#JeSuisCharlize – Parte I: Êxodo

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Fomentado pelo boom das redes sociais, o tópico da prevalência da mulher na Sociedade ganha todos os dias dezenas de novos adendos que visam assinalar o quão longe ainda estamos de alcançar um ambiente onde homens e mulheres possam viver em igualdade. Os diferentes ramos de cultura popular – principalmente a TV, o Cinema e os videojogos – são um dos domínios de caça predilectos para activistas do novo mundo focarem a sua atenção em busca do próximo alvo a abater e todos os dias a lista cresce. Hoje em dia é rara a propriedade que escape ao escrutínio incansável de quem há muito se convenceu que em tudo há uma agenda escondida baseada em discriminação e ódio, agendas essas que , ironicamente, costumam ser o ponto de partida de todas estas trapalhadas. Os tópicos de raça e sexo ocupam quase sempre um lugar de destaque nestas campanhas, algo pouco anormal se considerarmos as diferenças entre os vários elementos mas que toma um carácter mais bizarro quando se verifica que a maioria deste movimento é formada por um sector demográfico específico: caucasianos – principalmente mulheres – de cabelo colorido com tons garridos e com um índice de massa corporal superior ao seu QI.

Contudo este fenómeno não é exclusivo a raças, classes sociais, preferências sexuais ou qualquer outro traço inerente à modelagem de personalidade pois na hora de discriminar ninguém está acima da asneira tal como um grupo muito masculino decidiu provar recentemente aquando do lançamento do quarto filme da franquia Mad Max, ao lançar uma campanha de boicote ao filme após terem tomado conhecimento de que a personagem titular dividia o seu protagonismo com uma mulher. Outros exemplos mostram uma organizadora de um evento de sensibilização contra o Racismo a pedir a todos os homens e caucasianos em geral para não compareceremfeministas e homens a ver a sua retórica desafiada por alguém da própria “equipa” ou sites saltar à corda com certas políticas mediante a sua agenda. Em suma – e para não nos afastarmos demasiado do cerne da questão – acredito piamente numa habilidade latente para a imbecilidade que nos afecta como espécie à escala mundial, indiferente a credo, raça ou sexo e que infelizmente nos perseguirá até ao fim dos nossos dias. Vox populi, vox nihili. Adiante.

O funcionamento interno da indústria parece ainda impérvio a estas movimentações embora os ventos de mudança possam já ter começado a soprar. Ao vencer o galardão de Melhor Actriz Secundária na passada edição dos Oscars, Patricia Arquette decidiu abordar num discurso de agradecimento igualmente crítico e demagogo alguns dos pontos de discussão no diálogo cada vez mais em voga sobre a discriminação da Mulher no Primeiro Mundo. No ano passado já Emma Thompson tinha declarado guerra aberta aos sapatos de salto alto, ao que o Festival de Cannes decidiu “retribuir” em 2015 com uma proibição muito ímpar prontamente negada por um representante da organização do festival. Obviamente o sucedido gerou polémica, atiçando a fogueira por mais um bom par de semanas. Estarão então os portadores do cromossoma Y geneticamente predispostos a ver as mulheres como nada mais do que organismos afeiçoados a malas, saias, gatinhos e mau gosto musical?

 

“Now watch closely, everyone. I’m going to show you how to kill a god. A god of life and death. The trick is not to fear him.” – Lady Eboshi

 

Um estudo mostra que, mesmo ultimamente, o número de protagonistas femininos tem-se mantido muito mais baixo do que o seu homólogo masculino ainda que nos últimos anos tenham sido as senhoras a contribuir mais para as bilheteiras. Assim sendo, como é possível que pelo menos 50% dos filmes que ocupam hoje as salas de cinema não tenham como figura principal uma mulher ou, talvez mais intrigante ainda, o que as faz apoiar afincadamente uma indústria que aparenta não estar interessada em diversificar um pouco o seu produto? Primeiro é preciso debruçar-mo-nos sobre alguma da informação incluída no estudo. Após analisar os 100 filmes com maiores números de bilheteira nos Estados Unidos no ano de 2014, a Dra. Martha Lauzen verificou que de todos os protagonistas (personagens que servem como ponto de vista principal da história) 12% eram mulheres, 75% eram homens e 13% um conjunto de ambos. Outro dado adquirido é o de que a maioria de personagens femininas tinham uma idade compreendida entre os 20 e 40 anos enquanto as do sexo masculino se situavam entre os 30 e os 50. Em suma, 3 em cada 4 filmes de sucesso comercial são liderados por uma figura masculina que, em regra geral, se encontra algures entre a adolescência e a meia-idade. Ainda que esta estatística possa parecer um indicador suficientemente claro da existência de uma discrepância – e é – a razão para a sua existência e subsistência mesmo nos dias de hoje é bastante simples. O Cinema como fonte de rendimento e influência social, quanto mais o seu crème brûlée, é um organismo que vive apenas com um propósito – separar-nos do nosso dinheiro – e a chave para conseguir uma boa colheita está na habilidade de garantir que, aconteça o que acontecer, as pessoas continuem a aparecer para comprar o bilhete.

