ser quase tão destrutor para a imagem daquilo/daqueles que pretendemos defender como a intolerância e o preconceito.

Outra prática problemática agora em voga é a de “actualizar” personagens e histórias clássicas para a realidade do século XXI, o que trocado por miúdos significa substituir o passado profundamente branco e masculino da pop culture por uma alternativa mais multicultural. Em teoria é uma perspectiva excelente pois indica que a arte lidera a marcha para a união entre todas as comunidades mas a realidade não se revela assim tão colorida. Por cada Miguel O’Hara, Miles Morales, Imperator Furiosa, “Power”, “Scandal”, “Jane the Virgin”, “Fresh Off the Boat”,”Empire” ou “Hamilton” – todos eles exemplos de material original que coloca grupos anteriormente desprezados em posições de destaque – há sempre a outra face da moeda que aposta na usurpação directa de uma personagem ou propriedade, geralmente para exercer a actividade de “política primeiro, arte depois” que foi discutida acima, tal como a versão feminina de Thor (que manteve o mesmo nome saberá Odin porquê), uma série recente de Wonder Woman e as mudanças a Wally West, Jimmy Olsen e Perry White, entre outros. Estas são desprezíveis pois acabam por alterar não só uma imagem estabelecida há anos (por vezes décadas) mas também, por vezes, com a sua personalidade. Se queriam mesmo fazer Jimmy Olsen evoluir de um jovem ruivo, sardento, franzino, acanhado e trapalhão para um afro-americano musculado que destila confiança e sensualidade, porque não criar uma personagem inteiramente nova e começar um novo legado a partir daí? Ter John Stewart e Sam Wilson a tomar os cargos de Green Lantern e Capitão América, respectivamente, é uma óptima maneira de efectuar essa passagem de testemunho sem ir contra o estabelecido e introduzir novo sangue nas suas guelras pois vê novas personagens tomar uma nova identidade que é totalmente impessoal. Ter Jane Foster a usar o nome de Thor é preguiçoso, pedante, e estúpido.

No campo do Cinema duas notícias relacionadas com o tópico fizeram correr mais tinta do que qualquer outra nos últimos tempos. A primeira refere-se a James Bond. Mal Daniel Craig começou a insinuar a vontade de abandonar o papel durante a campanha promocional de “Spectre” instalou-se o burburinho pela Internet fora sobre quem ia e devia substituí-lo no papel. Cedo os nomes de Idris Elba e Emily Blunt começaram a ganhar tracção, alimentados pelo argumento de que esta seria uma óptima oportunidade para os produtores do franchise fazerem uma declaração sobre a indústria em termos sociais. O próprio Elba era o favorito de Amy Pascal, executiva de topo da Sony, segundo e-mails que foram divulgados aquando do hack aos e-mails da companhia em 2014, pelo que as estrelas pareciam alinhar-se para o sonho do primeiro Bond não-branco. Caso viesse a acontecer seria um dos maiores exemplos de como pessoas podem ficar tão vidradas na opção mais fácil que nem sequer consideram a alternativa que poderia funcionar tanto a seu favor como a favor da companhia que procura uma nova oportunidade de negócio. Não, James Bond nunca deveria ser representado por ninguém que não fosse um homem caucasiano porque foi essa a imagem idealizada pelo autor e que foi popularizada durante décadas. Contudo, porque não fazê-lo com outros agentes “00”?

Fãs da saga devem recordar-se da cena em “Thunderball” onde James Bond se junta a outros agentes “00” num briefing que acabaria por ditar a maior porção do protagonismo dos mesmos nos filmes salvo raras excepções (ex: Sean Bean em “Goldeneye” e Javier Bardem em “Skyfall”). Num mundo onde a maior máquina de vender bilhetes vem de um universo cinematográfico porque não desenvolver um que tem os pés mais assentes na terra e permite a inclusão de novas caras sem grande entraves? Tendo em conta a idade avançada de Craig o reboot à personagem está próximo, o que seria uma boa altura para introduzir o/a agente que traria consigo a noção de um MI6 mais populoso e que, por exemplo, acompanharia Bond numa missão na qualidade de novato/a e que veria o seu estatuto “00” ser-lhe atribuído no final do filme. A partir daí poderiam ser produzidas novas aventuras onde poderíamos ver o novo nome de código “00x” trabalhar sozinho/a e perceber como a sua personalidade difere da de Bond. É claro que daí podia advir a questão da “etiquetagem” abordada acima (“o agente hispânico”, “o agente homossexual”, “a mulher agente”, etc.) que seria da competência da equipa creativa escolhida evitar assim como a criação de um punhado de cópias que só bebe Martinis e tem mais quilometragem sexual que a casa de um reality show. As possibilidades são vastas pelo que esta seria uma oportunidade de ouro para combinar representação com diversidade. Mais tarde – quem sabe – Bond desapareceria de cena e um desses agentes poderia até tomar o nome de código “007”. Pessoalmente acho esta perspectiva bem mais interessante do que permitir que se mexa com algo por ser mais fácil começar a dois passos da chegada. Hoje, mais do que nunca, membros de todos os grupos têm as possibilidades para criar novo conteúdo à imagem que pretendem pelo que devemos encorajar essas novas vozes hoje para que possamos sentir os seus ecos amanhã.

