#JeSuisCharlize – Parte II: Levítico

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Todavia, o zeitgeist é algo em constante mudança à qual o mais avarento empresário precisa de se saber adaptar para que possa desfrutar da maior fatia do bolo e, com o futuro cor-de-rosa que se adivinha, os interesses da maioria estão em vésperas de mudança. Onde outrora modestas êxitos de Acção como “Resident Evil” e “Underworld” se erguiam acima de filmes baseados em BD como “Elektra” e “Catwoman” como campeões de bilheteira em termos de filmes liderados por mulheres, hoje em dia qualquer herói ou heroína do mundo dos quadradinhos arruinaria as hipóteses destas duas franquias gozarem de fins de semanas rentáveis (excepto talvez se os filmes em questão fossem tão maus ou piores que os exemplos anteriores). Outra sub-categoria de peso são as adaptações de romances young adult, onde nem mesmo o mais adorável dos gaiatos consegue travar os “The Hunger Games” de Jennifer Lawrence, verdadeiros colossos que por si só firmaram o estatuto da sua protagonista como nova menina-bonita do Cinema e estabeleceram o novo padrão para os filmes do género desde que “Harry Potter” desocupou o trono. Como seria de esperar, este sucesso gerou o interesse da gerência que aproveitando a sombra do véu do “progresso” decidiu começar a estabelecer raízes nesta componente com a já mencionada Furiosa, a personagem principal do novo Star Wars, o regresso de Wonder Woman (finalmente) às produções de carne e osso, Sarah Connor (versão babe) e das meninas de “Pitch Perfect”, a nova produção da dupla Tina Fey/Amy Poehler e um novo “Ghostbusters” protagonizado inteiramente por mulheres, entre outros.

Ainda assim este promissor arranque é demasiado pouco para apaziguar a fome por justiça social de cavaleiros andantes em toda a parte cuja única noção de progresso é aquele que ocorre ao ritmo de dias cinzentos em Abril, um modus operandi que teima em falhar pois certas vozes estão mais interessadas em gritar “Revolução!” ao invés de as levar avante. Por algum motivo, a noção de que o top 10 de pessoas mais bem pagas/mais bonitas/em mais filmes não é composto por 10 indivíduos totalmente diferentes é automaticamente horrenda e justifica o mastigar diário de informação, indiferente a importância, contexto ou lógica, que por sua vez ridiculariza, enfraquece e insulta o seu próprio ideal. Este cenário e muitos outros onde a testosterona goza de um certo avanço irão, por modulação popular, alterar-se gradualmente até ao dia em que se irão eventualmente inverter-se mas a proximidade dos mesmos é relativa e está extremamente relacionada ao tipo de resposta que o público dará, neste caso, à próxima fornada de heroínas. Se for positiva veremos mudanças significativas daqui a 5-10 anos, caso contrário continuaremos a falar do mesmo assunto daqui a 20. O cerne da questão é o mesmo que foi sublinhado vezes sem conta até agora: dinheiro – vulgo habilidade destas novas apostas gerarem mais notas do que aquelas que foram precisas para as tornar realidade – e embora a via do blockbuster seja a mais rápida até ao cimo da montanha, é sem dúvida também a mais perigosa pois 2 ou 3 elos mais fracos num espaço de tempo suficientemente curto são tudo o que seria necessário para fazer todo o processo voltar à casa de partida. Porém existe agora outra via mais lenta mas mais segura que não gozava de tanta importância há cerca no passado próximo quando todos os filmes horríveis mencionados acima foram lançados. Refiro-me ao Cinema independente.

Dado o avanço tecnológico sentido nos últimos anos, o aumento de meios de distribuição e financiamento e a aparente sede para contar histórias orientadas ao público feminino, os defensores desta ideologia deviam pensar no cume com os olhos na base. As produções independentes têm provocado ondas cada vez maiores ano após ano, tanto na área comercial como com a crítica, e tem-se revelado o porto de abrigo para a diversidade e originalidade mais próximo da máquina industrial de Hollywood, para o bem e para o mal. Os salpicos provocados por filmes como “Juno” ou “Whiplash” não seriam totalmente impensáveis 10-20 anos antes do seu tempo, quando cineastas como Quentin Tarantino ou Richard Linklater começavam a dar os primeiros passos, mas nessa altura a diferença fazia-se às costas filmes “grandes” enquanto o máximo a que todos poderiam aspirar era um seguimento de culto. Hoje é rara a ocasião em que produções independentes não andam pelas bocas do mundo nas vésperas da época de galardões ou nos tops dos melhores filmes do ano de críticos e fãs, estando o género a atrair cada vez mais talento e possíveis investidores à procura do mais recente êxito low-cost. Se o formato foi bom o suficiente para autores como Tarantino, Linklater, os irmãos Coen, Cassavettes, Scorcese, Lynch e Jarmusch, entre outros, nada impede que a próxima Bigelow, Bier, Campion, Ramsay, Denis, Scherfig ou Villaverde comece um percurso semelhante a partir de lá. Até o meu tio excêntrico concorda. Por outro lado o jogo na alta roda, com os seus contornos comerciais, é alvo de um zelo bem maior. Vejamos por exemplo a moda dos remakes e o caso do mais recente “Ghostbusters”. Quando foi anunciado que o elenco principal seria constituído inteiramente por senhoras os constituintes mais extremos de ambos os lados da bancada reagiram ruidosamente à notícia, gerando de imediato bastante – mas sobretudo mau – burburinho sobre o filme que irá continuar o legado da equipa de caça-fantasmas sem nenhum membro original, ou seja, ainda antes de um único momento de vídeo ter sido rodado Paul Feig e a sua equipa de protagonistas – lideradas pela mais que estabelecida Kristen Wiig – encontravam-se 10 passos atrás de qualquer outro filme no mesmo estado de evolução.

