Minoria, vai à baliza!

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Depois de uma temporada que celebra a boa vontade entre todos os homens nada como as nomeações para os mais cerimoniais prémios da especialidade para pôr em polvorosa a vasta comunidade de cinéfilos, críticos, bloggers ou mesmo de utilizadores comuns do Facebook e Twitter. A popularização da social media trouxe a oportunidade a mais vozes (como a nossa) de terem um acesso mais fácil à discussão de eventos e temáticas do nosso interesse o que levou ao surto e expansão de opiniões de foro cada vez mais variado. O teor demográfico dos filmes em Hollywood tem sido o tópico que mais tem vindo a aquecer graças ao abanar das chamas tanto por entidades independentes como por grandes publicações que dedicam cada vez mais tempo e atenção a esta questão específica, deixando muitas vezes o mérito artístico dos filmes no banco de trás. Artigo após artigo a mensagem articulada em uníssono tende a repetir-se: existe um problema entre nós e o seu grande catalisador são homens de tez branca.

Depois de um ano que só acrescentou ímpeto e tamanho à nova bola de neve racial criada pelo caso de George Zimmerman qualquer evento envolvendo – ou não – uma minoria racial de forma negativa ficaria habilitado a escrutínio severamente redobrado. No caso dos Óscares a causa foi a aparente negligência de reconhecimento ao filme “Selma”, a primeira obra de ficção a retratar a figura de Martin Luther King Jr. e a marcha que este liderou juntamente com outros activistas contra o impedimento do direito constitucional de voto de afro-americanos por parte de órgãos de governo locais. O que torna “Selma” uma combinação tão explosiva do ponto de vista liberal não é apenas o facto de girar à volta da segregação da comunidade negra americana mas também o pormenor de ter sido realizado por uma mulher – também ela afro-americana – o que traz também à baila o debate sobre a diminuta representação feminina de ambos os lados da objectiva.

Existirá mesmo discriminação em Hollywood? Os números apresentados outra e outra vez em artigos sensacionalistas deixam certamente essa impressão. 15% disto e 10% daquilo são valores que deixam constantemente a sugestão de uma esmagadora maioria que envolve estes e outros frágeis grupos demográficos como uma gigante serpente ariana com um aperto de ferro. No entanto é preciso um olhar mais objectivo para que se possa obter uma visão mais fidedigna sobre a representação racial e sexual em Hollywood. Quando é escrito que apenas 13% dos papéis estão reservados a negros temos de ter em conta que esse valor está próximo da percentagem de população afro-americana (13.2%, de acordo com o Census de 2013). Outros artigos apresentam a informação como se de uma publicação cor-de-rosa se tratassem ao declarar que quase 40% das mulheres num estudo nomeiam a presença masculina na indústria uma barreira ou que quase metade (43%) declaram que o dinheiro é o principal problema, uma estatística que a publicação consegue traduzir num ataque sexista por parte de uma elite . Pela mesma lógica poderia ser apontado que a maioria das mulheres entrevistadas não sente que esse seja o problema. Outra particularidade que se tende a verificar é a de que é praticamente impossível encontrar dados sobre o número absoluto de mulheres e homens que procuram activamente a profissão de realizador, produtor ou actor, o que torna difícil a tarefa de rejeitar ou apoiar categoricamente a campanha por uma maior representação feminina.

Noutras áreas como a Engenharia e a Matemática os dados dizem-nos que a maior parte dos interessados são homens mas não são tão prestáveis a dizer-nos o porquê. Os mesmos dados dizem-nos que essa tendência está a mudar. Não nos podemos esquecer que num passado recente o estereótipo associado aos grupos minoritários e às mulheres era bastante mais redutor e encontrava menos resistência por parte destes sectores. Aos poucos a tendência tem vindo a alterar-se e ano após ano a percentagem  da população a fazer-se ouvir nas bilheteiras tem-se diversificado cada vez mais e são as mulheres (52%) agora quem comanda esse público. Não é por acaso que uma das tendências crescentes na Cidade dos Anjos é a adaptação de romances young adult, um género que o público feminino, entre outros, tende a preferir. Uma maior afluência aliada a uma mudança de mentalidades resultará num maior número de mulheres e minorias afeiçoados ao mundo do Cinema o que por si resultará numa fatia de executivos e artistas cada vez menos alheia às suas capacidades. Ainda assim penso que seja extremista declarar que vivemos ainda num mundo apoiado exclusivamente neste tipo de jogos. O suspeito é outro.

