Artigo | Peter Parker vs. o Mundo – Parte I

 

 

Para aqueles que tiveram já oportunidade de ler alguns dos meus textos incluídos no Ócio não será novidade que a minha opinião sobre a corrente onda de filmes de super-heróis não é a mais positiva. Com isso não pretendo incluir-me numa espécie de contracultura para parecer superior em relação às pessoas que adoram estes filmes (embora assim possa parecer, concedo), apenas acho que eles são alguns dos melhores piores exemplos sobre o que está errado com o Cinema em larga escala em 2017. Desde a génese da 7ª Arte que diferentes eras foram marcadas por diferentes modas que acabaram por dominar a cultura popular da época  deixando sempre para o Futuro um leque artístico extensivo que as definiu até eventualmente serem substituídas pela próxima nova tara. O que as parece distinguir da actual é o facto de que quase 10 anos após o seu começo não-oficial com os lançamentos explosivos de “Iron Man” e “The Dark Knight” continua a faltar uma espinha dorsal robusta a esta época de Ouro das adaptações BD que equivalha ao nível de culto que esta provocou.

O meu principal ponto de contenção com estas propriedades (algo que não é exclusivo apenas a películas mais recentes) é a falta de maturidade que advém da preferência de manter o tom das histórias e das personagens leve e divertido. Como é óbvio este é um problema que afecta uma boa parte do entretenimento popular em vários ramos mas a razão pela qual estou a realçar as adaptações BD é que, ao contrário da concorrência, são as únicas que até à data conseguiram passar de meras franquias a um verdadeiro movimento artístico-comercial que se espalhou por toda a parte com uma eficácia notável. Tal como “Star Wars” antes deles, isso atribui-lhes um estatuto quase intocável que inibe as produtoras de tomar riscos tornados cada vez mais desnecessários pela arrecadação contínua de êxito atrás de êxito, o que por sua vez faz com que se crie o novo cânone que todos na corrida por uma adaptação rentável vão querer seguir. Isso é um problema.

Se olharmos para uma boa parte dos grandes movimentos artísticos do último século (ex: o Expressionismo alemão, o Neo-Realismo italiano e as Novas Vagas francesa e americana) podemos observar que todos eles são desencadeados por uma espécie de bloqueio, quer social, político e/ou artístico, que impele uma nova geração a produzir algo diferente e (geralmente) melhor. Tudo indica que agora atravessamos um momento “pré-revolução” que já ameaça estalar há anos mas que se tem mantido firme. Como um adulto que cresceu com a época de ouro dos blockbusters é decepcionante constatar que este é o Futuro para o qual “Jaws”, “Indiana Jones”,”Die Hard”, “Back to the Future” e companhia caminhavam. Mesmo no então diminuto mundo das BD era possível encontrar exemplos de qualidade nos “Superman” de Richard Donner e (este sendo um gosto mais adquirido) em “Batman: The Movie” de 1966, uma interpretação da personagem que aceita e abraça toda a tolice da sua origem com gosto. Em 1989 foi a vez de Tim Burton apresentar a sua própria visão de Gotham e do seu vigilante, visão cujo sucesso estrondoso estabeleceu um ideal que muitos tentaram replicar na década seguinte até o peso dos flops ter acabado por fazer sucumbir o sub-género inteiro, tornado-o indesejável por alguns anos.

Ao mesmo tempo a Marvel dedicava-se a vender os direitos cinematográficos das suas personagens em massa para evitar abrir falência. As BDs estavam a um passo de se tornarem os novos Westerns até que a perspectiva mais moderna e ligada à realidade de “X-Men” de Bryan Singer tirou os super-heróis da casota com ímpeto suficiente para nos levar até ao “Spider-Man” de Sam Raimi, duas franquias que acabariam por resultar nas duas trilogias de sucesso que são parcialmente responsáveis pelo conteúdo que tem vindo a tomar as salas de cinema de assalto desde 2008. O sucesso de ambas deveu-se, em parte,  à forma em como estas conseguiram conjugar a leviandade do humor com a dureza da acção e o aspecto “fantástico” dos seres sobre-humanos de maneira a que cada elemento possuísse a dose certa de “estranho” e “normal” para o tornar mais relacionável, um aspecto que até à data raramente havia merecido atenção e nunca havia sido aperfeiçoado.

Pessoalmente os meus dois exemplos preferidos já mantêm essa posição de preferência há anos e à medida que o ritmo de lançamento de super-heróis para a tela aumenta, mais me convenço que essa condição está cada vez menos ameaçada. São eles o Clark Kent de Christopher Reeve e o Peter Parker de Tobey Maguire. Ainda que o título do texto estrague a surpresa sobre qual deles escolhi para falar tenho de estabelecer o porquê do puto de Queens sair por cima do homem de Krypton já que tanto um como o outro possuem as características que considero ideais para o tema em questão. O apelo da personagem reside na conjugação soberba entre o ideal físico e filosófico que esta representa e o respeito que Richard Donner e Christopher Reeve demonstram por essa sinergia é a chave que estabelece o núcleo emocional dessas aventuras. Contudo há uma presença constante de falhas, fraquezas e más decisões na vida Peter cinematográfico que não se regista nos filmes de Donner já que a maioria dos momentos em que Clark surge numa posição de fraqueza não são mais que um ardil para manter aqueles à sua volta (principalmente Lois) alheios à sua verdadeira identidade. Já Peter é sempre um perdedor mesmo no seu melhor momento, condição essa que não é usada apenas para extrair algum humor à sua custa mas como um lembrete periódico do homem por detrás da máscara que acaba por tornar o Aranha mais aliciante como retrato humano e bom exemplo de como arquitectar não só um super-herói mas uma personagem em geral.

Desde o 1º filme Sam Raimi nunca se acanhou de mostrar o lado mau de se ser Peter Parker (quer pré ou pós aranha radioactiva) mas fê-lo ao incluir acontecimentos onde Peter é um actor quer passivo ou activo nas partes que acabam por tornar a sua vida menos boa. Por um lado temos a vertente onde a sua disposição tímida o leva a ser ridicularizado pelos colegas e staff da escola, ignorado pela rapariga dos seus sonhos e esquecido por basicamente todos os restantes à excepção dos seus tios e do seu amigo Harry, a representação corpórea de tudo o que Peter pensar querer ter e ser. Isto estabelece Peter como “um bom rapaz”, o que seria o suficiente para a mesma companhia 10 anos mais tarde mas não em 2002. Em 2002 havia um Sam Raimi à procura de mostrar serviço num filme de larga escala onde as ferramentas à sua disposição eram o melhor amigo de Leonardo DiCaprio e um tipo de filme que ninguém queria ver. Felizmente para ele “filmes que ninguém quer ver” e “fazer estrelas dos amigos” são a sua especialidade (basta perguntar a Bruce Campbell) e, a julgar pela folga na trela deixada pelo estúdio para este primeiro capítulo, a sua escolha por parte do estúdio não foi um mero acaso. Para todos os efeitos, “Spider-Man” não é tanto um filme Sony como é um de Sam Raimi já que as impressões digitais do autor, presentes por toda a parte, contribuem imenso para a existência profundamente desejada de um sentido de identidade. Assim sendo, o mesmo adolescente que havia sido estabelecido como um tipo calado, inteligente e pacato acaba por participar num combate ilegal de luta livre que conduz ao seu envolvimento com a morte acidental de dois homens que deixam cicatrizes emocionais a condizer, tudo antes do final do 1º acto. E o público adorou.

 

 

 

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Sobre o Autor

Os seus hobbies incluem: 1. Procrastinar / 2.