Et tu, Kim?

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Estes últimos dias temos sido invadidos por uma enxurrada de actualizações e lembretes relativos ao escândalo de hacking aos servidores da Sony, de onde foram retirados filmes por distribuir, estratégias de marketing e  e-mails externos e internos entre  outra informação. A juntar-se à festa chegou em muita apoteose o filme The Interview que já vinha desde a altura do seu anúncio causado algumas reacções fortes relativas a um dos acontecimentos nele retratados: o assassinato de um presidente estrangeiro que ainda exerce a sua função. Uma resposta à medida não fosse esse presidente Kim Jong-Un, líder supremo da assim denominada República Democrática Popular da Coreia ou Coreia do Norte para aqueles que gostam de chamar os bois pelos nomes. Mas há algo aqui que parece não encaixar no tumulto de ameaças e jogadas logísticas que tornou o lançamento desta película (agora cancelado) num circo que transcendeu o mundo de Hollywood e que captou já a atenção da Casa Branca.

A primeira questão a colocar aqui é: como é que as coisas chegaram a este ponto? Todo o material promocional e reputação dos jogadores-chave do projecto – isto é, o realizador Evan Goldberg, o realizador/estrela Seth Rogen e o seu parceiro James Franco  parece indicar que esta apenas uma daquelas comédias do género “mais uma” cujo maior ponto de venda é o facto de duas estrelas mais que reconhecíveis se reunirem para executar uma premissa ridícula. O próprio conceito de incluir figuras proeminentes com má reputação é tudo menos original, o que torna esta reacção ainda mais bizarra. Adolf Hitler já se encontrava no meio do conflito armado mais sangrento da História quando Charlie Chaplin resolveu parodiar o retrato da Alemanha nazi no seu The Great Dictator. Também antes, durante e depois de várias situações tensas foi Saddam Hussein incluído em filmes como Hot Shots! Part Deux e South Park em papéis bastante jocosos. O próprio Kim Jong-il foi o vilão em Team America. Osama Bin-Laden, Fidel Castro, várias figuras de estado soviéticas, etc. Os exemplos multiplicam-se. Então porquê agora? Porque é o terceiro membro na linhagem de “Stalin“s em potência mas sem potência o primeiro a responder abertamente às brincadeiras do Oeste?

Olhando para os exemplos acima e comparando com The Interview parece haver uma discrepância que pode servir para explicar esta reacção. Por um lado The Great Dictator é uma comédia com alma e coração onde Chaplin caminha perfeitamente na corda bamba entre a comédia fácil e a intenção de ofender para enviar uma mensagem de paz em tempo de guerra. Os restantes exemplos caem numa zona mais liberal onde todos os vilões são representados como idiotas com falhas de carácter mas onde as figuras de autoridade do lado do “Bem” recebem o mesmo tratamento, estando os dois lados juntos do mesmo lado da piada. Já que nunca vi o filme esta reacção é baseada nos pedaços de imagens que foram mostradas no trailer que fez este filme parecer não tanto uma paródia de dois pontos de vista mas uma peça de propaganda para americano ver em que um desejo profundo de atacar um povo parece tomar forma no ecrã com uma frieza subjacente pouco característica ao género. Só o filme em si pode esclarecer este ponto mas dada a resposta proveniente do regime coreano não é impossível que esta apreciação esteja perto da verdade. Sejamos francos, ninguém gostaria de ver um filme dedicado ao seu assassinato o que faz a premissa desta comédia ser imatura o suficiente para começar.