Os Óscares, tal como muita outra cerimónia de entrega de prémios, deixaram de ser há muito tempo – se é que alguma vez o foram – mais do que um intenso jogo político que decorre em vários planos e que nunca realmente pára. Harvey Weinstein tem a reputação de lutar arduamente por nomeações que geralmente acabam por acontecer, por vezes a contrariar o consenso geral. A razão pela qual isto acontece é que uma mera nomeação é o suficiente para inflamar a corrida ao cinema, resultando nuns milhões extra para o estúdio e num novo futuro investimento que poderá traduzir-se em tantos outros. Em outros casos a natureza de uma obra pode ser e é utilizada como instrumento social de maneira a fazê-la subir em termos de interesse e temos um bom exemplo já na passada cerimónia quando “12 Years a Slave” levou para casa a estatueta de Melhor Filme. Admito que a minha opinião do filme está muito abaixo da média mas esse é um sentimento que tende a ser partilhado por 90% dos filmes representados na cerimónia desde há muitos anos para cá logo esta não é uma questão de favoritismos. O filme foi arquitectado de forma a tirar o máximo do seu contexto racial e no final a operação deu frutos, com lugar até para uma interjeição em tom de graça por parte da apresentadora Ellen DeGeneres durante a cerimónia. Um facto pouco noticiado foi o de que, ao bater Steve McQueen – o 3º nomeado afro-americano na categoria de Melhor Realizador – Alfonso Cuáron tornou-se o primeiro realizador latino-americano a vencer o galardão, sendo ele também apenas o 4º elemento dessa minoria a ser eleito. Por alguma razão o seu caminho até à vitória focou-se em mérito e não em preconceito.

Ao galardoar o filme a Academia não fez mais do que provar a sua tendência de apelar ao zeitgeist do seu Monte Olimpo.O mesmo parece estar a acontecer este ano com “American Sniper”, um filme banal em toda a medida mas que foi inteligentemente apregoado com um apelo a um dos pontos fracos do americanos: mártires de guerra. O resultado foram 5 nomeações para os Oscars e um fim-de-semana que rendeu mais de 100 milhões de dólares só em terras do tio Sam. Em 1999 a noite foi de Shakespeare in Love quando toda a gente esperava que fosse de Saving Private Ryan e Gwyneth Paltrow sentou Cate Blanchett. Em 1994 Tommy Lee Jones praticamente roubou o prémio a Ralph Fiennes e 1990 viu Driving Miss Daisy ser coroado “o melhor filme do ano” quando muitos se perguntavam como sequer tinha chegado ao top 5. A resposta não-oficial será Richard D. Zanuck, o lendário produtor. Estes são apenas alguns dos vários exemplos que deu o título infame de “Oscar season” aos últimos meses antes da cerimónia onde a corrida ferve e onde os estúdios jogam a sua melhor mão dentro e fora das salas. O resto é História.

Por outro lado a mentalidade de que toda a criança deve ganhar uma medalha é uma tolice tal como aquela que dita que o sujeito X deve receber reconhecimento devido a uma característica Y. O facto de esta ser a primeira cerimónia desde 1995 em que a categoria de actores e actrizes é preenchida apenas por caras pálidas não é, a julgar apenas pelos níveis de pigmentação da pele, uma tragédia tal como não o seria se o painel fosse completamente negro ou amarelo ou vermelho ou azul-turquesa. Mais grave, na minha opinião, é o facto de estarmos a testemunhar o constante desprezo da Academia por David Fincher e os seus projectos como se este tivesse cometido o mesmo “pecado capital” que Martin Scorcese cometeu algures nos anos 70. Por arrasto a performance soberba de Rosamund Pike passou para segundo plano para a de Julianne Moore em “Still Alice”, que nem sequer é a melhor da actriz em 2014, e a obra aclamada de Gillian Flynn ficou aquém de guiões de que ninguém se lembrará de hoje a um ano. Tal como muitos lamento também o afastamento do “Lego Movie” da corrida ao prémio de Melhor Filme de Animação e duvido que “The Tale of Princess Kaguya” traga a Isao Takahata o galardão que lhe é devido há muitos anos.

No final, o que interessa? Grandes nomes como Peter O’Toole, Charlie Chaplin, Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick contam-se no grupo de pessoas que a Academia famosamente ignorou ao longo das 87 edições dos prémios e isso não impediu que todos deixassem a sua marca na História do Cinema o que significa que este “boicote” a “Selma” tem tudo para ser o seu primeiro passo no caminho para a imortalidade, o único prémio essencial a uma peça de arte.

Digo eu.

 

 

 

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.