Artigo | Peter Parker vs. o Mundo – Parte II

 

 

No fundo é essa a base do sucesso da trilogia original: o equilíbrio entre momentos bons e maus que humanizam o herói. Hoje em dia o protagonista-modelo de um filme do mesmo género mantém a mesma exacta postura durante todas as suas aparições já que a sua única função no final de contas é passar incólume entre as cenas de acção mais insufladas que o dinheiro pode comprar para ter a oportunidade de nos deleitar com mais uma dose de humor algures entre o inconsequente e o banal. Qualquer sugestão de negativismo é suprimida ao mínimo indispensável pois a sua existência vai directamente contra a promessa de escapismo que estas bombas calóricas de celulóide representam. Até a própria noção de morte parece estar abaixo do mais comum dos mortais. Por outro lado a trilogia “Spider-Man”, que nunca fez por abdicar da dose de humor e acção que se espera de qualquer blockbuster, sempre apetrechou Peter com uma bagagem de dilemas e perdas pessoais com que todos, de uma forma ou de outra, se podem relacionar. A própria base moral de toda essa jornada – “Com grande poder vem grande responsabilidade” – não é apenas uma frase que sobressai num momento de elevada carga emocional mas um mote filosófico que atribui alguma textura extra aos homem/adolescente que sai em collants garridos para lutar contra malfeitores. O poder dessa mensagem não recai necessariamente no seu tom (que não é propriamente negativo ou positivo) mas na sua capacidade de estabelecer num pequeno lema todo um pilar moral que será abordado e testado ao longo de toda a história.

10 anos depois, o equivalente mais próximo a uma cartilha de valores no mesmo meio é algo como o discurso de Jonathan Kent em “Man of Steel” onde este aconselha um Clark pré-adolescente a esconder os seus poderes do Mundo após este ter tido o desplante de os ter usado para evitar que um autocarro cheio de crianças se afundasse. A segurança do medo a prevalecer sobre o perigo do dever – um pensar à altura do produto que é vendido. Ainda que esse tipo de niilismo tenha sido uma constante de dimensão directamente proporcional à da peça onde se insere (não esquecer: o Cinema à larga escala é um negócio), não houve, na minha opinião, um período da História onde este afectasse a indústria ao ponto de tão poucos títulos de alto orçamento terem o impacto que o dinheiro e horas de trabalho gastos a produzi-los fariam esperar. Mesmo dentro do magnânimo MCU a vida útil de cada uma das suas partes tem vindo a mirrar. Ainda que muita gente esteja ansiosa para ver “Thor: Ragnarok” quantos deles parariam o que estão a fazer para apanhar qualquer um dos capítulos anteriores? Ou “Ant-Man”? Ou 80% do restante catálogo? Salvo poucas excepções (ex: “Iron Man”, “The Avengers”, “Guardians of the Galaxy” e “Captain America: Winter Soldier”) cada novo capítulo do MCU cedo parece ver a apoteose com que foi recebido transformar-se em pura indiferença pois o que atrai realmente as pessoas não é a perspectiva de ver algo como um arco narrativo bem delineado mas sim a possibilidade de rever personagens que já conhecem a fazer o tipo de tropelias que tornaram coisas como a plataforma Vine tão populares. O prazer retirado da experiência é efémero mas é o suficiente para que ao sair da sala a maior parte do público fique com vontade de repetir a experiência 6 meses mais à frente, que é também a razão pela qual filmes como os da Marvel acabam por ter maior reconhecimento do que os da DC: apesar de tudo, a maioria das pessoas que pagou para os ver não sai mais deprimido do que entrou.

Aos poucos esta enxurrada acabou por ter um efeito no público que cada vez mais me convence que os blockbusters de há 10 anos atrás eram obras perdidas de Shakespeare quando comparados com aquilo que nos espera nas salas hoje em dia. Para pôr isto em contexto gostaria de descrever a experiência de ver 2 filmes com uma audiência no mesmo exacto cinema em 2007 (“Spider-Man 3”) e 2016 (“Captain America: Civil War”). O que quero salientar em relação aos 2 filmes é a reacção a 2 cenas específicas (1 em cada filme) e que cuja diferenças resumem, para mim, perfeitamente a forma como uma audiência-tipo respondia e responde a 2 momentos relativamente semelhantes no campo emocional.