A Coreia do Norte pode não ser um gigante adormecido mas é um teenager rabugento com problemas grave de acne que tem as costas aquecidas por dois gigantes bem despertos que os EUA não querem provocar. A Columbia Pictures, produtora do filme, é possuída pela Sony, o gigante nipónico que tem vindo a ver a sua grandeza mirrar. Ora assim se montou um interessante jogo de xadrez envolvendo as maiores potência do planeta como consequência de um filme de Seth Rogen e James Franco. Vou repetir: o Mundo deu mais um par de passos para uma situação de conflito por causa de uma paródia protagonizada pelo Ken e Daniel de Freaks & Geeks. Será que temos de emitir um alerta para a captura de Jason Segel e Linda Cardellini? Estarão os três geeks da série a preparar um ataque de larga escala ao sudeste asiático? Porventura a Sony devia aproveitar a ideia e produzir a história de como um grupo de actores se torna uma organização filantrópica que elimina estadistas a soldo. Leram aqui primeiro.

O que parece ser facto é que o teenager ranhoso apanhou o lado americano com as calças na mão e pôs a descoberto os planos de uma companhia inteira com direito a ameaças de morte e terrorismo contra qualquer cadeia de cinemas que aceitasse passar o filme nas suas salas. Estalado o verniz foi dado o poder de decisão a essas mesmas cadeias que acabaram por recusar receber o filme. Consequência: a distribuição mundial de The Interview foi cancelada. A Internet, sempre rápida a demonstrar ultrage, fez saber via mensagens de Facebook e peças de blog à dezena que esta era uma atitude que demonstrava uma fraqueza incaracterística do “Mundo Livre” e que abandonar a ideia de lançar a película seria uma vitória para os inimigos da liberdade. O próprio presidente Barack Obama não tardou a criticar essa atitude em praça pública. O FBI confirmou a origem do ataque como sendo a Coreia do Norte. “Vingança! Injustica! Censura!” gritam os revolucionários de poltrona. Pelos vistos todos se esqueceram dos acontecimentos em 2012 quando um atirador solitário entrou numa sala de cinema e alvejou vários espectadores que esperavam em ânsia a exibição de The Dark Knight Rises, vindo 12 pessoas a perder a vida e dezenas a ficar feridas num ataque com armas de fogo e gás lacrimogéneo. Dois anos depois uma ameaça maior chegou-nos com a cortesia de um aviso a que as pessoas de Aurora não tiveram direito e mesmo assim a resposta de uma sociedade inteira e de um líder mundial é um “bater no peito” verbal que prefere uma demonstração de machismo a uma de prudência. Ei, desde que nós não estejamos no raio de explosão da bomba…

Pessoalmente – e vinco a palavra “pessoalmente” como algo que indica a opinião da minha pessoa, não da equipa do blog – continuo a acreditar que há algo demasiado conveniente no timing desta história. Sempre ouvi dizer que “não é como se começa, é como se acaba” e se havia um ano em que a América precisava de um final limpo para um ano cheio de solavancos seria este. Pé ante pé este pequeno grande escândalo deixou para trás o outro grande leak – o infame The Fappening – onde a Apple se viu também a braços com uma brecha de segurança, os casos em que polícias brancos alvejaram homens negros em cirscuntâncias que muitos apelidam de dúbias ou mesmo como prova de um suposto problema racial que nunca ficou bem resolvido, a luta de tracção entre EUA, Rússia e a Europa, os acontecimentos estranhos envolvendo aviões malaios ou o rapto de centenas de meninas por parte de guerrilheiros nigerianos. De repente todos os problemas de 2014 ficaram cingidos a uma companhia estrangeira – reparem que, embora o filme esteja nas mãos da Columbia Pictures, o seu nome tem-se mantido fora das manchetes – cujo poder de manobra tem vindo a descer gradualmente nos últimos tempos. Terá sido esta uma jogada perfeita de marketing para tentar relançar uma companhia ou um esforço conjunto para fazer dela o bode expiatório dos problemas de outrém? De uma maneira ou de outra The Interview mantém neste momento uma pontuação perfeita no IMDb e o seu nome espalha-se como um vírus nas mentes das pessoas. Possíveis espectadores pagantes agora com sentimentos renovados sobre o Oriente. Dois coelhos, uma cajadada.

Digo eu.

Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.