 

“The worst ones always live” – Sansa Stark

 

Após o recente sucesso comercial do realizador com as suas comédias – onde o elenco tende a ser reciclado de filme para filme – porque não deixá-lo produzir mais material original ao invés de arriscar a aversão do público geral e por conseguinte um fracasso de bilheteira? Sexismo? Embora essa seja a explicação-pivô – e à qual muitos aderirão imediatamente – é altamente improvável que uma companhia reavivasse uma das suas franquias mais conhecidas e acarinhadas pelo público apenas para dinamitar o seu sucesso e o de toda a gente a ela associada para… provar que mulheres e Cinema não combinam? Uma explicação mais lógica seria a do depósito de fé na franquia ao ponto de a achar capaz de fazer suceder uma jogada “progressiva” que se Deus quiser irá matar os coelhos do lucro e dos pontos morais com uma cajadada só. Outra seria mais um caso em que Hollywood procura lucrar com o estereótipo de “mulher forte” que ultimamente tem ganho bastante suporte como opção viável para o standard a seguir na construcção de papéis femininos preponderantes. Este tropo baseia-se fortemente nas estrelas de Acção masculinas dos anos 70 e 80 – quando o género começou a tornar-se menos poético e mais violento – que já nos trouxe personagens tão interessantes como Ellen Ripley, Ezzy Vazquez ou Sarah Connor e cuja utilização pretende eliminar rapidamente a disparidade entre números e deferência entre homens e mulheres na indústria ao criar novas heroínas em massa com traços mais rudes. No papel não parece haver muito de errado com a ideia mas conhecendo a indústria que a pretende utilizar o cenário futuro mais plausível é que a sua utilização acabe por originar 2 problemas:

  1. O uso excessivo deste estilo particular de contar histórias e criar personagens, resultando na troca de uma espécie de objectificação por outra. Para mais sobre esta noção e as suas limitações aponto-vos este artigo onde a autora se debruça sobre o tema e apresenta um argumento forte contra a homogeneização e simplificação de papéis, com o qual concordo plenamente.
  2. O carácter artificialmente progressivo do gesto que poderá inspirar outros a fazer algo semelhante quando na realidade pouco ou nada fará para resolver os problemas criativos e sociais da indústria. À sua sombra, raparigas de todas as idades continuarão a ver-se contidas numa caixa com outro nome e uma dependência no ponto 1. transformará um movimento potencialmente inovador num capricho mal gerido e liderado, tornando-o inexpressivo ao fim de alguns anos como todas as outras modas que vieram e foram.

 

Felizmente existem ainda cavalheiros em 2015 que pretendem ajudar a luta a partir de dentro e um dos líderes do coup d’etat é Chris Pratt, a recente – e já muito mencionada aqui – sensação da indústria que arrasa corações e carteiras sem discriminar, que como qualquer líder que se preze lidera dando o  exemplo. Ao contrário da maioria dos homens que não vê ou prefere não ver o processo de selecção sexista e hedonista que decorre nos bastidores, Pratt e outros compreendem a importância de um ambiente diverso onde todos se possam sentir iguais. É por isso importante fazer cair a imagem da mulher como apenas um sex symbol, um objecto para ser admirado e cobiçado por força de instintos básicos e nada mais.  Longe vai o tempo onde a segregação social definia uma linha clara entre sexos e tornava um submisso aos caprichos do outro meramente por causa de uma noção retrógrada de funções a cumprir dentro da vida em sociedade. Homens em toda a parte precisam de perceber: Mulheres. não são. coisas. E até essa noção estar bem assente lá no fundo o verdadeiro progresso nunca virá. É portanto com satisfação que assisto ao romper gradual do estereótipo ao qual tantas actrizes foram obrigadas a ceder sob força de chicote emocional masculino para satisfazer necessidades lascivas em troco de alguns minutos de fama. Não esqueçamos: homens são machos e machos só pensam numa coisa. Chegou a altura de (os) parar.

 

“Keep smiling through, just like you always do, ‘till the blue skies drive the dark clouds far away” – Vera Lynn

 

Numa nota mais séria, é de facto bom verificar que as políticas começam a mudar e que não só mulheres mas também minorias começam a ser levadas mais a sério, deitando algum cloro na piscina hegemónica e centralizada de Hollywood. A mensagem aqui é a de que embora o acto de mudança indique algo positivo, a mudança em si deve também basear-se num princípio de mérito e não num de pretensão. Fosse esta uma discussão sobre algo como direitos salariais e aí sim o conceito de igualdade teria um lugar incontestável ao centro mas aqui o que interessa – ou deveria interessar – é o valor da pessoa como produtor de algo com significado. Em 2013 a percentagem de jogadores afro-americanos na NBA excedia os 75% ainda que o total de população negra (homens e mulheres) nos E.U.A no mesmo ano rondasse os 15%. Quer isso dizer que a NBA é inerentemente racista? É a indústria da moda sexista por pagar bem mais a modelos femininos? Não, ambas estão apenas a recompensar melhor os agentes que lhes permitem obter maior sucesso, neste caso mais bolas dentro do cesto e mais conjuntos de lingerie vendidos. Algo semelhante deve ser imposto na área do Cinema, com o rasgar imediato do mítico autocolante de “No Girls Allowed” à porta a servir de primeira lufada no cachimbo da paz. A partir daí, o resto estará a cargo das actrizes/realizadoras/produtoras/argumentistas/etc. que se queiram lançar à aventura. Qualquer ajuda extra teria de ser considerada condescendência e nenhum de nós quer isso.

Digo eu.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.