Para isso as personagens e histórias deste tipo de filmes são criadas para causar uma reacção no espectador que o/a faça querer consumir mais bilhetes/pipocas/revistas/DVDs/subscrições/etc. que possam prolongar a sensação de contacto com aquele mundo e/ou pessoa, trocando uma falsa ligação emocional por uma económica bem verdadeira. A partir do momento que uma cara se destaca do resto do bando, ela/ele é vendido/a como a segunda vinda de Cristo e a ascensão ao estrelato é feita praticamente em piloto automático nas asas do culto de celebridade que se tornou o novo ópio do povo. A continuidade do ciclo é garantida pelo apelo constante aos desejos mais básicos de ambos os sexos, nomeadamente aquilo que ambos geralmente procuram numa cara-metade ou potencial parceiro sexual. Para tal basta preencher o maior número possível dos seguintes requisitos:

Eles devem ser:

  • atraentes
  • altos / bem constituídos
  • responsáveis
  • orientados à família
  • rudes q.b.
  • arrojados
  • inteligentes
  • assertivos
  • independentes
  • capazes de estabelecer um elo emocional

 

enquanto elas apenas têm de preencher um requisito:

  • ser atraentes

 

Embora os filmes mais populares costumem ser apontados a públicos mais jovens, não há nenhum grande segmento dentro da massa populacional que não responda impulsivamente aos pontos acima. O sucesso de Jennifer Lawrence pode ser alheio ao vosso pai e avô mas se lhes mostrarem uma fotografia da actriz há uma boa hipótese de que a partir desse momento fosse bem mais fácil convencê-los a gastar dinheiro para a ver no grande ecrã, sendo o mesmo aplicável a uma mãe ou avó e uma imagem de Chris Pratt ou Robert Downey Jr. O mesmo “fenómeno” ocorreria há 8 anos atrás com Johnny Depp e Megan Fox ou há 80 com Carole Lombard e Gary Cooper, provando não só a eficácia desta regra de ouro mas também a intemporalidade do carácter social da condição humana. Com tudo isto em mente voltemos ao estudo e à conclusão relativa às idades dos protagonistas de filmes populares. Mulheres entre os 20 e os 40. Homens entre os 30 e os 50. Johnny Depp. Megan Fox. Gary Cooper. Carole Lombard. Jennifer Lawrence. Chris Pratt. Robert Downey. Jr. Brad Pitt. Emma Stone. Lauren Bacall. Humphrey Bogart. James Stewart. Audrey Hepburn. Molly Ringwald. Arnold Schwarzenegger. Mais alguém nota um padrão?

A elevada diferença entre protagonistas e realizadores de ambos os sexos é justificável (de um ponto de vista de negócio) por uma extensão da mesma lógica, neste caso o facto de ser mais fácil vender uma figura masculina dominante ao indíviduo comum do que uma feminina. Isso acontece pois enquanto uma figura masculina bem-parecida e no controlo é atraente a ambos os lados da bancada – o cliché “homens querem ser como ele, mulheres querem estar com ele” – o mesmo não se verifica com protagonistas femininas pois a maioria dos homens não gosta de se sentir inferior em relação à sua parceira. Não é por acaso que a expressão “sexo fraco” pegou num mundo azul. Há também que considerar que as senhoras têm uma reputação de competir mesmo inconscientemente com membros do mesmo sexo, pelo que a presença de uma mulher de carácter forte ou aspecto físico acima da média é considerado um risco que o núcleo empresarial prefere evitar. Esta teoria é reforçada quando olhamos para as personagens cinematográficas femininas mais icónicas (Sarah Connor, Ellen Ripley) são escaças e nunca comercializadas com o rótulo de sex symbol em mente, o que faz o seu carácter dominante menos abrasivo para os dois lados. No fim, tudo se resume a uma feira de vaidades. “Mad Max: Fury Road” possui uma fortíssima componente feminina a carregar o filme e, aos poucos, conseguiu amealhar mais do dobro do seu reportado custo de produção, algo que teria acontecido há bem mais tempo se Charlize Theron não tivesse de se ter separado do seu esvoaçante cabelo loiro para interpretar Furiosa. Porque por muitos sites, blogs, tumblrs, facebooks e twitters dedicados a celebrar isto e isto como algum tipo de ideal de beleza a verdade é que na hora da verdade isto e isto são as únicas divindades que atraem verdadeiro culto. Para qualquer reclamação é favor entrar em contacto com este cavalheiro.

 

“You kiss by the book” – Juliet

Parte 2  —>

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.