A segunda história tem um pouco a ver com este sentimento já que se trata do mui polémico remake do filme “Ghostbusters” liderado por Paul Feig. Como um não-fã assumido de Feig as minhas baixas expectativas foram confirmadas pelo terrível primeiro trailer que viria a fazer história pelos piores motivos. Não tardou até este se tornar o trailer de um filme com mais dislikes de sempre no Youtube  – neste momento conta com mais de 976 000 – e o suspeito encontrado foi o do costume: misoginia. Agora que o elenco principal iria ser completamente substituído por mulheres, a história de 4 caçadores de fantasmas em Nova Iorque que vinha a angariar fãs aos magotes ao longo de várias gerações desde a sua estreia em 1984 era agora o palco mais quente do momento de discussão das políticas de género na pop culture e a reacção do público às mesmas. A presença de ódio dedicado especificamente à componente feminina do material é inegável mas, mesmo ultrapassando o quão doentios alguns utilizadores podem ser na caça à reacção mais extrema, será que é possível afirmar que a Internet é guarnecida maioritariamente por um bando de nerds com a vida amorosa mal resolvida e que lidam com isso cuspindo veneno na direcção de tudo o que é feminino? Vejamos:

Onde estava esse exército quando foi revelado que “Star Wars: The Force Awakens” iria ter não um mas uma protagonista? Estariam todos ocupados a ser racistas contra John Boyega? E no novo trailer para “Wonder Woman”, onde estavam? E quando lançaram os de “Hunger Games”? E no anúncio da nova Capitã Marvel? Será algo exclusivo aos fãs de “Ghostbusters”? Então porque é que Sigourney Weaver e Annie Potts são lembradas como uma parte significativa do original? Será por estas não ocuparem uma posição de poder acima de um homem? Então nesse caso onde estava esse exército quando foi revelado que “Star Wars: The Force Awakens”…

Uma versão mais próxima da verdade gira não à volta do preconceito contra o sucesso cor-de-rosa mas – surpresa! – dos interesses de corporações em atiçar os fogos da controvérsia para manter o seu produto nas bocas do mundo sob o pretexto de bullying, cobrindo algumas práticas mais escuras no processo. Quando o popular youtuber James Rolfe revelou que se recusava a ver o filme as reacções não se fizeram esperar, sendo que a maior parte acusava de sexismo, insegurança e infantilidade alguém que não tinha usado o sexo das actrizes como um factor decisivo para a sua decisão. A história correu a Internet. O que não foi tão popular foi um vídeo semelhante da autoria de uma youtuber com seguimento considerável meses antes onde esta exprime uma opinião (a audácia!) semelhante à de Rolfe mas que por motivos incertos (sarcasmo é aqui implícito) não foi alvo de ataque por nenhum dos lados da discussão. Estes são apenas dois exemplos mas que reflectem a maneira de como se constrói um debate – ou falta de – a partir do momento que é mais fácil atacar a pessoa do que o argumento, o que ironicamente foi aquilo começou todo o burburinho em primeiro lugar. Assim a Sony pôde esquivar-se da maior parte da chuva de críticas plausíveis a um filme que se adivinhava terrível quando os orgãos de comunicação decidiram tomar a verborreia de um grupo de selectivo de imbecis como a norma, chegando mesmo a promulgar a acção. Chegada a data do lançamento a resposta do público foi clara e 2 semanas depois o filme não conseguiu sequer recuperar o seu orçamento de produção (144 milhões de dólares) na bilheteira à escala mundial.

De qualquer forma, o insucesso de “Ghostbusters” não deve servir como nada mais do que uma má memória dentro de uma sala de cinema. Dia após dia a piscina genética da cultura popular vai-se diversificando e, por muito maus que alguns exemplos possam ser, devemos estar contentes que tantos grupos diversos de pessoas possa trazer uma visão diferente para a mesa. Sim, é verdade que ver a Wonder Woman ser usada como bocal do politicamente correcto faz lembrar os tempos antigos onde as super-heroínas propagavam apenas a perspectiva masculina da mulher de então mas isso não apaga todos os momentos onde a personagem serviu como fonte de inspiração. Em breve uma rapariga irá tomar a armadura de Iron Man (Iron Maiden ?) após mais de 50 anos de Tony Stark ao comando. Quem sabe o que isso poderá trazer ao mito da personagem. Se o material for mau ou estiver a ser usado de forma intelectualmente desonesta deve ser encontrado com críticas duras mas essa alternativa continua a ser preferível a segregação completa de perspectivas diferentes somente devido a diferenças em algo tão básico como níveis de melanina. Não respondamos a miséria com miséria.

Digo eu.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.