Todos nos lembramos da agora infame sequência em “Spider-Man 3” onde a influência negativa de um organismo alienígena torna Peter… estranho. A sequência (que imagino ter sido pensada como uma pausa humorística num filme carregado de melancolia) onde este dança pelas ruas abordando mulheres munido de um penteado emo que faria Gerard Way corar de vergonha revela-se uma escolha tão bizarra face ao resto do filme que poderia perfeitamente ter sido retirada do próximo “Guardians of the Galaxy”. Ainda assim os momentos em que este novo Peter em modo palhaço acaba por descarregar a sua frustração em Mary Jane e Harry de forma bastante fria assinalam a presença de alguns rasgos de “clareza” que acabam por lhe atribuir alguma validez. Por muito embaraçoso e ridículo que o todo tenha acabado por se revelar,qualquer sugestão de gargalhada que fora arrancada da audiência até esses momentos foi efectivamente silenciada já que a ligação entre o grau de violência empregada, o agressor e o agredido(a) foi correctamente interpretada como abusiva e obteve a resposta emocional à altura. Ao mesmo tempo é um exemplo tão básico de “acção-reacção” que toda uma equipa de profissionais confiou que este não passasse ao lado de um público-alvo composto maioritariamente por seres cujos conceitos de tragédia se limitavam a acne, a separação dos DZR’T e romances de 15 dias .

Quase uma década à frente encontrava-me no mesmo espaço a assistir à perseguição aérea entre James “War Machine” Rhodes e Sam “Falcon” Wilson que termina quando o primeiro é alvejado com um projéctil destinado ao segundo. Rhodey cai desamparado pelos céus numa sequência legitimamente acima da média do campo Marvel onde a câmara escolhe não descortinar a sua distância ao solo enquanto se foca no esforço dos seus companheiros em alcançá-lo, mantendo a tensão do momento sempre à tona. Tudo acaba por ser vão quando James se despenha enquanto Sam e Tony Stark observam sem poder fazer nada. Embora os dois não sejam realmente inimigos há um clima de rivalidade no ar intensificado pelos desenvolvimentos da disputa entre Tony Stark e Steve Rogers que faz com que o milionário egocêntrico e o veterano de guerra estejam de costas bem voltadas muito antes deste último ter causado, inadvertidamente, o acidente que pode ter acabado de vitimar o melhor amigo do primeiro. É por isso que quando o pedido de desculpas sentido de Sam recebe um disparo de Tony como resposta a reacção esperada seria uma de surpresa, consternação ou mesmo mágoa pelas implicações que acabar  por tecer sobre as três personagens. O que não esperava era um coro de gargalhadas. Em toda a minha vida como frequentador de salas de cinema não tenho memória de presenciar uma disparidade tão grande entre o que acabava de passar na tela e o seu efeito na plateia. Na altura não fiz esta associação mas meses depois, ao apanhar por acaso uma transmissão de “The Avengers” na TV, notei as semelhanças desta cena com uma no final desse filme onde Tony sofre um destino semelhante ao de James. Aí a nota sentimental é a mesma, com o plano a saltar entre as caras de caso do grupo ao som de uma nota aguda de violino, mas ultimamente esse sentido de tristeza é derrotado pela comédia de Tony a acordar com o rugido do Hulk. Aí é criado um espaço para uma gargalhada/respiro de alívio já que aquilo que se tomara como o pior não ocorreu. O mal foi vencido, os heróis sobreviveram, está tudo bem, missão cumprida.

Em “Civil War” a estrutura da cena em si pode ser semelhante mas o seu contexto dentro da história não o é. Este momento ocorre algures no 2º acto do filme logo após uma grande batalha entre os dois lados onde nada acaba por ficar resolvido, a tensão mantém-se alta e não há nada na performance dos actores que deixe escapar o mesmo cinismo com que as suas personagens tendem a abordar situações mais sérias 90% das vezes. Aqui não se regista o mesmo salto entre tragédia e comédia pelo que a reacção registada naquele dia continua a ser, até hoje, o momento mais bizarro que já vivi numa sala de cinema (e eu estava lá quando o nome “Martha” travou uma tentativa de assassinato com sucesso). Terá o blockbuster ido longe demais e tornado a noção de “um bom bocado” com um filme sinónimo com o menor denominador comum entre adrenalina e humor? Sinceramente acho que não mas acho também que já estivemos a uma distância mais confortável desse ponto quando as franquias com maior volume de bilheteira e influência não se encontravam tão juntas debaixo dos mesmos estandartes, encorajando a competição que nos levou de “Jaws” a “Lord of the Rings”.

À hora em que escrevo estas palavras ainda não tive a oportunidade de ver Tom Holland, o mais recente Peter Parker, em acção pelo que posso estar a um passo de ter que as engolir mas a julgar pelo único trailer que me atrevi a espreitar e a maior parte dos 15 filmes da era Kevin Feige caminho para outra desilusão. Ainda que a versão de Andrew Garfield tenha tido a sua maquia de escolhas duvidosas e estado aquém do seu antecessor é também verdade que possuía um charme natural quando dentro do fato e/ou nas suas interacções com Gwen Stacy que, pelo menos, deixam alguma vontade de rever alguns desses momentos numa incursão esporádica no Youtube. Sob o controlo da Marvel temo que esse padrão desça ainda mais e que aquilo que distingue Peter Parker dos demais se perca na eventualidade da Marvel/Disney proceder com a sua especialidade: homogeneizar o seu plantel. Ainda que espere sinceramente estar errado quanto a esta matéria, sejamos francos: não vou estar, pois não?

Digo eu.

 

 

 

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